É tudo sobre o poder, mas não esse poder em que estás pensar. O poder que mantém o sul das Américas encostado às cordas por forças criminosas e África em constante luta pela sobrevivência a ser engolida por conflitos alimentados por mãos externas. Já todos conhecemos as histórias, as consequências, as causas e as parcas vontades de fazer acontecer, de fazer mudar, de fazer. É tudo sobre o poder, do poder viver, do poder acontecer que está inerente a cada um destes homens e mulheres que optam por fazer viver a arte em locais onde pouco mais há a esperar que a morte. Que ela venha e termine o que o homem arrastou dias sem fim, meses sem lembrança concreta de início, anos sem número, anos a contar dias sem fim de trabalho de poucos frutos, a contar cadáveres e sonhos por nascer. O poder da arte e o poder de simplesmente poder, de simplesmente acontecer. Os Songhoy Blues chegam de lá, de onde a morte é mais certa que aqui, de onde é preciso, ainda mais do que aqui, simplesmente fazer acontecer.

Filhos de alma de Ali Farká Touré –  apesar de três deles carregarem a benção do nome Touré, nenhum é aparentado com o mestre -, a música dos Songhoy nasce exactamente nas fontes criativas do músico maliano. Descobertos para o mundo por Marc-Antoine Moreau aquando das audições feitas para o projecto Africa Express de Damon Albarn, que na altura reuniu num só trabalho uma série de artistas do Mali e os juntou a um pequeno exército de luz onde militavam Brian Eno, Nick Zinner dos Yeah Yeah Yeahs, membros dos Django Django, Ghostpoet, entre outros, os Songhoy recusam-se a ser apenas mais uma banda de desert blues. E se no disco de estreia, Music In Exile isso está patente, é em palco que toda a alma expansiva e criativa de Garba Touré, Aliou Touré, Oumar Touré e Nathanael Dembélé presta o seu tributo às raízes do seu povo, o Songhoy a quem pediram o nome, e ao legado do desert-rock que Ali deu ao mundo e a toda uma fusão de tantos detalhes. Mas mais além eles vão. A comparação mais que estafada a conceitos de viagem e de transversalidade sonora torna-se pobre depois de uma noite com os Songhoy.

Mais que um desfilar de canções o que os Songhoy nos trazem é um desfilar de emoções. Se “Irganda” é aquilo que se espera deles, o blues que cheira e tresanda a calor, “Petit Metier” reduz as velocidade e realça a revolução que devia haver em nós. O corpo hirto toma o controle e de punho cerrado no ar se marcha em direcção à liberdade. “Sourbour” deve assombrar as noites de Dan Auerbach e Patrick Carney por não ter a assinatura The Black Keys. “Al Hassidi Terei” é ritual espiritual mas é também uma dança de guerra, de esconjuro que toma as carcaças humanas sem contemplações. É para dançar para poder sorrir e respirar, ocidentais reencontrados. Mas é além, além dos mares, além das terras sem horizonte, além de títulos de canções que se faz um concerto de Songhoy. É da comunhão e da observação que eleva o espírito a que Aliou Touré nos conduz com os ritmos de Oumar e Nathanael e a guitarra ora circular ora tomada de assalto por um demónio mascarado de Hendrix. Mas os olhos, esses não largam Aliou.

Aliou é mestre de cerimónias. Não como esses que estão a pensar. Esses bonitos e bem vestidos numa qualquer entrega de prémios. Não! É o sorriso bonito que nas ruas de pó e pedra desfeita te vem convidar a dançar, a beber mais uma cerveja no boteco onde ele e os amigos estão a tocar, na beira da estrada, onde a cada carro velho que passa a núvem de pó é apenas mais uma palavra no poema supremo de ser feliz. Ele dança com os olhos no além do céu que pode ser o tecto maravilhoso do Teatro da Trindade ou o firmamento mais puro de Timbuktu que os viu nascer. Ele dança com os demónios a sair um a um porque é isto que as canções devem fazer, ele atravessa África como um menino que agora descobriu que pode dançar. O blues anda por ali quase sempre, mas também andam outras Áfricas, anda um r&b único, anda o rock rápido e quase punk, (a versão de Should I Stay Or Should I Go dos The Clash que faz parte da edição Deluxe de Music In Exile não é um mero acaso), andam aquelas tonalidades que pintam tanto do indie-rock de hoje. É estranho? Não! É um privilégio! É um privilégio ver uma sala em pé a dançar com este homem, este rasgo de felicidade comovente. Sim, a felicidade também faz chorar. É muito mais raro mas também faz chorar.

O Ciclo Mundo, organizado pela Fundação INATEL em parceria com o Festival de Músicas do Mundo de Sines continua hoje com Kayhan Kalhor e Toumani Diabaté. Para recordar os concertos de Jambinai e Ballaké Sissoko + Vincent Ségal é clicar e seguir viagem.

As imagens de Luís Custódio para ver aqui:

Songhoy Blues @ Teatro da Trindade INATEL