“Souvlaki Space Station” chama Terra. O planeta daqui de cima é tão bonito! E independentemente da data que aí em baixo estiver a ser marcada no preciso momento em que lerem estas palavras, estejam vocês em 92, 2018, 2965, ou até mesmo perdidos no tempo, o planeta visto daqui será sempre mas sempre, sem conceitos de tempo, tão bonito. Clear.

Podíamos discorrer entre palavras e parágrafos sem fim sobre a história, sobre a cronologia, sobre o papel no espaço que os Slowdive tiveram no tempo em que sonhar não era uma opção: era um modo de vida. Podíamos pensar juntos se a primeira encarnação corpórea da banda de Neil Halstead e de Rachel Goswell esteve no sítio errado na hora errada. Se vivessem entre as paredes da 4AD em vez das da Creation, talvez tivessem sobrevivido aos lads do britpop? Talvez. Se os dois fundadores não se tivessem desapaixonado, teria sido o mergulho mais longo? Talvez. Talvez também se os músicos não se fossem transmutando e acumulando outras vidas nos seus instrumentos, tivessem os Slowdive existido de uma forma mais prolongada nos calendários de gerações que, com o desaparecimento gradual do dreampop e do shoegaze, se foram esquecendo do que era o sonho a gotejar de forma espacial e etérea nas cordas de uma guitarra. Mas depois não haveriam os Mojave 3 nem haveria Sleeping on Roads de Neil a solo e pela tão certa 4AD. Ou haveria, porque das histórias que ficam por viver ou contar não reza a história do que fica entre o que se deve e o que deveria haver.

Os Slowdive chegaram a meio do sonho quando os My Bloody Valentine ou os Spaceman 3 diziam que já não dava para estar mais no meio de tanto ruído no lado etéreo da vida. Do lado de lá do mar, a raiva contava mais que o amor, e nas ilhas a cerveja, o futebol e a vida domingueira (sim, é uma forma muito redutora de contar a história) serviam de inspiração para o indie pop e o rock de pub metido a intelectual. Provavelmente, nunca o enterro de um género, mesmo que provisório – como se viria a provar com a nova vaga dream e shoe -, teve uma banda sonora tão sublime: ao mesmo tempo que a banda de Reading lançava Just For A Day em 91, gravitavam na mesma galáxia os Swervedriver, os Ride, as Lush e Kevin Pierce fazia nascer das cinzas do terceiro homem do espaço, os Spiritualized, que pouco tempo ficariam dentro das fronteiras espaciais do shoegaze, indo até ao infinito e muito mais além.

Slowdive @ Hard Club

“Souvlaki Space Station” chama Terra. “Souvlaki Space Station” pede autorização para enviar uma nave a Lisboa para uma primeira missão de exploração. Over. Autorização concedida? Roger that, e os Slowdive aterram na capital para a primeira de duas datas em Portugal. A acoplagem é perfeita.

E se só por um dia ou só por breves momentos fosse realmente indiferente que a história tenha sido interrompida? Os Slowdive regressam aos discos em 2017 como se tivessem fechado Pygmalion num dia e começado a escrever o novo álbum no dia seguinte. Em Lisboa, as marcas do tempo revelam-se tão resumidamente ao plano palpável. Os ingleses tocam para uma plateia de uma transversalidade etária poucas vezes vista. Adolescentes de cabelo cor-de-rosa, cartazes em jeito de declarações de amor a Flo (o The Pink Flamingo que acompanha Rachel), lado a lado com as rugas e cabelos tão cinzentos como a Inglaterra que os viu nascer no final da década de 80. No palco, o tempo passou por eles mas não passou pelas marcas daquilo que os fez Slowdive: a voz constantemente fragilizada e fugidia de Goswell, as linhas de baixo de Nick Chaplin que fraseiam em melodias os pulsares cósmico-flutuantes dos versos rítmicos de Simon Scott e as guitarras transcendentes de Savill e, principalmente, de Halstead, o homem do comprimido dourado que comanda a nave e onde tudo se encontra para fazer sentido.

Neil Halstead é, em palco, de forma muito mais clara que nos quatros álbuns dos Slowdive, o alpha e o omega de tudo. É a pista de descolagem e o prado da aterragem de urgência, é o plano flutuante onde tudo acontece e é a emergência do voo. A voz delicada de menino tímido do espaço que comanda o sonho, a anti-barragem que escorre guitarras e cobre de encantamentos noise e dreamy os véus do embalo feérico das canções e o corpo que se esconde constantemente no dark side of the stage, fazem de Neil um contra-herói, um silver surfer que faz canções porque tem de as fazer… não para as oferecer a muito mais do que um simples alguém anónimo.

O tempo presente conjugou-se, nesta noite, entre as palavras e o plano supremo. Canções de Slowdive como “Sugar For The Pill”, “Star Roving” e “Don’t Know Why,” fizeram o tempo ser mera figura de estilo para se conjugar num passado com pretérito muito mais que perfeito e se encontrar descronologicamente com “Dagger”, “Allison” e “40 Days”, todas de Slouvaki. Mas o mapa estelar na palma das mãos dos Slowdive leu-se também em “Crazy For You” e “Avalyn” e em estações de serviço espaciais e obrigatórias como “Allison”, “Catch The Breeze”, “Slowdive”, “When The Sun Hits”. E claro, por “Souvlaki Space Station” e uma versão supra-terrena e sem espaço para habitar no espaço de “Golden Hair”, de Syd Barrett. Existe alguma palavra para descrever o acto detalhado do ar a esgotar-se repentinamente nos pulmões? Se sim, é inserir junto a esta cover.

Foi algo mais que magia, foi algo mais que maravilhamento a observação do sol dourado e negro dos Slowdive a atingir o ruído do mundo para dizer outra vez que sonhar não é uma opção, é um modo de vida. I thought I heard you whisper, It happens all the time. 

Copy. “Souvlaki Space Station” confirma, a nave vai deixar novamente a  Terra. Over and out…

(Aquele parágrafo que não coube no texto e que celebra os parisienses Dead Sea começaria assim: e se um dia Liz Fraser dos Cocteau Twins quisesse dançar com os Stereolab e as Au Revoir Simone e andasse a uma dieta de Washed Out, Young Galaxy e Broadcast, possivelmente daria nisto… e ainda bem. Os Dead Sea fazem correr tão bem aquilo que os Beach House teimam em falhar no que toca a concertos ao vivo. Há carisma, há envolvimento e sedução e há canções que brilham como a luz ténue da manhã em Saturno… ou na Avenue des Champs-Élysées, que deve dar o mesmo efeito. Olho nestes franceses, s’il vous plaît). Agora sim… Over and out.

Vê também: Fotogaleria de Slowdive no Hard Club, Porto, pela lente do Marcelo Baptista