'Starmaker', uma cósmica carta de amor country por Honey Harper
86%Overall Score

O que interessa é a viagem, o destino é só uma consequência. Chavões à parte, Starmaker é um disco sobre a viagem que é Starmaker. E isto não é estilo, é facto. Honey Harper, cowboy de rodeos sentimentais no espaço infinito além da exosfera, foi-se observando durante todo o processo de escrita do disco de estreia, enfrentando-se como se o papel e a caneta e as cordas da guitarra fossem um espelho psicanalítico que só o reflectia a ele mesmo. O medo de falhar, a necessidade sincera de sucesso não por ego, mas por afago.

Escrito ao longo de três anos ao lado da sua companheira Alana Pagnutti, o álbum que traz William Fussell para a frente de um jogo de destino que parecia ser o seu desde há muito é, segundo ele, um disco de country para pessoas que não gostam de country. E sim, a ossatura de que se faz estas estrelas é country, mas são tão apenas uma estação espacial a partir da qual o músico faz decolar tantos outros satélites de amor quanto lhe é astronauticamente possível.

O artwork de Starmaker remete Honey para uma pradaria de pó cósmico de ambiguidade onde certamente um dia Orville Peck colheu muita da sua inspiração. Mas Fussell não canta sobre o mesmo tipo de amor e solidão que Peck: ele canta sobre o amor, ponto final. Sobre o amor, ponto final, e sobre os parágrafos que o amor vai espaçando, sejam os da solidão, perda ou morte. Os satélites de amor de Honey têm um toque plasmático, ganham contornos vários em contacto com o cheio que o seu universo é, enquanto ele mesmo vai recalculando as rotas de cada um dos temas consoante a direcção que necessita que a canção tome. Vai polvilhando com as doses de psicadelismo adequadas quando o destino é etereamente cósmico, com recordações levadas de passagens pelo Hawaii numa longínqua fase terrena em diálogo com Presley, com rock clássico semeado na década de 70, com Graham Parsons, Roy Orbinson, com Chicago, até mesmo com a imensidão dos plateaux da era dourada de Hollywood e com o homem supremo do espaço, David Bowie, e o seu acólito Brett Anderson.

Honey Harper não dispara para os confins do espaço, nem aterra no planeta com Starmaker. Honey Harper está lá em cima a observar, a sentir e a fazer chover chuvas de estrelas sob a Terra. Se o country lá em cima é assim, é domar a primeira constelação e montá-la através da imensidão que Honey acaba de abrir para ser viajada. Demasiado bonito para ficar apenas a ver!