Vindos directamente da Ucrânia, os Stoned Jesus são um power trio de stoner/doom e uma das ofertas mais diversas dentro do género. Ao longo dos últimos cinco anos têm feito as delícias dos amantes da música underground com álbuns como First Communion e Seven Thunders Roar, que chamaram atenção pela mescla eficaz de géneros desde o hard rock, o proto-punk, caminhando até ao rock progressivo puro e duro.

Em 2015, a banda composta por Sergii Sliusar, Viktor Kondratov e liderada pelo compositor e liricista principal Igor Sydorenko, gerou alguma controvérsia com o terceiro disco, The Harvest. Contendo algumas das canções mais directas da banda, bem como temas líricos polverizados com questões sociais delicadas, a terceira incursão viu os Stoned Jesus seguir uma direcção mais simplista, não obstante eficaz e com toda a pujança do costume.

Depois de uma muito bem recebida estreia em solo nacional nesta edição do Reverence Festival Valada onde nem sequer faltou uma homenagem aos britânicos The Prodigy, a Tracker sentou-se com o grupo nos bastidores para falar com o homem do leme, Igor Sydorenko. Durante a conversa houve a oportunidade de abordar as questões sociais que influenciaram alguns temas, a vontade de querer passar uma mensagem, a escolha da forma mais eficaz para o fazer e ainda se deliberou sobre albuns de dubstep.

De todos os vossos discos, o mais recente, The Harvest, é aquele com as canções mais curtas da vossa carreira. Pode dizer-se que houve um esforço para fazer a vossa música mais incisiva e directa?

Foi uma escolha bastante natural… Por exemplo, a “Here Comes The Robots” tem quatro anos e a “Wound” tem três e nós fomos trabalhando nelas porque havia uns versos que não eram muito bons (risos).  Isto para dizer que não foi uma decisão de último minuto ou uma escolha apressada do género “ohh, vamos lá fazer músicas pop de 3 minutos”. Na altura também estavamos a dar muitos concertos e chegamos à conclusão que se temos uma ideia muito fixe não há realmente necessidade de a alongar para sete, dez minutos. Se tens algo que pode ser dito em três minutos, diz-lo em três minutos, não há mal nenhum! Nós gostamos muito destas canções e damos-lhe valor. “A Here Come The Robots”, por exemplo, tem o papel muito importante de fechar o nosso set.

E acham que este formato permite-vos ser mais concisos na mensagem que querem expressar? Nas coisas que querem dizer e nos sentimentos que querem partilhar?

Na verdade este formato ajuda. Ajuda a que o conteúdo chegue melhor a quem nos ouve. Mas por outro lado, será que queremos pessoas que só conseguem pensar em três minutos? O pessoal dos Tool nunca corta as suas canções para os videoclips. Se a canção tem sete minutos, o videoclip, se for preciso, tem dez minutos. Que se lixe (risos). A natureza da nossa música tem uma questão parecida no sentido em que às vezes é difícil ter tudo feito em três minutos. A “Here Come The Robots” é um exemplo muito fixe de termos conseguido isso, mas depois temos músicas como a “Silkworm Confessions” que tem oito, nove minutos porque não dá mesmo para caber num formato mais curto. Vão ter que ouvir a coisa toda, desculpem (risos).

Considerariam então o vosso novo álbum como o mais confrontacional da vossa carreira a nível lírico e sónico?

Nós achamos mesmo que este é o nosso melhor álbum precisamente por isso: este é o álbum que realmente reflecte o estado em que estamos, o estado da nossa mente, o estado do nosso Estado… E ainda por cima tem um som que nos agrada bastante. Falando em confrontacional, não foi intencional. Mais uma vez desaguou de uma forma muito natural. Foi a forma que eu, como o escritor das letras, me senti, e a forma como nós os três decidimos que seria assim que iriamos fazer este disco.

As preocupações sociais são muito tangíveis em algumas canções como “YFS (Youth For Sale)”, gostariam de explicar sobre o que trata esse tema em específico?

A “Youth For Sale” é, de muitas maneiras, a canção-chave para o The Harvest porque claramente reflecte a situação socio-política do nosso Estado e foi escrita na sua maioria sobre os media de uma forma negativa. Sobre a propaganda, sobre todas estas tretas que fazem com que companheiros e irmãos se virem uns contra os outros e lutem uns contra os outros. Eu escrevi a letra em dez minutos e apercebi-me que consegui literalmente dizer tudo o que queria, tudo o que sentia. Não usei metáforas, nem aquele imaginário oculto do stoner rock do género “sim, gente, a guerra é uma coisa muita má”, consegui ser muito directo e dizer literalmente “não vou comprar esta merda” [“I’m not buying this shit”, na canção]. A canção em si é mesmo muito poderosa. Nós gostamos mesmo dela. É uma canção muito tensa e nós tocamo-la em todos os espetáculos. Desde a sua estreia, há uma ano e meio, já a devemos ter tocado oitenta vezes… Precisamente porque a ideia é espalhar esta mensagem.

Tornou-se portanto num marco, numa declaração no vosso espetáculo ao vivo…

Definitivamente!

Há a sensação que há um caminho de progresso e aprendizagem para atingirem uma configuração específica que vocês querem no vosso som ou trabalham mais com base em devaneios repentinos que depois decidem desenvolver?

Mais uma vez, acontece de forma muito natural. Não me sento e penso: “ok, quero uma canção que tenha este riff colossal tipo Metallica, e depois uma secção toda proggy e com letras tiradas de um disco dos Genesis”. Isso seria estúpido porque não é escrever uma música, é fazer um puzzle ou fazer uma construção Lego. Seria contra-natura e desonesto. As pessoas sentem a falta de sinceridade como os tubarões sentem o sangue… nota-se a milhas. Se não é para ser sincero não vale a pena fazer as coisas, é mau para a banda e mau para toda a gente pois ninguém vai acreditar naquilo que está a ouvir. Portanto sim, foi tudo muito natural e lá porque este álbum tem canções de três minutos, não quer dizer que o próximo vá ter canções de dois minutos.  Até o The Harvest tem a “Black Church” que tem 15 minutos. Depende da ideia… Se a canção funciona só com verso, refrão, verso, refrão, como a “Wound”, então não é preciso por lá um solo de blues só porque sim, só porque é da praxe. Não há uma estrutura fixa.

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No vosso núcleo são uma banda de stoner/doom, no entanto, dentro da vossa cena, vocês são um grupo bastante eclético no que toca a influências e géneros. Desde os devaneios mais blues do Seven Thunders Roar até a este The Harvest, onde fazem caber estas composições rock muito in your face juntamente com algo como “Black Church”, discutivelmente a peça de música mais exótica que já fizeram. A experimentação é crucial para os Stoned Jesus?

Sim. É algo que não se pode tirar da nossa banda. Em primeiro lugar, porque os rapazes são um filtro muito fixe para mim. Eu poderia ter feito centenas de “First Communion”‘s e ou “Seven Thunders Roar”‘s porque tinha várias ideias do género, mas na altura de as apresentar à banda eles ficavam do género “bem, se calhar é demais” e eu às tantas apercebia-me que eles tinham razão. É sempre bom ter outra visão para além do “eu” e é sempre bom conseguir evoluir e não ficar com mesmo som durante anos e anos, porque isso provoca tédio. Quer dizer, isso funciona com os Motörhead, mas não com outras bandas (risos).

Assumem a mudança então como um desafio ao qual querem responder…

Sim, sim… mais uma vez acontece muito naturalmente. Mas não é como se de repente fossemos decidir que deviamos fazer um album de dubstep (risos).

No início do projecto Stoned Jesus as composições e as letras eram essencialmente todas fruto da mente do Igor. Entretanto, o elenco da banda consolidou-se nestes últimos anos. Isto alterou o processo de composição para o novo disco? Há uma maior recorrência, por exemplo, a jams, de modo a construir canções novas?

Nós gostamos de fazer jams, não tanto para estruturar as canções, mas mais para “flectir os músculos” e nos exercitarmos musicalmente. E no The Harvest ainda houve algumas canções antigas, por isso acabou por incidir um bocado em mim. Se bem que desta vez estive muito mais aberto àquilo que os rapazes tinham para dizer. O Sergii teve a ideia de por uma sequência de drum machine na “Black Church” e eu disse “sim, ‘bora lá!” (risos).

Então é seguro dizer que este é o disco que melhor vos representa, a nível de ter elementos de vocês os três…

Sim, sim… É muito menos um disco individual e muito mais um disco de Stoned Jesus.

A “Here Comes The Robots” tem muitas imagens sobre renúncia e resistência aos métodos mais artificiais de viver a vida e toda esta insurgência das redes sociais e da dimensão virtual. O que é que vocês acham do papel actual da tecnologia na vida das pessoas e a maneira como elas se comportam em relação a todo este novo furor?

A canção não é assim tão directa ou literal… Desta vez há várias metáforas e ideias. Fala sobre alguém que não está pronto, que não quer fazer isto por haver tantas coisas à sua volta que não são suas e que não lhe agradam. É uma canção muito desconfortável no ponto de vista do heroí lírico. Apesar disto, não é depressiva, ele não está a chorar sobre estas coisas, não se está arrastar. Ele está muito zangado. E ao vivo é isso que se vê, é um murro gigante na cara, daí ser escolhida para acabar o alinhamento. É uma posição a ser tomada.

E achas então que as pessoas devem tomar uma posição contra estes robôs, esta vida artificial?

É uma boa questão… porque não podemos ter tudo a preto e branco. Se nós não tivessemos a nossa conta de Facebook não estariamos a tocar aqui, portanto, nunca há só uma dimensão. Há várias faces da mesma moeda e é necessário tentar navegar de modo a evitar as coisas piores e tirar o melhor. Agora estou a soar como o Captain Obvious mas é verdade (risos). É preciso ter a habilidade de distinguir uma coisa da outra e adaptar aos contextos.

Por fim… Querem deixar algum recado para o público português?

Devem esperar mais Stoned Jesus em Portugal no futuro próximo… Não apenas um espetáculo de 50 minutos, mas uma coisa em nome próprio. Esperemos que em breve!

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