A 20ª Edição do Super Bock Super Rock ofereceu uma variedade de concertos e géneros musicais que invadiram a Herdade do Cabeço da Flauta desde o primeiro dia. Com alguns problemas técnicos que se iniciaram desde o arranque do festival – que não se mostraram suficientes perante a qualidade dos artistas e a satisfação do público – a celebração da música aconteceu mais uma vez no Meco.

No primeiro dia coube aos portugueses Million Dollar Lips iniciar o festival no Palco EDP que, com vários problemas técnicos que deixaram o concerto parado alguns minutos, conseguiram reproduzir o seu pop electrónico presente no seu mais recente trabalho, Gluttony.

No Palco Super Bock houve uma sucessão de bandas que prometiam grandes momentos musicais. Os Vintage Trouble foram os primeiros a subir ao palco e deram um concerto electrizante e esforçado. O grupo de Hollywood ofereceu a sua reminiscência dos anos 50/60, com reencarnações de Chuck Berry nos seus músicos mais ousados. Seguiram-se os Metronomy, o projecto de Joseph Mount que, com o êxito “The Look” tem conquistado definitivamente o público português desde 2011. Single este que, a par com “The Bay”, não faltou numa noite em que a English Riviera se encontrava longínqua, mas o seu frio presente. A banda inglesa de electropop não surpreendeu. Como lhes é habitual, deram um espectáculo imaculado mas muito pouco excitante, deixando o público pouco entusiasmado. O grande problema desta banda é ser realmente chata ao vivo e oferecer uma técnica invejável e um aborrecimento ímpares. O cenário, no entanto, decorado com nuvens cor-de-rosa naive, adornou o bocejo numa viagem a um imaginário Gondry, cineasta que realizou o vídeo do novo single “Love Letters”.

Os aclamados, e idolatrados Tame Impala invadiram de forma discreta o palco principal e debitaram a sua panóplia de rock psicadélico com fãs devotados a seus pés. O que, para alguns, poderá ter sido um concerto monótono, foi uma demonstração de talento a que Kevin Parker já nos vem habituando neste seu projecto fetiche. Os filhos de Perth não desiludiram e tocaram êxitos como “Solitude Is Bliss”,”Elephant” e “It Feels Like We Only Go Backwards”. Aguardamos por um novo álbum e um concerto em nome próprio rapidamente em terras lusitanas.

Os veteranos Massive Attack, veteranos na música e nas vindas a Portugal, foram arrebatadores em palco num concerto intenso e emocionante que contou com os grandes êxitos da banda, como “Angel”,”Teardrop” e “Unfinished Sympathy”, que deixaram o público a pairar na noite gelada do Meco. Aqueceram corações de todas as idades com músicas interpretadas pelo padrão da banda, um início lento e arrastado e um final em clímax rítmico.

A noite acabou com os irmãos Lawrence do projecto Disclosure e a música electrónica invadiu o espaço e o tempo numa intensidade sonora e visual digna de um espectáculo de cabeça de cartaz. Não me alongo nem na crítica nem na descrição, pois só estive presente nas duas primeiras músicas.

O segundo dia foi marcado por problemas técnicos no Palco EDP que iniciaram uma sucessão de adiamentos de concertos e, por consequência, algum caos no público que demorou a perceber se iria conseguir ver os concertos que tinha planeado, a que horas e em que condições. O alinhamento foi fortemente modificado, mas os concertos aconteceram.

Os Cults apresentaram-se no Palco Super Bock às 20h e, discretamente, tocaram o seu indie pop de forma demasiado ordeira e simples. A banda de Brian Oblivion e Madeline Follin foi lançada para o estrelato através do Bandcamp, com o single “Go Outside” em 2010. A apresentação de “Static” foi demasiado literal.

Os Pulled Apart By Horses dominaram o Palco EDP depois de uma demora considerável devido a problemas técnicos, mas facilmente esquecida pela sua forte postura em palco e o potente som pós-hardcore que dominou o recinto. A banda de Leeds, Inglaterra, é um furacão de riffs pesados e energéticos, misturados com melodias cantáveis. Muito espero destes rapazes num futuro pouco longínquo.

O blues de The Legendary Tigerman prometia ser a grande revelação da noite, num concerto cheio de surpresas. Sob chuva que se foi intensificando, Paulo Furtado foi desvendando as surpresas que tinha para a noite de sexta-feira e cumpriu. Tocou os grandes êxitos, munidos de reforços em forma de orquestra de metais e back vocals de Alex D’Alva Teixeira e Ana Cláudia, como é apanágio dos portugueses, nesta indústria pequenina, trazer os amigos para o palco. O público gostou e é isso que importa.

Cat Power, a grande revelação do indie rock dos últimos 15 anos, não desiludiu em qualidade mas em quantidade. Subiu ao palco com um atraso de quase duas horas e cantou durante 30 minutos. Temas como “The Gratest” ou “Metal Heart”, foram oferecidos com intensidade e carinho, mas nem a chuva de flores com que presenteou no final quem, com emoção, esperou por ela, deu para satisfazer o coito musical interrompido. No palco principal esperava Eddie Vedder.

Eddie Vedder entrou no Palco Super Bock com uma multidão de fãs que o esperava impaciente. O cabeça de cartaz da noite, envolto em polémica sobre as últimas declarações políticas sobre guerra e paz, está longe de ser um Tolstoi a solo. No entanto, levou a multidão ao delírio com cartazes emocionados como “I’m a dreamer too” e facilidades emotivas de telenovela. Munido só de guitarra e ukelele, fez-me abandonar o recinto no final da primeira música, “Corduroy”, um dos êxitos de Pearl Jam, uma das músicas da minha adolescência que, infelizmente, ficou gravada num trauma do qual não mais me recuperarei depois desta interpretação de bar de covers. No entanto, os fãs gostaram muito; foi uma aposta de sucesso que com a maior das certezas se repetirá mais vezes.

O último dia surpreendeu pela positiva com uma interpretação muito esforçada de Albert Hammond Jr., fazendo crer, de uma vez, de onde vem o grande bolo criativo dos The Strokes. Munido da sua guitarra à Buddy Holly, Hammond Jr. presenteou-nos com músicas maduras e ricas, e até com um cover de “Ever Fallen In Love” dos Buzzcoks absolutamente inspirado. Faixas como “Scared” ou “In Transit”, lembram-nos como a capacidade iconoclasta de nova-iorque do início dos The Strokes é obra de Albert Hammond Jr..

O grande portento da 20ª Edição do Super Bock Super Rock 2014 tomou de assalto o palco principal no segundo dia e fez esquecer todos os excelentes concertos que vimos desde o dia 17 de Julho e, muito provavelmente, desde o início do ano. Os The Kills mostraram que o seu lugar é no topo do rock do século XXI, com a guitarra estonteante de Jamie Hince a soltar riffs repetitivos, curtos e melódicos que penetram cada centímetro cúbico de sangue que nos corre nas veias como uma descarga eléctrica de pura adrenalina que faz o nosso corpo desobedecer a ordens de contenção. Alison Mosshart, domina o microfone como um puma à caça, uma leoa desvairada que se apoderou do chicote do seu domador e o usa para nos enfeitiçar. Com olhar predador, procura na plateia e no palco o lugar para soltar as próximas linhas líricas e deixar-nos com a certeza de que a rainha do garage rock lo-fi é ela e mais ninguém. Com dois percussionistas em palco a acompanhar o espectáculo musical e visual com ritmos tribais e intensos, VV e Hotel tocaram quase todos os grandes êxitos: “U.R.A. Fever”, “Future Starts Slow”, “The Heart Is A Beating Drum”, “Satellite”, “DNA”, “Baby Says”, “Black Balloon”, “Tape Song”, “No Wow”, “Pots And Pans”. Só mesmo a ausência de “The Last Goodbye” ficou a martirizar a mente de alguns fãs mais românticos. Quando, em 2005 saiu o álbum No Wow, segundo os The Kills o nome escolhido pela falta de wow no rock do momento, eles trouxeram-no de volta, e mais uma vez ficou provado, desta feita na Herdade do Cabeço da Flauta, o terramoto de wow que são. Esperamos, impacientes, pelo próximo trabalho de estúdio e de um regresso a Portugal com um concerto só deles.

Depois do furacão The Kills, fica difícil ouvir seja o que for de forma descomprometida, mas os Foals conseguiram um espectáculo competente e cheio de efeitos visuais. O projecto de Yannis Philippakis já passou por Portugal várias vezes e sempre de forma bastante consistente. Como uma máquina bem oleada, os rapazes de Oxford soltaram hits como “Spanish Sahara” e conseguiram conquistar o público.

Os Kasabian fecharam a edição comemorativa do Super Bock Super Rock de 2014 e, baseando-me na reacção da multidão, fizeram-no bem. Vi o concerto até ao single “Eez-eh”, abandonei o recinto e dei por terminado o certame deste ano. Kasabian têm, surpreendentemente, uma grande quantidade de fãs em Portugal, apesar dos seus poucos êxitos e grandes falhas nos últimos álbuns desde o seu início em 1999. Tocaram êxitos como “Club Foot” e até uma cover de Fat Boy Slim. A sonoridade da banda ao vivo é, da forma limitada como a consigo descrever, o Robbie Williams com distorção na voz e beat à David Guetta. Como não levei o meu carrinho-de-choque, desloquei-me a pé até ao estacionamento e segui viagem até Lisboa ao som de The Kills.