Finalmente Surma protagoniza uma reportagem da Tracker Magazine! Uma alegria informativa para quem meses atrás afirmava que a Tracker já devia um artigo ao talento da jovem artista leireense Débora Umbelino que, repartindo-se por sintetizadores e guitarras e baixos e pedais, tem produzido harmoniosas colagens musicais. E que mais divinal ocasião para o onírico Surma ser ‘notícia’ que um concerto vespertino seu à porta da mística Ermida de Santo Amaro com vista para o Tejo iluminado por um brilhante sol estival? Foi o que aconteceu na sexta-feira no âmbito da iniciativa Alcântara Toca Discos da Village Underground Lisboa em parceria com a Junta da Freguesia de Alcântara.

Quando a música soa num cenário adequado…

O cenário estava muito bem composto pela luminosa Débora, sempre sorridente no inabitualmente rápido soundcheck, com as costas protegidas pela Ermida de Santo Amaro – um dos edifícios mais místicos de Lisboa – e com a face abençoada pelo Cristo-Rei de braços abertos olhando para ela, na outra margem do Tejo sob um ensolarado céu azul pitorescamente adornado por flocos de algodão, pelas simbólicas oliveiras daquele austero miradouro não ajardinado, pelos os multicoloridos panos ‘surmeses’ cobrindo os sintetizadores. E a faustosa vista de uma vida: para o rio e a vertical arriba de Almada ali tão perto, no miradouro onde melhor se sente a Lisboa-metrópole cuja voz fala alto na vizinha ponte 25 de Abril que une o norte e o sul do Tejo – feio, só as fábricas de Porto Brandão.

Uma vista escapista pela qual a meio do concerto talvez a própria Débora virasse as costas a Surma, não por desrespeito e sim por adoração à surrealista arte musical da jovem leireense, porque afinal o som está no ar e não nas faces dos músicos. Mas só a meio do concerto voltaria as costas, porque no começo (após a breve introdução instrumental), quando Surma murmurou as primeiras palavras – as da inebriante “Sicut Erat” -, também muitas pessoas que pareciam só estar de passagem ou não conhecer a sua música foram persuadidas a ficar pelo lento pulsar bombado e por aquele murmúrio profundo quase evocativo de Julee Cruise. Tão persuasiva que um irrequieto miúdo de cerca de 10 anos saiu da correria com outros miúdos e estacionou na plateia – da qual já não saiu -, gerando um daqueles instantes que fazem valer a pena sair de casa. Talvez Surma tenha vacinado aquela criança contra a pandemia de música má, talvez Surma tenha induzido o rapaz a fazer música, “everything is possible” nas palavras dos Depeche Mode.

Mais gente chegava, incluindo os inevitáveis turistas curiosos pela ornamentação da ermida e só uma parte ia embora, porque a outra parte foi alastrando pelo miradouro para desfrutar “Bíða” – assistindo a como Débora montava as canções sucessivamente tocando e gravando cada camada instrumental – e a por enquanto obrigatória versão de “Just So” (original de Agnes Obel). Por enquanto, quando os originais ainda são poucos, porque continuando um alinhamento de temas parecido com o do concerto no Damas Bar em Janeiro, o melhor momento do concerto foi mesmo uma das canções mais essenciais de Surma: a onírica “Maasai” é uma jóia de outro mundo, o de um lago numa savana de África, mas naquele litúrgico cume de Santo Amaro brilhou celestialmente como o sol que iluminou e aqueceu a tarde de sexta-feira.

 

Um abanão para nos devolver à Terra

A ocasião para virar costas a Débora era aquela, processando a esotérica música de “Maasai” numa alucinação da savana nos telhados em redor do miradouro e do lago no plano de água do Tejo. Uma bolha de liberdade: cada pessoa escolhendo o sol ou a sombra da ermida ou as oliveiras; pais com filhos, pessoas passeando os cães, residentes, os inevitáveis turistas; deambular pelo miradouro ou sentar na calçada ou num dos vários bancos; focar a ermida ou o rio clareado pelo sol ou o casario. E Débora aceitaria aquele alheamento aparente, só do olhar, com o bonito sorriso geeky com que agradeceu cada aplauso entre canções, antes de anunciar “uma mais mexida”, a frenética “Wanna Be Basquiat”, que de facto agitou aquele momento tão relaxante.

O abanão para devolver os espíritos à Terra ficou consumado com a também animada “YSSY”, após a qual quem conhece melhor Surma facilmente adivinhou que para concluir o alinhamento restava só “Lo-Fi”, também ritmada e outra das canções mais essenciais do projecto e, porventura, a que melhor combinou com o espírito criativo e eficiente da anfitriã Village Underground. E num final tão boa onda como Surma, perante a satisfeita ovação com pedidos de encore, Débora pediu perdão por não ter mais canções para oferecer, o que permitiu às pessoas na plateia pedirem qual o tema que seria repetido para fechar o concerto; após um jocoso “Toca aquela!”, alguém gritou “Maasai” e foi mesmo aquela balada o plácido fade out do espectáculo, orientando as pessoas para a actividade habitual no miradouro – to stare or not to stare, that’s not the question.

Inquestionável é que foi um concerto tão agradável como a conjugação de factores fazia prever, que o conceito Surma é coerente com o espírito do Village Underground e que a candura de Débora esteve em casa na mística ermida. Vista para o Tejo bonificada com música para (a) contemplar.

As imagens de Luís Custódio para ver aqui:

Surma @ Capela de Santo Amaro