A mecânica e o alcance das ondas sonoras de Swans não são tarefa fácil de interpretação. A sua carreira magistral e sempre desconcertante não pode ser sujeita a uma mera explicação banal de desconstrução empírica da intensidade da costela experimental que os caracteriza e notabilizou.

O poder nuclear de Swans reside no abraçar e no torcer diabolicamente a magnitude lírica de uma orquestra clássica com a insanidade destruidora de um bulldozer que nos atinge sem qualquer preocupação pela integridade física ou mental. A forma como constroem as canções utilizando camadas sob camadas de som perfeitamente compartimentado, e a partir desse pressuposto manipular as oscilações e os fluxos dos mesmos em ondas de apreensão e tensão crescente, criam monstros sonoros que causam contrações primárias de defesa no corpo de quem ouve.

Na sempre inesgotável história do post-punk, poucos foram os que se aventuraram em transcender e ultrapassar as barreiras ambiciosas de novos métodos de percepção e manipulação do conceito de música, e os Swans serão provavelmente um caso raro de absoluta vitória.

Este concerto acontece envolto numa névoa de tristeza e pesar colectivo qye anuncia o fim do conceito actual Swans. Ninguém duvida que iremos testemunhar o nascimento de um formato diferente num futuro próximo e que algumas linhas terão os elementos basilares da antiga equação. Na nova sala de espectáculos Lisboa Ao Vivo, o aficionado público português foi dizer adeus a uma carreira de várias décadas. É impressionante como, de alguma forma divina, os anos marcados na pele e no corpo de Gira e do seu séquito se tornaram um adereço menor perante o vigor e rigor com que se entregaram na performance.

Michael Gira, encarnando o seu papel de Gárgula do alto de uma catedral, domina o centro do palco conduzindo os comparsas a erguer os seus louvores a Deus ou a Algo mais acima dele. O ar parece ficar mais rarefeito, as conversas ininterruptas até ali definham, preparando para o embate de como soará o Apocalipse e o Fim do Tempo.

O exaspero espiritual e existencialista da voz de Gira embalado por uma espécie de ritualismo xamânico e encantatório das linhas instrumentais repetitivas em contraste com pequenas explosões intransigentes de puro ruído, poderiam levar a algo profusamente incompatível de aguentar. Mas existe subjacente aquela parte estranhamente bela e difícil de resistir dentro do caos.

Os Swans são um monólito gigante esculpido em música de pedra e em avalanches de emoções desgovernadas e bipolares. Um tsunami de volume sombrio e arrasador intercalado por momentos de beleza encantatória e polvilhado por pequenos intervalos de terror opressivo que desafia a necessidade primária de fugir ou esconder do perigo eminente. Terror e Beleza. Vida e Morte. E tudo isto controlado e orquestrado pela genialidade insana de Michael Gira e pela sua enorme visão do apocalipse, seja quando entoa palavras sinistras e acena os braços invocando o poder de uma qualquer divindade que se abate sobre nós com níveis absurdos de volume como se fosse uma pequena bomba nuclear. E quem está na plateia vai sendo manietado e orquestrado como uma pequena marioneta, seduzido pela batida lenta e concertada que envolve lentamente a mente e deixa à beira de uma experiência quase mística para sem aviso prévio ser inundado pelos riffs agressivos das guitarras ou pelas demolições esmagadoras da bateria.

Swans @ Lisboa Ao Vivo

Os Swans têm a habilidade de suster o público num transe profundo mesmo enquanto são fustigados implacavelmente por um muro sónico de guerra que deixa crispações quase visuais no ar em redor da plateia. A extrema fisicalidade da música tende a deixar-nos mortificados e exaustos quase à beira da desistência, mas o segredo consiste em apanhar um pouco de ar fresco, flectir os músculos e voltar para o clangor da batalha para saborear o sangue do inimigo.

O último suspiro do Cisne não termina em morte nem num grasnar de repulsa ao lado negro e demasiado intenso do ser. Finaliza-se com um ambicioso, poderoso, e desafiador Opus de celebração do génio sombrio e irreverente de uma banda que ao derrubar muros e desbravar novas interpretações do que se chama música terá o seu nome gravado a bold na lápide. Num futuro próximo, o lado disruptivo e caótico dos Swans será certamente imortalizado pelas palavras de alguém visionário o suficiente para inscrever o seu legado nos anais da História.

Duas horas e meia de actuação, alguns olhares de soslaio com medo que a estrutura não aguente o nível de loucura sonora, um corpo com a noção de que foi espancado, os tímpanos moribundos e uma alma saciada. Um saldo bem satisfatório para quem foi a um velório.

Fotogaleria completa do concerto dos Swans com Baby Dee pelo olhar do Carlos Mendes aqui.