Sweet Nico - R Evival
76%Overall Score

Sabem aqueles discos que apetece escutar várias vezes seguidas? Os que pomos no auto-rádio e deixamos tocar algumas vezes enquanto circulamos em estrada aberta? David Francisco (de UNI FORM) e Marisa (de Pedro e Os Lobos, mas aqui em inglês) juntaram-se como Sweet Nico e fizeram um desses discos que quanto mais escutados, mais apetece escutar. R Evival, lançado há poucos dias. Virado para o Oceano Pacífico, eis um belo disco do Atlântico feito por portugueses!

Talento, bom gosto e bom senso

R Evival não é um álbum que inspire muito palavreado, porque além de ser curto, processa estr(e)itamente um conceito muito preciso que os próprios Sweet Nico definiram. Porém, aquela rigorosa identidade estilística é uma das virtudes do disco, porque se por um lado exclui variantes que poderiam motivar mais apontamentos, aquele conceito é também o sentido que orientou a coerência artística das 9 canções daquele álbum que numa prova cega, pelas qualidades do produto, facilmente passaria por obra de norte-americanos, incluindo canadianos – confirmem apreciando o rock fluído das icónicas “California” e “Love Caravan”, esta talvez a melhor canção do disco, se possível em estradas como as da península de Tróia ou das praias entre Ericeira e São Martinho do Porto, o que basta para justificar a posse de R Evival, escutando-o em modo repeat.

E falando sobre canadianos, a carismática Victoria Legrand dos Beach House – tal como Siouxsie Sioux -, parece ser uma forte influência de bom gosto no estilo vocal de Marisa em R Evival. Lana Del Rey também, mas a portuguesa canta melhor e tem uma voz mais suave e amadurecida, merece que uma pessoa lhe peça “Adormece-me, por favor”, acrescentando “E podes ficar comigo?” para recompensar a qualidade daquele canto de sereia. Porque a voz de Marisa não é tão tonalmente ampla como por exemplo a de Natália Casanova (a diva dos Diva), mas as baladas “Dream Cities” e “Rain” são exemplos psicotrópicos de que aquela voz se infiltra como ar nas afinadas e atempadas brisas com que oxigena as canções do álbum.

Natália Casanova foi referida atrás também porque o álbum Deserto Azul dos Diva (um dos melhores discos portugueses dos 90s) poderia ter sido uma referência conceptual para R Evival, que parece virado para o Pacífico sob lógica influência do rock americana como em 1993-4 os Diva olhavam para o deserto azul Atlântico sob também lógica influência da psych-pop britânica.

R Evival, quase um meio termo entre os ambientais discos instrumentais de When The Angels Breathe e o post-punk dos UNI FORM – ambas bandas de David Francisco -, também é um disco mais adequado para ser escutado fora de paredes, transitando em espaços abertos, porque David distribuiu elegantemente por todo o disco sons atmosféricos e onomatopaicos, tocados nos sintetizadores e teclados electrónicos usados na produção daquele – inclusivamente, uma robótica frase é uma espécie de mantra instrumental que se escuta em vários momentos de algumas canções do álbum. E é um disco tocado e gravado com muita competência, cumprindo o paradigma artístico (e económico) das várias bandas em que David está envolvido: fazer só quando (se) pode fazer bem, com a competitividade que o mercado global exige.

Liricamente, R Evival é um disco de reflexões e estados de alma, de personagens vivendo (n)a “California”, o mais conhecido e idolatrado estado da costa do Pacífico. Sem abdicar de alguma lúcida crítica, a qual possibilitou a Marisa cantar conclusões como “Hollywood, you’re full of sadness”, em “Honeymoon”, uma canção que ela ouviu “in my consciousness”; e também sem estar ensombrado por deprimente tristeza. É a outra face do prisma pelo qual R Evival é uma escolha acertada sobretudo para escutar em períodos de lazer como os fins de semana quando é um regenerador mental capaz de apaziguar almas atrofiadas ou esgotadas pelo(s) stress(es) da vida. Curto, mas funcional, bom. Um belo disco ilustrado também por videoclips artisticamente cuidados. E que merece ser apresentado em bons concertos outdoor.