Tacocat - Lost Time
80%Overall Score

O quão fixe pode ser o não-fixe?

Se formos a olhar para as tendências actuais, seria vertiginosa a declaração de que uma banda como Tacocat é exactamente o que apela à dita massa que se movimenta pelo circuito alternativo. O quarteto é um grupo pop punk mas não é daquele hip, bratty, de calça apertada, skate na mão e cap na cabeça. Proveniente de Seattle e de fortes inclinações feministas, o punk de Tacocat usa calças tigresa rasgadas, cabelo pintado, mais dado à extravagância do que à sensibilidade, completamente aderente à simplicidade e genialmente adepto ao humor. Não para dizer que haja facções dentro do punk ou muito menos ser tendencioso em relação a uma delas, este ponto prefere antes ilustrar o carácter bastante único da banda americana, que quase atrevidamente se pode dizer que joga sozinha no seu próprio parque. Um parque que ainda assim parece ter um toldo em relação à uniformidade. O grupo de Emily Nokes, Bree McKenna, Lelah Maupin e Eric Randall destaca-se em cores fluorescentes.

Sempre de uma forma pouco intrincada e pragmática, o percurso das Tacocat foi-se fazendo desde 2007. Ao segundo disco, NVM (2014), traçou-se um certo rumo de popularidade modesta, sobretudo no âmbito mais viral. Dois anos depois, de uma forma ainda assim discreta, vem Lost Time, um disco barulhento, colorido e docemente aromado àquele bom college rock de há vinte anos. O mais agradável contudo, em 2016, é a escolha em desacreditar a inflacionada importância da subtileza em prol de umas boas malhas. Os sucintos e sumarentos 29 minutos de Lost Time, para além de modestos na duração, conseguem afastar-se de longe do rótulo de tempo perdido. Ouvir estas garotas e rapaz é uma boa injecção de energia, boa disposição, descomplicação e esse bom desse humor.

Musicalmente falamos de uma banda punk clássica: riffs sempre a abrir, baterias velozes e coros mistos que impulsionam os hooks das canções entre o mosh e o dancefloor. Em termos de heranças podemos encontrar Tacocat mais perto dos anos 90 do que propriamente das suas contra partes recentes. Como uma mistura entre umas Sleater-Kinney cheias de garra e a aura tragicómica de uns Weezer vestidos à Blink-182, a banda parece-se mais como aquele colega mais velho no 9º, mais alto e já sem borbulhas. Entretanto, a própria falta de profundidade neste disco (que até simplifica, quando se repara na ausência dos sopros em NVM) é precisamente o que permite com que a música viaje distâncias maiores. O descomplexo é palpável. Há uma atitude absolutamente descomprimida em Lost Time que se figura absolutamente saborosa e isso está à vista na simplicidade bêbeda em pop culture de canções como “The Internet” e “Dana Katherine Scully”, linda homenagem a uma das mais marcantes protagonistas femininas da TV americana, recentemente regressada.

Soalheiras, oscilando por vezes entre o pachorrento e o mais irritadiço, as canções de Lost Time sorriem constantemente. As letras, humoradas e sarcásticas, por vezes absurdistas trazem imagens de copos de cerveja amachucados, teen dramas clichés e fenómenos naturais (“earthquake, tsunami, there’s no place, I’d rather be“, cantam numa super apelativa métrica em “I Love Seattle”). Os próprios títulos das canções reflectem essa mesma atitude que parece não querer pensar muito naquilo que se quer dizer e ir pela solução mais pragmática (“You Can’t Fire Me, I Quit”). O que não quer dizer de maneira nenhuma que a voz e a sua semântica estejam aqui descuradas, pois como “Men Explain Things To Me” nos faz ver, a demanda continua, sempre um punho erguido e um confiante riso na cara.

A existência de uma banda como Tacocat e de um disco como Lost Time é sempre boa notícia. Numa altura em que as divagações profundas e arte conceptual atingem proporções e cultos tão densos que por vezes chamam à alienação, haja quem esteja aqui bem descomprimido, sem grandes orquestrações e com vontade de dizer umas parvoíces. Lost Time acaba por representar mais um bom passo numa banda que é feliz o suficiente por estar numa posição em pode fazer o que quer fazer e é uma bela colecção de boa disposição sónica fora das margens. Entretanto, sem esforço nenhum, soa eminentemente cool ao fazê-lo. Está respondida a questão. ‘Bora p’ra festa.