Existirá espaço na cena musical brasileira para algo com a referência dreampop cantado na língua portuguesa capaz de unir o rock alternativo à música brasileira? Os Terno Rei estão cá para mostrar que isso é mais do que possível com o lançamento do seu novo álbum de título Essa Noite Bateu Com Um Sonho.

Os Terno Rei são um nome constante nas conversas sobre música alternativa entre o público universitário brasileiro. A banda paulistana é formada por Ale Sater, na voz e baixo, Bruno, na guitarra, Gregui, também na guitarra, Luis Cardoso, na bateria e Victor, na percussão e, apesar de uma curta trajectória de vida enquanto colectivo, com formação desde 2011, tem um público fiel e cativo que há muito tempo esperava por um novo trabalho destes rapazes. Soma-se à jornada musical dos Terno Rei 3 EPs: o independente 1 de 2011, Metrópole de 2013 e, aproveitando a oportunidade que deixou o lançamento do LP Virgília um ano mais tarde, disco muito bem recebido pela crítica e que alavancou o nome da banda, a banda lançou o terceiro EP Trem Leva Minhas Pernas em 2015 com apenas duas faixas mas que, apesar disso, agradou de sobremaneira ao seu público.

É desta forma que os Terno Rei chegam ao final de 2016 com o álbum Essa Noite Bateu Com Um Sonho recém-lançado pela Balaclava Records e contendo oito faixas no seu alinhamento, já disponibilizado no Spotify, sendo que para as terras lusitanas o lançamento está previsto para o início de 2017 com certeza. Das três faixas já divulgadas, “Sinais”, “Fogo Queimaria” e “Crianças”, apenas as duas últimas receberam vídeo. O vídeo para a canção ‘Fogo Queimaria’ foi uma escolha da própria produtora, traduzido num modo de saudar o novo álbum dos Terno Rei. Pela canção predominam riffs de guitarra e baixo com versos repetitivos num dreampop que preenche os versos, versos esses que , por sua vez, se entrelaçam com as imagens recuperadas de arquivos e datadas do período de 30 anos desde 1940 a 1970 e que se relacionam com a temática dos incêndios.

As letras não são compostas ou melodiadas simplesmente se forma a preencher de forma vazia ou forçosamente rimar. São constantes as reflexões sobre assuntos e contratempos do quotidiano e, como não poderia deixar de ser, a letra de “Criança” traz uma nostalgia na qual a protagonista salta de flashes de momentos tão próprios de um relacionamento, os instantes de alegria, carícias, afecto para uma solitária pista de dança onde antes se encontrava apaixonadamente acompanhada. Os arranjos estão mais “acelerados”, buscando texturas mais animadas para a voz ecoante na canção de forma a impulsionar o terno e poético refrão.

Quando se chega à idade adulta, percebe-se que algumas oportunidades perdidas no passado já não podem mais serem resgatadas, nem evitar os sentimentos desfeitos ao longo da estrada, nem tão pouco o sorriso da inocência quase infantil das paixões que irão, certamente, reaparecer no horizonte. As decisões de uma vida adulta reflectida na parte lírica das canções e os novos rumos sonoros dos Terno Rei interligam-se. É inevitável o dilema, a angústia e o risco das escolhas: ainda assim, tão criança se é na percepção da solidão, longe da zona de conforto do lar… “navegar é preciso”.

Podem ainda serem tidos ou mencionados como um quinteto jovem, mas os Terno Rei estão-se a encontrar no frescor de uma sonoridade tão pouco explorada em território brasileiro, tomando as suas próprias decisões fruto do autoamadurecimento conferido pela estrada e pela vida.