Quando se trata do binómio discos versus concertos, certamente que quem vos escreve não está sozinho ao pensar que muitas bandas – principalmente no universo pop/rock mais ou menos convencional –, se avultam mais numa vertente que outra. Ora façam lá o exercício de pensar em duas ou três. Claro que há bastantes excepções, que invariavelmente são aclamadas por tal feito (passe o óbvio, ahem, Radiohead…).

No caso dos Riding Pânico, falamos de uma banda que edita agora apenas o terceiro longa-duração em mais de dez anos de existência. Apesar disso, o culto de admiração que se gerou à volta deles impressiona. Tem de haver mais qualquer coisa, certo? Na verdade, não há qualquer segredo e não vale a pena enfeitar com rodeios: muito simplesmente, os Riding Pânico são incríveis ao vivo. Esta noite, dedicada à apresentação de Rabo de Cavalo, serviu para o comprovar mais uma vez.

O caminho é feito sempre a baloiçar entre o chumbo denso da secção rítmica e a capacidade de extracção do público para um plano psicológico alternativo, como se a banda fosse um disco voador mesmo à filme americano e com um raio magnético de sintetizadores e guitarras gingonas nos fizesse reféns de um Dark Side Of The Moon a tocar ao dobro da velocidade.

Riding Pânico @ Musicbox Lisboa

Riding Pânico @ Musicbox Lisboa

Esta dualidade é exercida com frequência, especialmente nos temas do novo álbum. Em “Café Del Mar”, apesar de parecer que várias coisas acontecem em simultâneo, há espaço para todos os instrumentos ascenderem à superfície de forma quase coreograficamente alternada. “Táxi Mágico” segue por trilho semelhante, desta feita a puxar mais para o post-rock etéreo, infelizmente a queimar em lume brando. Antes já se tinha ouvido “Zulu”, ponto alto de Homem Elefante, com o groove a espreitar entre as cores saturadas das teclas e as vozes arranhadas das três guitarras, tudo a desaguar num dos momentos mais intensos da noite que, a par de “Rosa Mota”, serviu bem para mostrar como o sexteto “cresce” ao vivo.

Apesar de todas as mudanças na formação da banda ao longo dos anos, os Riding Pânico apresentam-se hoje como unidade coesa. Sabem bem de onde vieram (a forma endiabrada como interpretam “E Se A Bela For O Monstro” não deixa dúvidas), mas o que interessa agora é o presente e o futuro, aqui representados simbolicamente por “Terreiro do Espaço”, que ao mesmo tempo serve de “resumo da matéria dada”, ao fechar as hostilidades com chave de ouro.

“Batam palmas quando sairmos, que vamos curtir”, dizia Makoto Yagyu. Mas não seria necessário pedir – o prazer foi todo nosso.

Riding Pânico @ Musicbox Lisboa

Riding Pânico @ Musicbox Lisboa