Há bandas que mudam de personalidade, como os Maroon 5 (que já foram Kara’s Flowers, uma réplica do rock dos Fountains Of Wayne e Weezer). E há outras que vão se transfigurando, estilo após estilo, como os emergentes The Altered Hours, que acabam de lançar (na última sexta-feira) o primeiro álbum, In Heat Not Sorry, do qual o primeiro single é “Way Of Sorrow”.

Banda irlandesa genericamente mista, formada por Cathal Mac Gabhann (guitarras e voz), Elaine Howley (voz, sinths e percussões), Patrick Cullen (baixo), Nora Lewon (bateria) e Kevin Terry Junior (guitarras), os The Altered Hours começaram por editar em 2011 o EP digital Downstream, um trabalho indistinto entre centenas da revivalista vaga de garage rock psicadélico, mas que revelava uma banda competente, já com potencial para evoluir e desenvolver um som próprio, evidente sobretudo na última canção, “Wicked Son”, com riffs ásperos e cante feminino esganiçado sugerindo influências noise rock como Sonic Youth. E a evolução foi mesmo conhecida, dois anos mais tarde, em Sweet Jelly Roll, um curto EP com apenas 3 canções, lançado pela A Recordings (Magic Castles, Dirty Beaches, Brian Jonestown Massacre), no qual explicitamente fundiram o psicadelismo com o noise rock e o garage urbano e também com a shoegazing dream pop de uns Slowdive, tendo se mostrado liricamente mais amadurecidos.

Em 2014, a banda decidiu se transfigurar ainda mais profundamente e, numa edição digital de autor, deram a conhecer uma experimentalista faceta introspectiva, no mini-EP Outskirts: sete minutos, distribuídos por três faixas musicalmente próximas de instrumentais de Evi Vine e Mazzy Star ou Swans. Oníricos interlúdios surrealistas que antecederam mais uma mudança de som, porque meses mais tarde, ainda em 2014, foi lançado outro curto EP, Dig Early (pela Art For Blind Records), com duas faixas nos antípodas temperamentais do anterior, próximas de bandas como The Vaccines e Savages e Palma Violets: a poderosa “Dig Early”, fusão de post-punk e noise rock energicamente cantada (quase proclamada) por Cathal, na qual o cadente bombo da bateria comanda os riffs das guitarras, enquanto o baixo quase monocórdico ao longo de toda a canção estimula o transe auditivo, e a também robusta “Cracks In The Light” (ao vivo), cantada em estilo próximo do de Jehnny Beth (Savages), mas um pouco mais complexa, mais melodiosa e com mais variações de ritmo, tanto da bateria como do baixo e das roufenhas guitarras, que sugere ser um dos momentos mais intensos dos concertos do grupo.

E à medida que evoluem como músicos e como colectivo, os The Altered Hours terminaram o último ano compondo e gravando outra viragem estilística, desta vez menos menos acentuada, indicando talvez em qual mar decidiram navegar. “Way Of Sorrow”, primeiro avanço para o debutante álbum In Heat Not Sorry, é um tributo (ou uma repescagem) ao noise rock inevitavelmente ancorado a Sonic Youth, identificado nos breaks de bateria, no zumbido do baixo, no dueto vocal ela-ele e nos velozes riffs das guitarras. Mais recentemente, “Silver Leather” confirmou a sugestão de que In Heat Not Sorry flutuaria pelas águas do post-punk e do garage rock (com guitarras de ‘voz grossa’, como Black Rebel Motorcycle Club) – recuando na obra da banda, aquela última canção religou a ponta solta que “Wicked Son” era, no fim do inicial Downstream. Pelo que escutou, a Tracker Magazine recomenda uma audição atenta ao que parece ser o primeiro disco de maturidade criativa dos The Altered Hours.

Confirmando o parágrafo anterior  aqui está online todo o In Heat Not Sorry