Calem-se os canhões, recupere-se a capacidade de sonhar e de acreditar. Calem-se as vozes do ódio e da raiva, elevem-se os sonhadores, as almas sensiveis e criadoras de amor e esperança. O verbo acreditar ganha novo alento, e na época de Alta-Indefinição que atravessa o planeta azul, nada mais importante que saber contornar as esquinas escondidas pela sujidade das elites e do mundo que lentamente desaparece dos radares celestes. Encerrem neste momento as janelas da alma para o mundo que desgoverna a essência dos Homens e observe-se o interior desalojado, a delicadeza perdida, as razões além da razão concreta dos dias cinzentos. Os The Cinematic Orchestra chamam-vos ao mundo real que esqueceram ontem e anteontem entre mais um atentado, uma morte por subnutrição, uma traição, uma mentira, uma violação.

Sim, os momentos de magnificência do motor criativo de Jason Swinscoe estão de volta. Swinscoe não chega de rompante, nem com manobras. Chega pé ante pé com a companhia de Moses Sumney no papel de voz da consciência. Chega com “To Believe”, uma canção que somente seria sempre e só uma canção dos The Cinematic Orchestra. Porque na música do compositor inglês não há espaço para alegorias e leituras enigmáticas: o cinemático é efectivamente visual e a grandiosidade é absolutamente orquestral. Um dedilhar de uma guitarra que respira a imensidão da tristeza, um piano frágil que expira solidão, as orquestrações épicas que crescem do nada inicial até ao tudo da apoteose final e as palavras, as palavras essas que inspiram esperança através da beleza única da voz, do falsete de Sumney, da cor sem tom do poema, são tudo aquilo que precisamos de reaprender: tudo se faz através da esperança e de acreditar”. Simplesmente, o que é preciso para fazer acontecer é “To Believe”.

E Moses? Uma das mais belas vozes da nova geração de cantores negros que saltam fora do buzz louco do hip-hop. Moses, uma das mais belas e frágeis vozes que carregam uma soul disfarçada de folk, disfarçada de canções à guitarra e intimidade. Pense-se em Clementine, Willis Earl Beal e Son Little e encontrou-se o local especial onde habita. De identidade particular, sem comparações mas com apenas uma morada alternativa onde o colocar o músico californiano. Um EP apenas, lançado este ano, que também não deixa margem para leituras dúbias. Lamentations não comporta em si canções de felicidade. Moses experimenta, Moses faz, Moses precisa de todas as audições. Moses já tocou com James Blake, com Sufjan Stevens, com Beck. E sim, é todos eles também e só apenas Moses Sumney.

São apenas 3 discos em demasiados anos mas sabe-se que, ao mesmo tempo, é imensa a obra de Jason Swinscoe. Motion remonta já a 1999, Every Day a 2002 e Ma Fleur, a última colecção de pérolas originais dos The Cinematic Orchestra, leva já quase uma década. Entretanto, bandas sonoras para The Crimson Wing: Mystery of the Flamingos e Man With A Movie Camera, discos ao vivo e colecções de remixes mantiveram a lenda viva. Ainda sem datas ou qualquer outra informação sobre um novo longa-duração, sabe-se apenas e, com toda a certeza, que ele está para chegar e conta com a colaboração próxima de Dom Smith na produção. O novo single com Moses Sumney é a primeira prova concreta, uma tour marcada a segunda prova, resta aguardar por mais pedaços divinos. A Esperança está claramente viva.

The Cinematic Orchestra - To Believe

The Cinematic Orchestra – To Believe