Para quem não conhece o Sabotage, no Cais do Sodré, em Lisboa, fica ao lado do extinto Copenhaga e é vizinho do Jamaica, Oslo e outros; para quem vem de Santos é quase no final da rua de São Paulo. O espaço não é grande, mas a avaliar pelos cartazes que vão decorando as paredes do mesmo, o ritmo de concertos é bom (alguns nomes repetidos, mas muitas bandas passaram por ali). Mal passamos a porta para o interior, somos convidados, por umas escadas, a descer directamente para a plateia. Do lado esquerdo o palco (cravado na parede) e do lado direito a cabine do Dj e uma pequena mesa de som. Atravessando a plateia e passando uma espécie de varanda chegamos ao bar. A faixa etária encontra-se acima dos 30 e o ambiente que espera estas duas bandas é de rockabillismo; por entre os presentes reconhece-se algumas figuras da cena portuguesa deste estilo, aqui como há 40 anos atrás, a música que se espera ouvir é basicamente para quem sabe o que vai acontecer. À medida que a casa vai enchendo, o espaço começa a ficar curto mas não é por isso que o ambiente piora. Antes pelo contrário: por entre cerveja e cerveja (salvo raras excepções) as conversas vão-se cruzando e a espera pelos The Dirty Coal Train vai sendo embalada por um rock poderoso vindo do DJ. O que estava marcado para as 23 horas começou às zero em ponto e isso talvez faça parte do espírito da coisa, tal e qual nos disseram à porta; “lembram-se do rock rendez-vous?”

Uma baterista, uma baixista, uma guitarrista e um guitarrista (so far, so good and different) e uma secção de cordas as 3 vozes lideradas pelo elemento masculino. The Dirty Coal Train entram a abrir e carregam no pedal fazendo a locomotiva rasgar o Sabotage. The Dirty Coal Train, para quem não sabe, são portugueses, e têm poder de fogo na venta; se o Pulp Fiction fosse português, estes estariam na banda sonora. As suas influências, sem o esconder, são americanas (talvez o possa chamar rock de estrada, não sei, mas arrisco). É uma banda musculada que consegue fazer vibrar algum público, público que na sua maioria espera por The Parkinsons. Pena é a fraca definição das vozes – a acústica do espaço talvez não seja a melhor – no entanto, isso não foi motivo para que a banda não desse o seu melhor e não interagisse com o público, como a parte em que o guitarrista veio tocar literalmente para a plateia. Mas mesmo sem os melhores carris, o comboio fez os seus estragos, dando ao público uma locomotiva bem coordenada, pois é um rock poderoso que se pode esperar deste senhor e senhoras (hell yeah!!).

Estes senhores trazem Londres na bagagem, que segundo o vocalista não vinham actuar a Lisboa há um ano e meio, e tudo o que Londres deu ao mundo em termos de música. Claro que não trazem só na bagagem Londres; trazem uma época inteira da historia da música. São portugueses, sim senhor, mas radicados em Londres (não há nenhum elemento abaixo dos 30) e conseguem fazer cheirar RamonesDavid BowieSex PistolsIggy Pop, entre outros. Juntando tudo isto à experiência dos elementos da banda, o concerto é elevado para outro patamar e, para mais, a casa encheu mais ainda, pois era de The Parkinsons que o público esperava e a maioria conhecia as músicas. Parecia o início de tudo… Parecia que isto tudo que estava a acontecer era uma coisa nova para todos, já que mal começaram a tocar, o público da primeira fila começou a saltar e não tardou muito a que o vocalista tirasse a camisa e deixasse à mostra todas as suas tatuagens. Uma actuação muito acima das expectativas, sobretudo quando o vocalista é transportado pelos braços do público enquanto canta, e melhor, quando se mistura na plateia para cantar e atravessa a mesma até onde o fio do micro deixa.

Embalando e embalados pelo público, os The Parkinsons carregam no pedal, um pedal diferente da banda anterior, e na sua balada, segundo eles, arrancam um enorme “wow!!” do público. O punk rock está vivo no Sabotage e os pulos do vocalista e do guitarrista provam isso mesmo. Pelo meio, alguém que assiste ao concerto vai gritando insistentemente o nome do baterista e é com a frase “She is a bad girl” que o público diz definitivamente presente, caso houvessem dúvidas. The Parkinsons rumam para o fim sem nunca deixarem de comunicar com o público e, visivelmente estão suados, todos, mas isso não os abranda para o primeiro encore no qual promovem uma necessidade extrema de velocidade, remetendo o fecho apoteótico para um segundo encore onde alguém do público vocaliza em palco um dueto com o vocalista. Daqui até ao final foi tudo a pular, cantando “I’m so lonely, I’m so happy alone”. Um grande obrigado dos que actuaram e dos que assistiram. Muito, mas muito bom, pena foi que, tal e qual como os primeiros, a definição da voz não tenha sido a melhor, mas se o Rock Rendez Vous foi algo deste género, então venha de lá mais disto.