A destoar de uma gélida primeira noite de Inverno esteve um Sabotage de ambiente verdadeiramente abrasador que agasalhou de sobremaneira todos os presentes que, tal como nós, não se terão arrependido de se terem aventurado numa viagem glaciar até à sala lisboeta onde decorreram os concertos de Lazy Lizard e de The Quartet Of Woah!. Uma noite de poderosas muralhas sonoras que incendiaram, não esparsas vezes, uma plateia pouco compacta mas dedicada.

Contando ainda apenas com dois EPs e regressados em 2011 após um ano de interregno e algumas alterações no alinhamento da banda, os aveirenses Lazy Lizard deram início às hostilidades numa sala cujos contornos se iam definindo lentamente. Os primeiros acordes soaram pelas das 23h30 e o fulgor com que o quinteto entrou em palco dissipou desde logo quaisquer dúvidas que esta seria uma prestação digna de registo e em nada mandriona. Perante uma plateia ainda pouco numerosa mas sumamente atenta e interessada, assistiu-se sem grandes delongas a um “Nightingale” acutilante que nos transportou instantaneamente para as esferas stoner e grunge do rock e nos remeteu para o legado intangível dos Alice In Chains. O soberbo entrosamento de um vigoroso trio de guitarras, aliado à voz humilde e lamuriosa de João Fino, seguríssimo em palco, resultou numa sonoridade coesa e corpulenta, catalisadora de uma atmosfera sonora fervorosa que manteve os níveis de adrenalina bem altos durante os cerca de 40 minutos que se seguiram. Da bateria galopante de “Moonlit”, à arte emprestada de Fernando Pessoa à toada rica e distorcida de “Deserted Houses”, os Lazy Lizard cumpriram com distinção a tarefa que lhes competia e não desiludiram. Para o final, ficou reservado um “Blind The Dog” arenoso e empoeirado, que arrancou abanos de cabeça a grande parte da assistência. Uma actuação bem conseguida que apenas pecou por alguma inércia em palco.

Avançávamos na hora e recuávamos ainda mais no tempo. Volvidos 15 minutos de pausa para recuperar o fôlego e reabastecer copos vazios e, tendo acabado de presenciar uma prestação que poderia muito bem ter tido lugar em Seatle no ano de 1993, continuamos em andamento hard rock mas desta feita com laivos de rock progressivo e stoner bem embrulhados numa bonita aura de psicadelismo de fazer corar certamente muitas formações das décadas de 60 e 70. Após passagem por festivais como o Super Bock Super Rock, Milhões em Festa e o Avante! em 2013, os The Quartet Of Woah! presentearam-nos com o último concerto do ano em apresentação de Ultrabomb, o seu registo de estreia. Um álbum conceptual lançado em 2012 que mereceu os mais rasgados elogios por parte da crítica nacional e internacional. Com um “Slingshot Slam” de órgãos imponentes e ditatoriais a ter honras de abertura, estava dado o ímpeto inicial que fez desenrolar um exuberante tapete de cores abundantemente retro, sobre o qual acabariam por desfilar, um por um, todos os temas do álbum em pouco mais de 01h15m de voracidade impiedosa.

O quarteto formado por Rui Guerra (voz e teclas), Gonçalo Kotowitcz (voz e guitarra), André Gonçalves (baixo) e Miguel Costa (bateria), serviu-nos de forma expedita um “Taste Of Hate” a pender para um universo nitidamente mais stoner, de guitarras rugosas e baterias resolutas, sem nunca perder de vista o virtuosismo minucioso e orgânico de umas teclas em constante ebulição. Tal como, de resto, se viria a comprovar mais adiante com os hipnóticos “Balance” e “The Machine Limps Toward The End” que, numa sequência cadenciadamente repetitiva, embalou incontestavelmente a plateia.

Sabendo sempre contrabalançar a jovialidade da boa-disposição com um profissionalismo soberano mas despretensioso, e perante um público cuja anuência assumia a forma de olhos cerrados, braços no ar e tresloucados balanços de corpo, a banda atacou um fugaz mas incisivo “Empty Stream” que justificou plenamente a primeira grande ovação da noite. Seguiu-se um “The Announcer” a duas vozes, que nos revelou um Rui compenetrado no seu papel de vocalista e em posição de (quase) adulação às teclas, bem como um Gonçalo irrequieto a encarnar um espírito genuinamente amotinador e afoito, algo que se iria manter como uma constante ao longo da noite.

Após um “The Ultrabomb”, tema-título resultado de várias proveniências estilísticas responsável pelo despertar em alguns de uma postura mais contemplativa e menos efusiva, irrompeu um “Ode To Liberty” que teve o mérito de fazer encurtar a já de si bastante curta distância física que separava público e banda e de unificar a energia efervescente que emanava dos dois campos, ao mesmo tempo que fazia voar furiosamente os pratos da bateria. “Prodigal Son”, de silhuetas mais progressivas mas consideravelmente menos aborrecidas que aquelas de onde retira as suas influências mais directas, assinalaria o momento mais abrandado mas nem por isso menos possante da noite, abrindo-se assim caminho para “The Path Of Our Commitment”, tema ao longo do qual nos foram endereçadas recorrentemente referências a Queen (não seria a única ocasião a fazê-lo mas seria, porventura, a mais evidente.) “U Turn”, hino frenético perigosamente arrebatador e potente de vários andamentos, esbraseava vagarosamente uma plateia que, ainda não satisfeita, pedia mais.

“A minha mãe não me deixa tocar mais”, respondia Gonçalo em tom brincalhão. Apesar da ameaça, e naquele que em noutras circunstâncias poderia ser visto com um ousado desafio à autoridade parental, dá-se continuidade à incursão por Ultrabomb, com a banda a lançar as fundações de um final alucinante sobre “How To Build A Bomb” e “Master Lever Had A Dream”, os dois únicos temas que restavam para fazer o pleno. Dava-se assim por encerrada aquela que foi uma noite triunfante, na qual ficámos inexoravelmente cativos de uma dedicação incansável e de uma energia selvática e irreverente de paisagens sonoras e melodias meticulosamente talhadas por um quarteto surpreendente que, mantendo sempre o registo com o volume no máximo, nos soube prender a atenção do início ao fim num concerto absolutamente irrepreensível.

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globetrotter, infografista frustrada, seinfeldo-dependente, apreciadora de aviões, perfeccionista ocd e com vários títulos académicos em factos irrelevantes.

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