The Rentals - Lost In Alphaville
90%Overall Score

Viajando até ao início da década de 90 do século passado, talvez alguns se lembrem de uma banda norte-americana chamada Weezer; tinham um som que os distanciava q.b. do hype do grunge, vídeos catitas da autoria de Spike Jonze que chegaram a ganhar prémios e tocavam um indie rock simpático. Caso se lembrem deles, talvez saibam quem é Matt Sharp. Se foi banda que vos passou ao lado, também não vem daí mal ao mundo!

Matt Sharp foi o baixista da primeira formação dos Weezer, tendo saído após a tournée do segundo álbum, que não teve o sucesso esperado na altura, para se dedicar de corpo e alma a um projecto paralelo. Esse projecto dura até hoje e dá pelo nome The Rentals. Se mesmo assim, continuarmos em terreno desconhecido, não estranhem… é que este disco que vos trago hoje tem um interregno de 15 anos em relação ao anterior LP editado por eles, apesar da polémica interessante já instalada e a correr pelo mundo da crítica internacional que afinal a maioria dos temas deste álbum já tinham visto a luz do som, apesar de com outra sobriedade e menos arranjos e produção, através da publicação de três EP’s que davam pelo nome de série Songs About Time. Estaremos perante um renascimento? Embrulha e volta a dar? Tanto faz!

Lost In Alphavile é o terceiro longa-duração do coletivo de Matt Sharp. Para cada um dos discos anteriores, e para este também, Sharp rodeou-se de vários músicos convidados com o único propósito de fazer música para a gravação de um disco, nunca estes sendo os mesmos, daí podermos traduzir livremente e pelo sentido os The Rentals como sendo inquilinos. Inquilinos na mansão de Sharp. E digo-vos que, após a ter visitado, é casa para merecer que nela passemos algum tempo livre. Reparem: é espaçosa na imaginação, define-se por traços arquitectónicos diferentes, tem verdes jardins pop a perder de vista e terraços que convidam a sonhar. Desta vez, Matt Sharp (voz, baixo e sintetizadores) tem companhia na voz de Jess e Holly dos Lucius, Ryen Slegr dos Ozma na guitarra, Lauren Chipman dos The Section Quartet na viola e piano e Patrick Carney dos The Black Keys na bateria. Juntamos a estes, D. Sardy (LCD Soundsystem e Jay-Z) a dar uma mão nas gravações como produtor de som, e temos reunido um elenco de luxo.

Ao longo de 10 canções, este é para mim O DISCO pop do ano e acredito que dificilmente será destronado até fins de Dezembro. São dez canções orelhudas, com refrões que se repetem e convidam a rodopiar física ou mentalmente. Temas simples à primeira audição, mas que nos revelam sempre novidade num pormenor ou noutro quando se faz a segunda, sétima ou décima primeira volta ao disco e mostram que por trás há arranjos inteligentes. Temas que nos fazem sorrir, mas depois nos deixam a pensar, culpa de uma palavra ou frase. A afirmação em “Stardust”. O sublime duelo de falas (e vozes) em “Damaris”. O crescendo do sintetizador em “Irrational Things” a fazer nascer ideias. O sentido auto-biográfico que o mais certo, e se me continuam a ler, é ser partilhado por todos nós na “Thought Of Sound”. Tudo aqui encaixa, seja o sentido que se dá a uma única canção solta ou a audição seguida do disco e a vontade de fazer replay. O género pop, chamem-lhe dream pop, por causa dos efeitos sonoros, power pop, ou o que quiserem, talvez seja um dos mais injustamente esquecidos pela sua efemeridade. Salvo raras excepções, não há cultos à volta da pop; o hit seguinte é sempre o melhor. Mas quando estamos perante um disco como este, há que saboreá-lo até à última gota de doce, quase como a teimosia libertadora do último balanço no baloiço do qual não queremos saltar quando há alguém que nos chama de volta à realidade. Fica feito o convite para descobrirem e não se preocupem se nunca mais voltarem a ouvir falar em The Rentals; daqui a quinze anos os destinatários possivelmente já serão outros. Aproveitem!