The Soft Moon + Ninos Du Brasil + Älforjs @ Musicbox Heineken Series – 12 Fevereiro, 2016

O ritual de sombras de Cronos e Vasquez

Há momentos assim… de congelamentos de tempo e pensamento em matérias criogénicas de som. O Musicbox, num sábado a penetrar num domingo onde Cronos foi comido pela anatomia áspera dos mecanismos de luas internas, perdeu-se no tempo e nas sombras. Luiz Vasquez encheu a sala de escuridão, abriu o portal principal para a antecâmara das torturas e das tormentas. O fumo que cega o palco, as silhuetas negras que são boa parte da moldura energética e humana da cavidade interna que acolhe o ritual nocturno da tríade sacrossanta composta por The Soft Moon, Zeros e Deeper – evangelho sobre o qual supostamente se versaria principalmente esta noite mas que foi coisa que não se veio a verificar – e a atmosfera quente como uma sala de cirurgias de um hospital psiquiátrico desenharam em luzes parcas e vertigens de strobe lights um momento que com muita dificuldade se vai transpor em palavras mais ou menos sintéticas, descritivas ou analíticas. Os The Soft Moon não são deste tempo mas também não são de outro, não se quedam na simples humanização do ser mas são tão mais que um manual de leitura e aprendizagem do Homem. No escuro tudo brilha muito mais, não é?  No escuro vê-se muito melhor o que as luzes cegam.

“Black” abriu a noite, fechou a percepção do concreto e do Agora, alargou os sentidos e devorou a capacidade de situar o espaço no tempo e vice-versa. Tudo se resume apenas a música que pouco mais de um metro acima de nós é manipulada entre as máquinas galopantes de Vasquez e a voz de comando cortante que grita num sufoco “I Don’t Care What You Say, I Live My Life My Own Way”. A cerimónia começa aqui e ao fim de três minutos é como se já nada existisse em redor. Podia já ser outro tempo ou outro dia e ninguém teria dado conta. Hipnose de massas em marcha!

Saímos do engenho marcial industrial de “Black”, os baixos latejantes do post-punk afogam tudo e todos, um embalo fantasma assalta os corpos e entre “Machines”, “Dead Love” e “Alive” os espíritos inquietos do passado de ouro descem à terra. O gótico enquanto elemento primordial é elevado a síndrome dançante, Vasquez entre sussurros gemidos, guinchos animais, movimentos sensuais desesperados e desesperantes de quem toma a violência como meio de prazer e uma postura que o cola aos universos do aggrotech e de Trent Reznor, recalcula as rotas do hiperespaço escuro por onde vamos passar hoje. Há um pequeno grupo de planetas negros que vamos atravessar. Agarrem-se bem, a velocidade vai aumentar!

“Far” carrega no acelerador subatómico e os propulsores disparam. Os corpos submersos no escuro balançam mais rápido agora. A voz é clara, o discurso é directo e não deixa margem para dúvidas. Não há escapatória para nada do que é real, o sofrimento é intrínseco e a única companhia que podes tomar por garantida. “Every time I try to fight/This life gets harder every time”, sobrevive ou definha, dança ou morre! Anda, vem foder com a dor neste escuro onde Cronos foi comido pela anatomia áspera do som! “Circles” é um cerco feito às mentes. São círculos narcóticos e anti-anestesiantes anestesiadores, a voz volta a sumir nas paredes de reverb e acumula-se nas paredes do cérebro. Deita, fecha os olhos e goza enquanto o bisturi corta a tua pele lentamente em espasmos de puro prazer. O industrial sobrepõe-se ao gótico e o gótico infiltra-se pelas ranhuras do post-punk em “Zeros” e em “Try” mudam-se as doses de cada um dos factores com o mesmo resultado tóxico.

Há tanta dor e sofrimento em cada som e acorde e palavra cuspida neste palco escuro. Um caminho de demónios e visitantes nocturnos com palavras indutoras, suicidas, atormentadas e ao mesmo tempo, e apesar de embutidas em sofrimento extremo, as mesmas palavras e acordes e sons destes demónios carregam o palato doce da raiva, concubina ardente da arte e da criação. “Wrong” abre caminho para uma sequência ácida. Não há mais paragens, o oxigénio foi todo retirado da sala para dar lugar a líquidos metálicos anestésicos, a cirurgia vai entrar na fase crítica, a vida está em risco e a carne aberta. Em “Wrong” o EBM ácido dá lugar a um exorcismo tribal, a uma terapia existencial de nuances apocalípticas, a percussão toma de assalto os beats e dança-se. Entre o assombro e a dança é onde reside a força de palco de Vasquez e dos Moon. “Into The Depth” desce ao inferno de uma cidade morta e ocupada em plena III Guerra Mundial. Curta, incisiva e aflitiva! Aqui na cave monstruosidades galgam fronteiras e urram, são as “Tiny Spiders”de guitarras lancinantes em punho e sombras, tantas sombras. Longe, tão longe de serem comparáveis, mas por momentos há uma viagem a um dos planetas distantes. São ecos de Chameleons, de Sisters Of Mercy e de Southern Death Cult que fazem ricochete na memória mas rapidamente são aniquilados pelo poderio raríssimo do mundo que Vasquez cria nas suas luas.  E Cronos, esse bailarino sem espaço, saboreia o desequilíbrio no tempo e dança entre as espirais melódicas da anatomia áspera do som.

O som encolhe, desacelera e fecha-se sobre a maré de negro flutuante do publico. “Crush” ameaça a claustrofobia e explode em agonias pulsáveis no final. Achavas que ias respirar agora, não era, pequena bailarina negra!? É dançar ou morrer, é dançar ou olhar na cara o fim que se aproxima. Sem pensar atravessamos “Insides” e “Beings” e somos arremessados violentamente para o mundo com o abandono do palco. Curto como Cronos gosta.

Os portões abrem de novo para entrarem os rios de ácido. “Die Life” não se estende em poemas. “Die life/You get no life/Die” não deixa margem para interpretações. É a isto que se tem direito, a certeza da morte, o penetrar de uma lâmina na carne e nas ideias. Somos nós e o escuro, nós e a dança, nós e Vasquez. Ouvem-se as sirenes, os bombardeiros regressam para terminar o que começaram. Os olhos cegos não se abrem, os olhos fechados não se conseguem abrir com as explosões de luz que caem do palco floco de bass atrás de floco de bass, bomba ritual atrás de bomba ritual. Os corpos talhados de vestes negras são apenas marionetas de dança nas mãos da percussão de Vasquez, demónio manipulador, frio e viciante. E Cronos, esse amante que teima em não ficar, desaparece de repente sorvendo de uma vez os líquidos metálicos anestesiantes dos nossos pulmões e enchendo-os do oxigénio banal do dia a dia. Acabou!

The Soft Moon @ Musicbox Heineken Series

Apocalipse?! Now, é mais samba!

A sala ganha cores… pelo menos mais algumas para receber os italianos Nicolo Fortuni e Nico Vascellari, os Ninos du Brasil, culpados máximos do remix de “Feel” que fecha Deeper Remixed dos The Soft Moon, editado em Fevereiro pela Captured Tracks. E como eles cumprem aquilo que lhes estava predestinado!!! Semblantes escondidos entre os enfeites de Natal que lhes rodeiam toda a caixa craniana, disfarçados de ritmos sambistas e afinal o que trazem aos sobreviventes do holocausto de Vasquez e aos substitutos coloridos é um set de beats industriais, electro-batucada dos infernos, um mini-sambódromo feito revolução noise, música para um levantamento popular numa Veneza debaixo de fogo tecno ou de um Rio de Janeiro submerso em aromas de apocalipse perfumado a doce napalm e suor. Nada de estranhar agora sabendo que ambos fizeram parte dos With Love, uma das mais carismáticas bandas da cena punk/hard-core e principal impulsionadora da cena screamo italiana nos anos 90. Mais que habituados a levantar o caos, a fazer suar. Impressionante. Ficávamos a dançar e a dançar e a dançar…

Ninos Du Brasil @ Musicbox Heineken Series

Quando o Jazz chove a cântaros 

O inicio da noite foi uma pequena viagem sem apeadeiros por uma floresta de chuvas jazz experimentais no comboio digital e analógico dos Älforjs. O que parecia começar como um passeio lunar flutuante a lembrar Elizabeth Anka Vajagic, os Fourtet ou os Silver Mt. Zion, depressa se transformou numa amalgama noise de free-jazz, rituais xamânicos, guturais e experimentações vocais, um psicadelismo feito câmara das torturas de John Zorn e dos seus Naked City. Desconfortáveis e a descobrir com outra calma e noutro ambiente.

Älforjs @ Musicbox Heineken Series