The Strokes chegam à idade adulta em 'The New Abnormal'
84%Overall Score

Se os The Strokes não salvaram o rock, eles estão salvando o isolamento social de muitos. The New Abnormal, o último trabalho dos nova-iorquinos, foi editado a 10 de abril e dá seguimento ao EP Future Present Past que data já de 2016. O novo álbum faz-de de um pequeno apanhado crítico social, conectando o envolvimento da banda com as eleições presidenciais deste ano nos Estados Unidos, não defraudando assim as expectativas dos que aguardavam um álbum tecido de críticas políticas e sociais, mas indo também em direções bem distintas.

Em The New Abnormal a banda de Julian Casablancas sai do espectro do indie garage, deixando com ele os conflitos juvenis de outrora, e elevaram o conteúdo lírico a um outro patamar. Os Strokes assumiram então uma postura alicerçada numa idade adulta, com novos questionamentos e visão de mundo; suavizaram também a lírica, e cada elemento mostra-se livre para assumir seus papéis distintos dentro da band,a mostrando todo potencial que estava sendo omitido em fórmulas repetidas dos discos anteriores. A cada música é possível perceber o conforto de todos os membros neste novo processo, como quem se sente confortável entre amigos em um novo lar e deixando que as nove faixas que envolvem o álbum preenchessem o novo ambiente com suas próprias particularidades.

Os vocais de Julian estão mais suavizados sem tantos rasgos como o habitual. A faixa que abre o novo trabalho ,“The Adults Are Talking”, apresenta-nos um novo Casablancas. Esta é uma faixa coesa sem muitas distorções que se encerra no melhor estilo The Strokes. O mesmo acontece em outros temas como “Bad Decisions”, com seu refrão simples e sintetizadores portentosos, uma faixa com potencial para ser música de encerramento das próximas apresentações ao vivo da banda.

The New Abnormal é também um álbum marcado por belos jogos de guitarras entre Albert Hammond e Nick Valensi. “At The Door” e “Eternal Summer” ganham atenção pela arquitectura de riffs ecoada, particularmente a segunda, com seus vocais furiosos e riffs memoráveis, criando um clima de suspense e investigação que dão a sensação de que os The Strokes postergaram o melhor para o final.

As reflexões da vida adulta dos agora homens de 40 anos reflectem-se em faixas como “Why Are Sundays So Depressing”, em que riffs melancólicos equilibram toda a fragilidade lírica de Julian; a faixa seguinte, “Not The Same Anymore”, continua a sequência de crítica ao próprio eu. A execução do baixo e guitarra enfatizam toda a carga de sentimentos expressos na canção de densas variações. Por sua vez, a combinação de sintetizadores na atmosfera do rock da década de 80 concede a “Broklyn Bridge To Chorus” um ar dançante e clássico de new wave numa canção agridoce, ensolarada em sua execução ainda que solitária em sua narrativa: “I want new friends, but they don’t want me”.

As baladas fazem também parte deste novo trabalho dos The Strokes. “Ode To The Mets” engana com sua introdução oitentista, contudo se desenrola em uma balada puxada… Já “Selfless” parece ser a faixa mais bem acabada do álbum, com os vocais sussurrados de Julian e bateria solta. O tema é uma singela declaração de amor, com várias nuances em sua melodia. As guitarras e o baixo são sempre protagonistas, cada qual em seu momento, porém no instante em que acontece a junção, a balada ganha uma melodia crescente que desencadeia em um final solitário do baixo de Nikolai.

Os filhos de Nova Iorque apresentaram The New Abnormal envolto na arte de Jean-Michel Basquiat, “Pássaro No Dinheiro (1981)”. O artista, assim como os The Strokes, desprezava as convenções burguesas, ao mesmo tempo que na escolha da arte surge a crítica à antiga gravadora RCA. Muito se questionou ao longo dos últimos anos sobre um novo álbum dos The Strokes, já que os projetos paralelos de seus membros ganharam consistência e público ao longo deste período de incertezas quanto à continuidade da banda. Porém, tudo parece ter sido necessário para que os The Strokes pudessem-se reencontrar como novamente como colectivo e fazer algo com consistência.

Por mais estranhas que sejam as situações que a vida nos (im)põe, é necessário deixar um pouco de sol entrar pelas janelas, refrescar a mente com riffs aconchegantes, letras que traduzem nossas próprias vulnerabilidades, trazendo familiaridade e a lembrança de dias alegres e luz sobre as incertezas pessoais e mundiais. Estes são tempos anormais para a humanidade, e o sexto álbum da carreira dos The Strokes chega mais uma vez no momento correto, gera prazer ao ouvi-lo e aquece a alma novamente.