Baaba Maal - The Traveller: Regar as raízes com modernidade
70%Overall Score

Aos 62 anos, Baaba Maal é o mais reconhecido músico senegalês da actualidade e um artista consagrado, de longa carreira, cuja técnica e fusão de géneros tradicionais lhe concedeu um estatuto estável e admirável entre os amantes da tão designada world music. Cantando maioritariamente em pulaar, uma língua do povo Fula, Maal assume-se como um embaixador da língua e da comunicação, tema central na sua obra. Utiliza precisamente este dialecto não como uma barreira mas como prova de como a união e o diálogo podem surgir em qualquer sítio, independentemente do código que se usa.

Os seus esforços e o cariz humanitário da sua carreira musical tornaram-no num embaixador das Nações Unidas e um símbolo africano pela luta da agregação e do sentido de comunidade. Ao longo de uma carreira que já conta com 11 discos, Baaba Maal sempre procurou fazer uma viagem para trazer a voz do seu povo pelo mundo. The Traveller é a mais recente paragem desta demanda.

Encontramos assim um esforço de um artista veterano que constantemente procura novos mediums para expor a sua mensagem, ao mesmo tempo que traz consigo sempre, a velha e fiel bagagem das suas raízes tradicionais. Entre uma época a estudar Belas Artes em Paris e colaborações com Brian Eno, o caminho até The Traveller tem sido progressivo e subtil, e se no passado o músico se tem virado para os expoentes tradicionais sul americanos e de outras partes de África, em 2015 chega a hora de Baaba Maal se encontrar com o Ocidente actual.

Assim, The Traveller é um disco de world music que, utilizando um código linguístico extremamente estrangeiro para esta região, escreve as suas frases musicais em registos quase universais. Da música electrónica até ao rock de estádio, Baaba Maal traz as suas raízes belas e exóticas e alia-as à veia mainstream, reconhecida nos contributos para este disco, de Winston Marshall (dos Mumfords & Sons) e Johan Hugo (do projecto electrónico The Very Best). O que se ouve, então, é um registo puramente bem-intencionado, correndo, na verdade até, por uma certa ingenuidade. Deliciosamente fresco, vibrante e cheio de textura, The Traveller é, contudo, um trabalho que por vezes se esforça demasiado por ser acessível e faz precisamente a sua veia étnica (que devia ser a peça central) parecer como um pequeno joguete de diversão ao serviço de recursos pop infelizmente forçados e desnecessários.

Esta certa incapacidade de perceber que “o que é demais enjoa” é precisamente visível logo na primeira faixa do disco. “Fulani Rock” é uma arenosa malha de blues à boa moda médio oriental. A percussão perfurante sugere movimento e desbravamento, enquanto a perícia técnica de Maal nas cordas exige que o mesmo seja feito com dança e velocidade. Assim, com este apelo tão universal e sensório ao corpo, acaba por ser inexplicável a inclusão de um auto tune francamente piroso numa das pontes. Um elemento barato que acaba por lembrar mais um momento Bollywood em vez de conservar a aridez excitante natural à música do artista senegalês.

Às vezes fica-se com a sensação que se podia ter extraído muito mais do som original do músico, principalmente na sua voz e na particularidade do seu dialecto. Uma música inerentemente capaz de trazer sensações cálidas e etéreas não tem grande necessidade de acessos como as torrentes de pianos em “Lampenda”, que para além de serem um mais artifício gratuito, ainda roubam atenção ao trabalho do músico, cujo foco não é propriamente a composição pop copy paste do Top 40.

Produção problematicamente espalha brasas à parte, The Traveller consegue guardar bons momentos e experiências verdadeiramente estimulantes. É necessário olhar para a excelente “Gilli Men”, registo tropical que ganha uma cadência cinematográfica e nocturna com o beat electrónico e os coros a conferirem-lhe profundidade e dinâmica. Por trás, o registo “rezado” de Baaba garante que a alma esteja genuinamente presente por entre as inovações técnicas.

Acaba também por ser interessante sempre que na sua genealogia musical encontramos os elementos que influenciaram as correntes ocidentais que agora encontram o seu caminho neste disco. Nota para o indie rock em fase estádio (os Kings of Leon de Only By The Night vieram à mente) dos acordes exóticos de “Traveller” e para a esperançosa “One Day”, tema que por sua vez se demonstra hábil na transição linguística, com a mudança para o inglês a tornar-se deveras numa muito suave chave para a acessibilidade lírica e a fugir à habitual trapalhada que acontece quando os artistas estrangeiros arriscam por esta via.

Seja em níveis mais discretos como em “Kalaajo” ou na maior exuberância da vistosa “Jam Jam”, a experimentação entre o moderno e o tradicional de The Traveller tem sempre a ganhar quando deixa Baaba Maal expressar-se e respirar por entre a produção espampanante e demasiado “refinada”. O som deste músico potencia-se mais quando fala por si e é deixado a correr livre.

No fim há uma tentativa de coesão temática, com as duas últimas faixas “War” e “Peace” a fazer uma dupla antitética, esforçadamente narradas em inglês pelo poeta Lemn Sissay. Demasiado directo para ser algo realmente portentoso, é um bom recurso que por fim cumpre a sua intenção, sem se preocupar propriamente em fazer algum tipo de revolução sónica nas músicas de intervenção. Ganham ainda assim, por serem os dez minutos mais “selvagens” do disco inteiro, onde o músico melhor expressa o seu registo e se mostra como um hábil compositor tradicional ao serviço das afecções. Entre a agressividade de uma e a contemplação de outra, é-nos oferecida uma oportunidade real sentir as emoções e experiências que a música Fulani proporciona.

Sem grandes conceitos ou ambições muito complexas, por fim, The Traveller acaba por ser um trabalho que vive pela vontade de fazer música e de chegar às pessoas. A forma como escolhe fazer isso nem sempre é a mais discreta ou sequer exemplo em bom gosto e era melhor se se apostasse mais na discrição em certos momentos da produção. Dito isto, não há dúvidas quanto à sinceridade e calor que Baaba Maal traz com a sua música, que em si, consegue albergar uma força e uma alma que nenhum makeover pop conseguiria potenciar mais.