Em Blackpool, Inglaterra, Craig Dyer, então com dezassete anos, fascina-se com Bob Dylan e apercebe-se que, com uma simples guitarra e boa poesia se faz música. Em 2008 estabelece o seu projecto nomeando-o The Underground Youth e, no seguinte ano, aparece o primeiro álbum: Morally Barren LP, um disco tingido de psicadelismo ao estilo de The Brian Jonestown Massacre, com uma colher de sopa de The Velvet Underground e Primal Scream q.b.. Essa dose de psicadelismo culmina em Madmoiselle, LP de 2010 marcadamente mais cinza, onde se começa a ouvir o shoegaze e a emoção que nos remete para o post-punk.

Os Underground Youth não ficam por esse registo, nem se assustam com experimentar. Mantêm-se notavelmente fiéis ao que gostam e indubitavelmente sentem. Por todos os seus registos posteriores ouvimos sonoridades diferentes e referências que os próprios nunca negam e até, por vezes, assumem. É essa verdade que detém toda a força carismática e impactante do colectivo sediado em Manchester. No último registo, o LP Hauted (2015) vivemos uma sonoridade marcadamente diferente, no entanto identificável, onde vão beber até alguns sons new wave low-fi.

A sala do Cave 45, quase cheia, mais uma vez acolhe uma banda muito influente e poderosa no panorama da música contemporânea, e a Muzikismyoyster mostra, insistentemente, que o post-punk real, como deve de ser, não morreu. A banda entra com uma imagem imponente, com uma ocupação de palco simples: uma tarola e um timbalão, um baixo, duas guitarras e voz e uma presença muito forte. É dado o início com “Lost Recording”, e as palpitações começam a acelerar com o poder do baixo e da pequena bateria de Olya Dyer. Continuam com “Art House Revisited”, do mesmo álbum Sadovaya, também numa versão mais rasgada e crua. Durante esta viajem delirante, transitam para “I Need You” de Delirium. Os Underground Youth esganam-nos ao vivo com este registo post-punk.

Carregados de emoções, seguem o concerto com uma atitude formidável, sempre muito carismática e pura. Olya já ofuscada com as luzes, pede para retirarem alguma luz do palco, o que torna a atmosfera ainda mais cinzenta, onde os graves levitam na linha do horizonte mesclados com os contornos em contraluz da banda. A atmosfera é constante, numa linha de densidade bastante alta. A ideia de palco não satisfaz Craig Dyer, que vai destemidamente desbravando o público. De salientar o carinho ainda especial por Madmoiselle personificado nas gargantas a gritar aos primeiros acordes de “Hope & Pray” e “Heart On A Chain”, em versões electrificadamente mais densas que resultaram de uma forma surpreendente e ainda assim se reflectiram em lágrimas de alguns fãs.

Houve ainda tempo, num curto encore, para um belíssimo cover de “Ghost Rider” dos Suicide em que toda a banda entra público a dentro deixando o palco vazio, combatendo todas as noções preconcebidas de concerto de uma forma irreverente e intimista. É assim que amplificam um concerto que se manteve altamente emocionante.

O concerto foi magistral. Alegoricamente, foi como se os The Underground Youth fossem um prato elaborado com ingredientes genéricos, mas que resulta de uma forma formidável, inexplicável e surpreendente. É um projecto com menos de dez anos e parece vir de uma estrada gigante da forma exímia como se apresenta. As expectativas crescem, as “Madmoiselles” e os rapazes esperam impacientemente por mais um Delirium, que teimam em procurar.

The Underground Youth @ Cave 45