O que acontece quando dois veteranos dos anos 90, um do universo indie e outro do hip-hop experimental, se juntam? Third Culture Kings – abreviado 3CK. A dupla formada pelo dinamarquês Jan Johansen, guitarrista dos Ring Them Bells e ex-Glorybox, e pelo rapper nova-iorquino Alap Momin, também conhecido como Oktopus e membro fundador dos Dälek, encontraram-se e combinaram-se num projeto que mistura pensamentos em sintonia.

À partida inconcebível por serem membros de áreas musicais tão distintas, o duo forjou-se nas fortes semelhanças no raciocínio musical de ambos os artistas que culminou no lançamento deste primeiro single “Flamingo”. Munidos apenas de iPhones, mais do que um projecto musical os Third Culture Kings são, sobretudo, um projecto artístico que desafia não só a música atual contemporânea mas também os métodos de produção convencionais.

Jan Johansen foi, durante uma parte significativa dos anos 90, guitarrista da banda dinamarquesa Glorybox que, embora classificados pelo termo vago e vasto de ‘indie’, têm uma sonoridade que se funde entre o post-rock e o shoegaze que viveu nesse período a sua época de ouro. Na mesma altura, Alap Momin dava também os seus primeiros passos na música com a fundação dos Dälek. Este trio foi um dos projetos pioneiros na área do hip-hop experimental, mantendo uma atitude vanguardista e atrevida, sobretudo numa altura em que o hip-hop se encontrava devidamente definido e delimitado, dominado pela atitude bad boy e gangster. Além de membro e fundador, Momin foi ainda produtor do grupo e, mais especificamente, seu engenheiro de som. Essa qualidade, que ainda hoje mantém, viu-o colaborar com imensos artistas de diferentes áreas musicais, indo de The Dillinger Escape Plan a Yann Tiersen.

Mais do que experiência propriamente dita, foi sobretudo essa capacidade de adaptação e versatilidade sonora que uniu Alap Momin a Jan Johansen. É também uma das razões pelas quais “Flamingo” está assim construído. Logo no início do single, uma guitarra melódica e suave com vocais sobrepostos relembram de imediato o tipo de construção musical que se encontraria, por exemplo, no shoegaze dos Slowdive. No entanto, a isso é quase imediatamente acrescentada uma batida em sample, acompanhada de um ritmo uplifting, ambos inadequados com o género. Apesar disso, as partes cantadas, assim como as vozes de fundo, mantêm-se no registo do shoegaze, enquanto o resto do tema é simplesmente diferente.

À guitarra e vozes juntam-se diversos efeitos sonoros habilmente acrescentados por Momin, que vão desde um reverb acentuado e de samples de música ambient a samples de música africana, e até uma distorção de voz e instrumentais tão extremos que simulam uma possível avaria nas colunas. É possível que a qualidade do som tenha simplesmente sido prejudicada pelo facto da maioria dos efeitos sonoros – assim como as gravações das vozes –, tenham sido construídos em telemóveis, mas o facto é que Momin, embora seja um engenheiro de som experiente, preferiu deixá-los assim.

No seu todo, a música parece uma viagem, um sonho, tanto interior como exterior, onde somos transportados por uma variedade de sensações flutuantes. Manifesta-se complicado conseguir classificar o género musical em que os Third Culture Kings se querem incluir, mas isso não é o mais importante. Antes pelo contrário: parece que é precisamente nessa ambiguidade que os 3CK pretendem permanecer, misturando sons, vontades e experiências diferentes – tanto de vida como musicais –, e pô-los em sintonia.

A viagem continua a 18 de agosto, data de lançamento do primeiro álbum dos Third Culture Kings intitulado Is That Light You Carry? e produzido pelas editoras 100.000/Internet and Weed.