Throes & The Shine - Mambos de Outros Tipos
80%Overall Score

Mambo, em angolano, significa coisa, e ao segundo disco editado por este colectivo de gentes do Norte e de povo de Angola, confirma-se que o rockuduro é mesmo uma coisa de outro tipo. Throes + The Shine, com este Mambos de Outros Tipos, são sinónimo de festa e boa disposição. Mostram-se com um som ímpar no panorama português e arrisco dizer no panorama mundial, dadas as características únicas resultantes da mistura das guitarras rock com algum ritmo maquinal e palavras rappadas do kuduro. Durante os 9 temas deste trabalho novo o que ouvimos é um matrimónio perfeito entre os dois estilos referidos e mais, tornando-os indissociáveis e afirmando um novo estilo. Ao segundo álbum, lua-de-mel já passada, não se vislumbra sombra de divórcio, porque em equipa vencedora não se mexe e eles sabem-no bem.

“Tuyeto Mukina” é uma boa entrada num universo que a princípio poderá parecer estranho, mas que rapidamente contagia e agarra fazendo querer descobrir mais; em “Mambo” temos o refrão que dá o título ao disco “O que estás a dançar, o que estás a curtir é Mambo de Outros Tipos…”; canção que pisca o olho a Da Weasel no início da carreira, com guitarras rock num registo duro, mas com uma reviravolta no final que a torna numa canção indie daquelas em que se abre os braços, a alma, o sorriso e se rodopia até ao final, fazendo sonhar. Para mim, é um dos temas mais fortes deste trabalho, apesar de também ser um dos mais “ocidentalizados”; em “Kimbo” há referência às raízes e apelo à necessidade de preservarmos os conhecimentos do passado. Mundo rural vs. cidade e sim, a alegria da simplicidade apesar das dificuldades da pobreza: “vida boa é no kimbo” (na aldeia): sintetizadores alegres, som soft; em “Dombolo” voltamos a um som mais hard. Há um equilíbrio muito interessante na maneira como os temas foram colocados uns perto de outros. Aqui temos o kuduro a afirmar-se na sensualidade da dança do dombolo e mais uma vez vêm-me os Da Weasel à memória. São boas memórias e com isto não pretendo dizer que Throes + The Shine são uma cópia, nada que se pareça! Aqui há novidade, claro que todos temos referências e, sem querer, elas emergem!

Ouve-se em “Wazekele”: “si nã dançar, vou-te bater!” kuduro rappado e realmente quem ouvir e ficar parado é ovo podre! “Triba Triba” tem mensagem super positiva, guitarras saltitantes e dançarinas e temos aqui qualquer coisa que me transporta até aos Beirut. “T’amborabom” é rock africano com refrão à la Rage Against The Machine; o rap no final e a força das guitarras levam-me a outros anos e é possivelmente um dos temas mais próximo aos do disco anterior; “Maka” é um tema sem guitarras, numa onda party muito dançável, sintetizadores no comando e arrisco dizer que há aqui uma direcção a explorar em futuros trabalhos. O disco termina com “Tufuete” que é uma canção linda! Com refrão orelhudo a fazer lembrar os suecos Shout Out Louds. Mensagem de esperança, apesar de eu não conseguir traduzir o que dizem, há um sentimento que passa e claro: pormenor delicado do cowbell a fazer a diferença!

Há mais aqui de rock indie, positividade, com sabor de Angola e guitarras de festa de pôr-do-sol do meu país que não me lembro, do que propriamente kuduro. O kuduro old school feito em Luanda é ríspido, áspero e muito pouco criativo, assente sobretudo na repetição. Criatividade é coisa que em Mambos de Outros Tipos não falta. Estes senhores sabem aproveitar com mestria o bom de várias culturas: pegar em vários sons do universo, baralhar e voltar a dar… neste caso, calhou uma mão de ases! Agora só me falta vê-los e dançá-los ao vivo urgentemente, caso contrário fica-me o feeling de que ando a perder umas coisas.