Dificilmente se poderia imaginar casa mais acolhedora para Tim Hecker que a 4AD. Ainda que esta esteja longe dos anos dourados da vanguarda editorial, a etiqueta de Ivo Watts-Russel, antes e sempre sinónimo de arrojo e elevadíssima qualidade, continua a ser um marco no que toca a albergue das mais distintas figuras de proa do movimento alternativo contemporâneo. E, assim sendo, Tim Hecker junta-se ao lote de luxo que compõe a label londrina, fazendo par com Grimes, Sohn, Gang Gang Dance, Atlas Sound, Holly Herndon ou, em registos menos complexos, The National, Daughter ou Future Islands.

Três anos volvidos desde o último registo de originais – Virgins envolvia-nos em matrizes primárias sobre os instintos básicos e as reacções humanas em contraste com o desenvolvimento e o imperialismo tecnológico – Hecker regressa para voltar a não deixar pedra sobre pedra no que toca a agressividade sónica e no que toca a explorar os mais refinados e sombrios cantos da mente e alma humana.

Love Streams, a ser editado a 08 de Abril, foi gravado nos Greenhouse Studios em Reykjavík e conta com algumas participações de vulto. Além de Grímur Helgason e Kara-Lis Coverdale que já tinham emprestado o seu virtuosismo a Virgins, Tim Hecker tem ainda ao seu lado Jóhann Jóhannsson – o mago islandês vencedor do Golden Globe para melhor banda-sonora no filme de The Theory of Everything de  James Marshall e que, já em 2015, compôs a banda sonora de Sicario com Benicio del Toro e Emily Blunt nos principais papéis – que escreveu todos os arranjos aos quais o Icelandic Choir Ensemble emprestou voz.

Inspirado por conceitos litúrgicos de uma pós-cristandade motorizada e de crenças revistas pelo olhar mecânico e cibernético de uma entidade suprema etérea, Hecker espelha mais uma vez a sua incapacidade de contemplar o caminho do conforto, voltando a rasgar manuais de composição e a desviar-se do caminho das classificações. Embora o conceito e o sentimento de Sacro e do Supremo seja uma entidade presente na nova sonoridade de Hecker – sentem-se as influências confessadas, a música coral do séc XV das partituras de Josquin Des Prez – a redefinição do antigo através do futurismo continua a ser figura omnipresente na obra do experimentalista canadiano sediado em Los Angeles.

Tim Hecker tem já marcadas duas datas no nosso país. Um mês depois de Love Stream ser lançado Hecker regressa ao nosso país depois da experiência sensorial que foi o concerto no Musicbox em Outubro de 2014 incluído no cartaz do Jameson Urban Routes com Moonface que podem recordar aqui. Tim Hecker vai a 9 de Maio ao GNRation, em Braga, e no dia seguinte desce a Lisboa para ocupar o palco do Teatro Maria Matos. Esta é “Castrati Stack”.