O rugir do metro já é razão suficiente para que o gigante e conveniente monstro metálico por vezes se possa fazer saturante. A par disto, as suas recentes perturbações enaltecem uma confusão que nunca se pediria nesta pequena e humilde cidade de Lisboa, que entre a sua dimensão e o impressionante mundo que nele cabe está sujeita, por vezes, a dias melhores que outros. O signo dos tempos recentes tem sido feito de polémica, avassalo e pressa. Os fait divers invadem as mentes e os intermináveis queixumes passam agora a dar lugar a motins e demonstrações de uma agitação estranha que vai abraçando o nocivo. Enquanto isso, uma sociedade que não perdoa, obriga as pessoas a conter a respiração à medida que os dias são feitos de pressões externas e internas, objectivos e expectativas de algo que ninguém parece saber o que é.

Aliado à correria suada, começa a chegar um inocente Outono ainda a apalpar se quer trazer já o frio ou se ainda se espera mais um bocadinho, colocando-se numa autêntica indecisão térmica a colocar mais enigmas nas mentes das pessoas ocupadas que já não sabem se hão-de correr de casaco na mão ou se hão-de correr de casaco vestido. Plantado, olhando todos os dias o sobe e desce dos veículos e das flechas humanas que circulam ao ritmo da alta pressão sanguínia do coração da cidade, está o eterno teatro Tivoli que, nesta quente quarta-feira de Outubro, vai receber uma visita de um velho amigo que é de todos nós. Os britânicos Tindersticks, frescos do seu lançamento de 2016 The Waiting Room, e das recentes excursões a Vila do Conde e Caminha, regressam para a nossa companhia na primeira de três novas datas em Portugal, onde ainda irão encontrar Coimbra e Porto. Pelo Teatro, a casa haveria eventualmente de encher e o ar ficar mais leve ao suave dedilhar de uma guitarra eterna.

Dentro do modesto e arrastado tom dos Tindersticks, bem como da virtualmente perfeita composição que enraíza as suas canções, cabem mundos, estados e sentimentos verdadeiros. Se em disco já tiveram oportunidade de se tornarem companheiros de vida mais ou menos passivos, é ao vivo que eles têm a oportunidade de penetrar almas e corações e erguerem ditas sensações e sensibilidades a carne e osso e com um pulso. Em concerto, foi exactamente o que aconteceu à medida que entregaram um espectáculo irrepreensível desenhado para acolher tanto as canções The Waiting Room como a própria plateia. O Tivoli foi levado a viajar ao sabor do som de uma banda que a ele se uniu num elo cândido e saboreado. Como a beleza mais simples de um regresso a casa depois de uma longa ausência, ou da visita a um velho parque de infância, aquela que se sentiu junto deste quinteto foi uma de quente reconforto.

Meios mornos, meios soturnos, meios adocicados, os Tindersticks fizeram-se de delicadeza e ruga à medida que foram orquestrando as vívidas texturas do seu som, esta noite especialmente marcado por uma experiente e sensível secção de bateria e o oscilar aguado do eterno teclado que soou ora mais carregado e religioso, como solto e aventureiro, dependendo das ocasiões. Aquecendo precisamente este mood e preparando uma cama que haveria de se ver mais brincalhona, o grupo lançou-se sob a égide do baixo com “Second Chance Man” e “Sleepy Song” a fazerem-se de sensuais linhas graves e minimal percussão que foram embalando a plateia de um lado para o outro ao som dos seus grooves cabisbaixos. Colocando tudo na linha esteve a portentosa voz de Stuart Staples, o elemento que enche de terra e força as canções frágeis dos Tindersticks, que a este ponto haviam tornado o Tivoli num pequeno e tristonho bar, tão acolhedor como estrangeiro.

Dada a história do grupo, a paleta de cores do concerto foi-se fazendo de relativa variedade, passando, entre a eventual versão de “Johnny Guitar” e as tiradas do novo disco, um pouco por todo o seu catálogo. Particularmente inclinados para o período intermédio da sua carreira, as texturas mais ásperas e ressequidas dos primeiros discos notaram-se menos face à elegância mais madura e atmosférica do que aí viria depois de Curtains e, nesse sentido, os Tindersticks ofereceram-nos mais uma vasta paisagem ou uma longa caminhada do que uma tour de autocarro pelos sítios de interesse: o espectáculo seguiu uma delicada cadência, tão paciente quer na performance instrumental – calma e experiente -, quer em actos mais mundanos, como os preparativos entre canções e as eternas trocas de guitarra. Dos anos de “The Other Side of The World” até à dupla “Hey Lucinda”/”How We Entered” caminhou o mesmo céu cinzento sob a soturna veia orquestral que arranca sorrisos quer ao som do piano cintilante ou da percussão mais brincalhona, e por altos e baixos nos carregou por uma pradaria tão rica em vivas e simples melodias como nos mais deliciosos e intrincados detalhes.

A certo ponto, deixados apenas sob o suporte voz e teclas com alguma ajuda rítmica, o grupo lançou-se à sentida “The Waiting Room”, o momento mais intenso e pesado do concerto e que da nostalgia distante e quase infantil que até aí se via, trouxe um luto poderoso e fúnebre a ser acolhido por um silêncio de quase religioso respeito. As próprias palmas ecoaram diferentes e firmes face ao pedido de misericórdia da canção (“don’t let me suffer”) e naquele momento viu-se uma banda e arte capazes de penetrar, de partilhar e fazer sentir de formas verdadeiramente diferentes à frente de uma plateia que a acompanhou em doce sensibilidade. É neste tom que surge mais um cândido e especial momento: as teclas e a bateria haveriam de ficar agora completamente sozinhas para juntas interpretarem um abstracto e simbólico momento sem palavras.

Uma melodia reminiscente, tão solitária como feliz por isso mesmo, foi entoando no Tivoli como se num quarto de dormir estivesse. Igualmente, como se junto à janela se ouvisse, os metais do kit foram chiando em padrões imprevisíveis e indiscerníveis, lembrando as gotas da chuva que caem sobre uma qualquer chapa esquecida na rua. Curta, simples e de uma beleza extrema, a peça surgiu como um simbólico intervalo que, mais que isso, permitiu o sonho e a imaginação fluírem num rio de emoção. Nesse sentido, um pouco mais à frente “Show Me Everything”, entusiasticamente bem recebida, haveria de inaugurar o início de um fim que só veio porque teve de ser e que nem por isso assim foi: a banda chegou a abandonar o palco depois da textura exótica de “A Night So Still”, ajudada de forma portentosa pela melodia, mas eventualmente regressou para mais dois temas clássicos, levando os fãs de 2002/2003 ao rejubilo com o pandã “Sometimes It Hurts”/My Oblivion”. Já nem era preciso, tal era o sentimento de satisfação, mas se alguma coisa, este era um sinal para que se desfrutasse da música porque amanhã ela já não estaria assim nesta forma.

Sem muitos efeitos, grandes técnicas de produção ou sequer uma vontade de inovação, os Tindersticks vieram lembrar-nos como a música pode ser transcendental sem ter que ser surreal, revolucionária, psicadélica ou algo que o valha. Apenas munidos das suas próprias canções, bem como de uma sensibilidade nata quer para a música quer para a sensação que a mesma desponta, o grupo veio ter connosco para cerca de duas horas de escape, onde a cidade lá fora deixou de existir e o Tivoli cá dentro absorveu as neuras, as preocupações e uma vida real caótica para nos colocar no mundo do sonho. Sem aditivos ou conservantes, os Tindersticks trabalharam realmente essa propriedade onírica que não deixa de ser terrena porque a aura deles é a do sentimento, a da pele e da carne. No fim de tudo, o mais saboroso é sentirmo-nos humanos. A eles agradecemos por nos lembrarem desta forma como são boas estas coisas.

Tindersticks @ Tivoli

Tindersticks @ Tivoli

O olhar de Luís Custódio sobre o palco do Tivoli BBVA:

Tindersticks @ Teatro Tivoli