Tindersticks - The Waiting Room
85%Overall Score

A sala que faz nossa espera ser prazer

Os Tindersticks têm uma história de edições que atravessa já três décadas e várias influências musicais (de autores e também de géneros), o que torna impossível contar bem aquela história só numa folha A4. E no entanto, é tão fácil identificá-los pelo cabotino timbre da voz de Stuart Staples, crooner que com um cante amiúde declamado, sempre mantém a identidade introvertida da banda, tanto num álbum mais retro e acústico como num registo mais contemporâneo e electrificado. Actualmente, apesar do foco temático das letras nos relacionamentos afectivos e na introspecção, é redutor classificar a banda como sendo género easy listening, tal a riqueza do som daquela, que é uma pop contemporânea adulta, para ouvidos musicalmente maduros, aptos para apreciar a música pelo que é e tem, não só pelo que permite ou induz fazer (dançar, estudar, conduzir, meditar, …).

O disco que é marco existencial

O novo disco, The Waiting Room, que foi integralmente incluído numa média metragem com sketches para cada faixa filmados para La Blogotèque, é o disco adequado para quem aprecia Tindersticks e não escuta um álbum deles há muitos anos. Porque é um trabalho de ecuménica agregação de (quase) todos os condimentos artísticos (os Tindersticks não são só músicos) e genéricos e estilísticos (também de paralelas carreiras a solo) – e ainda emocionais, inevitáveis após a entrada de novos membros – que a banda foi assimilando para o próprio som, nos sucessivos álbuns que produziu em mais que 20 anos, até lograr o actual estado de harmoniosa completude “individual” (do próprio colectivo). E sintomático do resultado daquele devir é a estruturante primeira canção do álbum, segundo os elementos da banda, ter sido a reverberante “Help Yourself”, o quarto título no alinhamento das 11 faixas do disco.

The Waiting Room é isso mesmo, uma sala de espera, que ao longo de vários ritmos e estilos instrumentais – por exemplo, a variação entre os tradicionais arranjos para cordas e os arranjos soulful para sopros que a banda adoptou já neste século – permite pró-activas meditações, introvertidas viagens espirituais (que podem ser regressos), não sendo uma inócua e inerte espera estática.

Após “Follow Me”, o relaxante instrumental de introdução (e do final do filme), a canção de abertura é “Second Chance Man”, que tem um início quase hirto e, sobre um fundo de pandeiretas e intermitentes sopros, vai ziguezagueando a reboque de um título aparentemente tragicómico para a hipótese de um homem que, pilotando ebriamente uma segunda oportunidade, acaba por incidentalmente “morrer na praia”, fracasso que é uma plausível explicação para a canção seguinte, a frenética e desesperada “We Were Once Lovers”, poema de dolorosa saudade (comoventemente chorado por Stuart Staples), que começa por cobrir um baixo chapado e depois quase voa a bordo de um acelerado afrobeat que concilia aquele baixo com arranjos para cordas que soam a túneis de vento, antes de o final da canção afogar as mágoas no fundo do poço emocional do The Waiting Room, mas só após sugerir que será um momento alto nos concertos da banda em noites de Verão.

A lúcida reacção

Já foi dito que “Help Yourself” é a primeira canção que foi composta para The Waiting Room, cujas outras dez faixas foram feitas e posicionadas em relação àquela. Revelada muito antes do lançamento do álbum, para o qual foi o inspirador mantra, é uma música evidentemente icónica da própria evolução musical dos Tindersticks: um gingão afrobeat midtempo, decorado com refinados arranjos para sopros funk-soul (em vez das cordas omnipresentes nos anos 90), compostos pelo talentoso Julian Siegel, como todos os do disco, um emocional afrobeat que Stuart Staples preencheu com uma das melhores composições vocais da carreira, desenrolando todo o veludo da própria voz, visceralmente projectada para uma das melhores canções também dos Tindersticks.

Para aligeirar a audição ao álbum, “Hey Lucinda”, ocioso dueto com a terna voz de Lhasa de Sela (posteriormente finada), está servida numa balada baseada no arrastar do harmónio, pontuado com notas de metalofone e decorada com as cordas de sempre dos Tindersticks em diálogo com os sopros, para aparentemente retratar um momento no final do affair de Verão de uma estudante universitária e o sujeito do álbum, mais velho (que bebe para esquecer, não brinda ao futuro, segundo ela). E o momento do receoso despojamento solitário flutua no instrumental post-rock “This Fear Of Emptiness”, a meio das onze canções do disco.

How We Entered” é o arquetípico Stuart Staples quase monocórdico, declamando em dueto com o baixo, como por exemplo na ”My Sister” do pioneiro Tindersticks, sobre uma glamourosa orquestração de cordas e sopros, para descrever as emoções de um noivo à entrada do próprio casamento, na cerimónia do matrimónio – um noivo egocentrada, cuja conduta exigiu que fosse o second chance man do início do disco.

Tragédia e catarse

A “The Waiting Room” que virou título do álbum é um lúgubre diálogo entre um coral órgão de altar e um baixo esporádico, sobre o qual uma pessoa numa sala de espera parece dialogar com um anjo, ao qual suplica que resolva depressa um plausível momento comatoso da cara-metade, repetindo Don’t let me suffer”. Todavia uma morte é sugerida pelo instrumental “Planting Holes”, com ecos de sinos se sobrepondo a uma soturna melodia de caixa de música electrónica. E é em dueto com a dramaticamente vívida voz de Jehnny Beth (Savages) que a demencial reacção de negação – “This is not hurt!” – é expressada na agitada marcha fúnebre “We Are Dreamers”, uma alegoria do viúvo sonhando estar com a esposa ainda viva – “This is not us, we are dreamers”.

O disco termina catarquicamente, enquanto a resignada “Like Only Lovers Can” reflecte sobre como as maiores mágoas só podem ser infligidas (e sofridas) pelas pessoas que se ama, ao longo de uma sofisticada, mas simples, balada pop , até a secção rítmica se desvanecer. Alguns anos após Something Rain, o excelente The Waiting Room é isso mesmo, uma ponderada obra de excelência na composição e nos arranjos, na execução instrumental e no cante – Staples está melhor que nunca, com uma segurança que lhe permite projectar a voz extrovertidamente, para Coliseus…