Erradicados na palavra que indica despedida e agora mais recentemente ornamentados com um álbum de estúdio – Homebound 456, que faz precisamente uma referência ao regresso -, os Vaarwell fazem uma arte que se coloca bem confortável nesta dicotomia. A música do trio lisboeta tem um sabor sazonal pela forma como muda de escamas ou deixa as suas folhas douradas cairem no chão. Há qualquer coisa de despedida, de distância e desconhecido na atitude sensível e delicada do grupo que eventualmente desponta em raios efervescentes de luzes, cubos de gelos a derreter e uma revolta jovial tudo menos soturna, um regresso para ajustar contas… Isto é, até sermos levados de novo a esse lugar de isolamento e introspecção, onde só uma guitarra é que descansa debaixo do holofote, chorando notas para um quarto vazio e amplo de persianas corridas.

Os Vaarwell movem-se nestas sensações mais interiores e fazem-no de uma forma especialmente jovem. O casamento entre os pulsares minimalistas de um baixo comandando por Luís Monteiro e os novelos de guitarra que se propagam pelo ar nas mãos de Tiago Nagy, juntam-se ao estilo confessional da voz e letra de Margarida Falcão que completa um trio dedicado em fazer um pop rock cheio de ar e eco a correrem dentro de si ao ponto de os fazer flutuar. Cerimoniosos e delicados, com cada nota e movimento a sair com precisão, os Vaarwell erguem canções que se assemelham a nuvens: uma massa gasosa que se vai lentamente carregando e solidificando até deixar cair uma torrente de energia e electricidade para que possa tornar-se leve de novo. No concerto de apresentação do novo disco, o trio apresentou-se em quinteto – como é comum ao vivo -, e viu-se muscular com a ajuda das intensas e tribais baterias de Tomás Borralho e as electrónicas, percussões e guitarras adicionais de André Paiva.

Assim, o que se encontrou no C.C.B. foi um conjunto de histórias sónicas, contadas pela batuta das mudanças de dinâmicas radicais mais oriundas do rock, e o ritmo incessantemente quente e sintetizado. Há uma forte componente electrónica nas músicas dos Vaarwell, tudo em nome da criação de uma atmosfera abstracta e mais onírica que sempre parecem expandir o espaço à volta da banda. Entre as baterias programadas e os drones de teclados e outros minuciosos pormenores sónicos – desde loops de teclas a pequenos shakers -, a natureza simples e pop das canções dos Vaarwell encontra sempre espaço para crescer e se expandir em extenso detalhe, com as suas várias camadas a viajarem pelo Pequeno Auditório e atingirem de diferentes lados os ouvidos de uma plateia atenta e bem instalada que nunca, contudo, foi avassalada com demasiada escala ou sobreprodução.

Vaarwell C.C.B.

Vaarwell no CCBeat

Isto porque, entre os devaneios sónicos que fazem estas músicas voar e conectar-se com paisagens mais fantasiosas e cosmopolitas, o cerne da natureza dos Vaarwell está no tom intimista e caseiro que conseguem criar: depois de um início em circunstância, que viu Margarida Falcão começar ao piano de cauda para cantar “Untitled”, pouco tardou para que a vocalista se abraçasse à guitarra e a casasse à de Tiago Nagy e, ocasionalmente, à de André Paiva. São nestas valsas, entre guitarras, ou entre baixo e bateria, que os Vaarwell se mostram genuinamente como uma banda de cumplicidade, tocando em unidade para fazer florescer estas canções que nascem de simples acordes e que em palco se soltam livremente, não em devaneio, mas como pequenas crianças que saltam e brincam placidamente à volta dos seus pais. Um exemplo de uma criança bem crescida vai pelo nome de “Branches”, o primeiro single que o grupo lançou e nesta noite homenageou com uma versão mais apimentada e potente, onde a electrónica abraçou a folk e onde até uma aparição de Kendrick Lamar em modo “Swimming Pools” deu entrada para responder ao drunk na letra de Margarida.

Entretanto, canções como “American Dream” e “Sheets” foram mostrando como este grupo tem uma incrível sensibilidade à textura e uma queda para desenhar lindas aguarelas de paisagens, ao mesmo tempo que não descuram do ritmo, com o segundo exemplo a trazer consigo um fascinante motivo percussivo semelhante a uma guitarra processada, responsável por uma das mais intensas vontades de dançar nessa noite. Já a primeira, é um épico pop feito de irresistível ginga e uma das melhores potenciadoras da voz de Margarida Falcão, que aqui surge desprendida do costumeiro véu de penumbra e intimidade para se pronunciar confiante e atrevida.

Em toda a sua globalidade, os Vaarwell encararam de caras e sorrisos uma sala que, à partida, poderia ter uma conotação formal a mais para um projecto tão jovem. Foi precisamente essa atitude que proporcionou uma noite tão leve e aquecedora em Belém e potenciou o carácter do Pequeno Auditório, não só para um desfile de canções sonhadoras e místicas, como também para uma banda se mostrar em toda a sua perícia e atenção ao detalhe. Aqui se tem traçado um carreiro sónico já maduro na sua concepção e interessa agora ver para que trilhos os Vaarwell nos poderão levar no seu incessante crescimento.

Lê também: Vaarwell: ‘Homebound 456’, ou o desejo paradoxal de sair e de ficar em casa