O sol volta a erguer-se orgulhoso por detrás da extensa serra e mais um dia de ZigurFest dá-se por iniciado. Os habituais preparativos ao início da tarde antevêem cerca de mais oito horas de música corrida e sem interrupções numa altura em que, depois da descentralização, o festival afixa-se no centro da cidade. Registando um fluxo notável de gente que se deslocou para a Rua da Olaria para assistir aos concertos de livre acesso para todos, o programa das festas continuou as suas tendências exóticas e efervescentes por sangue novo.

O ZigurFest trouxe então um alinhamento que cruzou as propostas mais transgressoras e vanguardistas com a acessibilidade mais doce e facilmente cativante, composta por alguns nomes da linha da frente da pop mais interessante em Portugal. Entretanto, houve tempo para muita boa surpresa. Entre a mestria melódica dos Galo Cant’Às Duas e a excelente indução transe de Random Gods, houve a colossal comunhão banda-público dos Baleia Baleia Baleia (a indubitável descoberta da noite, quiçá, do festival), o encanto natural e a perícia dotada de Joana Guerra e um concerto de proporções reais da jovem Surma, que esta noite provou a capacidade da escala do seu som ao soltá-lo forte e ecoante no Teatro Ribeiro Conceição.

Uma tarde no campo…

A música já soava dos PA’s dos dois palcos exteriores, habilmente colocados entre os cantos e largos da caricata Rua da Olaria, servindo como aviso para a multidão que lentamente se agregava na zona num burburinho de fermento. Batia pouco após as 16h30 para o começo dos primeiros espectáculos que para inaugurar o dia trouxeram os ares das regiões vizinhas. Viseu e Tondela são as áreas que acolhem respectivamente os Galo Cant’Às Duas e Fazenda, projectos mais orientados para rock e nas suas diferentes facetas que, de si, trazem imagens quentes e algo áridas e campestres. O Galo, tomando o palco da Olaria que se situa no pequeno largo rodeado de negócios locais e estratégicas varandas para quem aprecia a vista aérea, apresenta-se na forma de um duo que ora domina a guitarra, ora o baixo para trazer um balanço gingão entre o groove e a melodia.

Um pouco na linha que havíamos visto no dia anterior com os Torto, também estes dois jovens parecem procurar a fusão de linguagens entre a abordagem mais directa do rock e o dialecto de outras expressões de vanguarda. Aqui, esse cruzamento é feito de uma forma ligeira que não é leviana; é só mesmo muito ágil. A vibe mais “chillada” do jazz encontra-se com a adrenalina jovial das frases da guitarra e uma bateria flexível que constantemente saca formas cativantes e originais de manter o ritmo, oscilando o som do grupo para um post-rock complexo e cerebral, bem temperado em raízes africanas.

Ainda em coordenadas próximas, os Fazenda são também um projecto que dá primazia ao trabalho de instrumento, neste caso, a guitarra. Também um duo, ambos os intérpretes vão tocando numa sintonia de trabalho e amizade, viajando entre os mais diversos estilos e cruzando géneros e referências para criarem um set fluído, de passagens líquidas como um rio. Trabalhando sob uma estrutura de composições, os Fazenda não se perdem na sólida estrutura dos seus temas, mas permitem-se a liberdade de cair em divagações e aventuras mais obtusas, fazendo um uso cirúrgico da panóplia de efeitos que tiveram ao dispor. Entre malhas blues mesmo à grande e à escrita de trilhas sonoras para um noir português ainda por escrever, foi com os Fazenda que o público do Zigur entrou na onda festivaleira, como que carregados ao colo e sempre pela sombra que ornava o Palco Castelinho, montado nas costas do Teatro. Estavam, então, as pilhas da motivação carregadas para o receber a vanguarda pre-histórica dos Älforjs, de volta ao coração da Olaria.

Liberdade musical, entrega angelical

A subir o caminho já se ouvia a voz grave e cheia do contrabaixo que liga toda a loucura que está acontecer com este trio chamado Älforjs. Picantes drones de teclado erguiam um conflito moderno e corrupto com a pureza (ainda que destravada) da aura ancestral que lembrava fortemente um cenário semelhante a uns Flinstones vanguardistas. O método de free jazz recebe uma roupagem terrena e lamacenta, pertencente no meio do mato, e com este trio praticamente tudo é ritmo. Depois de encaixarem um padrão devidamente bizarro, o mote passa pela repetição incessante e percussiva à medida que o tema se vai transformando em lenta progressão. Riquíssimo nas texturas, desde um fantástico trabalho de saxofone e contrabaixo até à sintonia dos grunhidos agudos/graves que, sendo cómicos, também despontavam uma sensação fantástica de desassossego, o concerto dos Älforjs foi uma experiência sonora altamente cativante e atraente pelas sensações físicas que foi capaz de despontar. No subtexto, um tremendo groove surgia. Como não dançar?

Depois de terminarem a mais longa composição do concerto com o contrabaixo a namorar um arco que dele tirou o som de todas as trevas e perversões ritualescas, a acção passava agora para o Teatro pela primeira vez nesta edição. Entre refills de copos e paragens por casa para ir vestir aquela camisa para fazer face à noite (ainda assim amena que aí vinha), fazia-se o tempo para que Joana Guerra viesse inaugurar a nobre sala principal do Teatro. Uma cortina vermelha, como manda a tradição, combinava com o forro escarlate que destacava ainda mais a talha dourada do auditório. O teatro foi recentemente restaurado e premiado com uma nova vida no que toca a instalações e programações, mas o charme da sua antiguidade, devidamente ilustre e refinada, manteve-se intacto, algo visível pela instantânea personalidade que se apalpa ao nele entrar. À frente da cortina, dois pedais, um microfone e o violoncelo ao lado da cadeira descansavam enquanto a sala se ia compondo.

Joana, de aparência jovem e dotada de genuinidade e de maneirismos cativante entra harmoniosa e em silêncio, tomando o seu assento e o seu tempo para se concentrar antes de iniciar um concerto cujo espaço foi talhado à sua medida. Com a sua vibrante voz de registo clássico e formal, bem como nos seus acessos ora melodiosos, ora cinematográficos no seu instrumento, viu-se a incrível qualidade de som do teatro. Cada nota, cada frase e cada mais ínfimo som ecoavam numa límpida vibração e cada nuance era facilmente distinguida num espaço sideral ricamente recheado de magia sónica. Guerra surge a cruzar o experimentalismo sonoro com a clássica teatralidade que está no berço da performance.

Sob uma luz dura e outros artifícios, como a subida estratégica da cortina para revelar o fundo do palco e a “orquestra dos músicos invisíveis” atrás dela – como a própria lhe chamou -, a jovem música viajou entre línguas (nomeadamente entre o francês e o inglês) para nos trazer imagens de uma sensibilidade poética refinada. Braços feitos de água e a marcha intensa dos cavalos são algumas das ilustrações verbais que ornaram toda a beleza dramática do seu instrumento que cortava o ar  que a sua voz ia sarando logo a seguir até só já restarem as pontuações minimalistas dos ocasionais loops que surgiam. Serena, descalça mas claramente imensamente entusiasmada, Joana Guerra não fez questão de usar nenhuma máscara entre as suas performances, aproveitando para agradecer ao seu público e efusivamente confessar “que descarga de adrenalina!” que é quando se acaba triunfante o grande finale de um dos seus temas. Artista de uma maturidade intrínseca e cuja curiosidade a levou a uma zona muito interessante de um vanguardismo que se equilibra bem com uma rota que segue de perto a da música popular, Joana Guerra no TRC foi um grande tesouro oferecido até agora no festival e um talento inegável, cuja ousadia apenas encontra par no seu próprio entusiasmo e genuinidade.

Surma, uma rapariga só

Quem também veio para conquistar foi Surma. A jovem Débora Umbelino proveniente de Leiria tem vindo a encantar mais ou menos um pouco por todo o país, fruto da sua pop de quarto cândida e atmosférica cujo mistério sintético é elevado ainda mais pelas emoções e sentimentos disferidos através do esforço conjunto de uma guitarra flutuante e um coro de uma voz. O cariz acessível e sensivelmente portátil da sua orquestra coloca a jovem música numa posição flexível em termos da tipologia de palcos mas depois desta noite não há dúvidas que o registo teatral e de anfiteatro é aquele que mais potencia o som de Surma. No TRC a pequena rapariga soou gigante. As batidas enchiam a sala e subiam até ao tecto, enquanto prefabricadas paisagens de teclados que muitas ornavam as suas composições, como aconteceu com a Joana Guerra anteriormente, voavam por todo lado, levantando o espectador numa impressionante aura de misticismo.

Também com direito a uma entrada dramática, onde a artista começou a tocar oculta pela cortina, desde cedo no concerto foi notório o crescimento exponencial da imaginação e da potência das suas composições. Tal como “Masaai”, que a própria introduziu como estando um “pouco mudada”, todas estas canções cresceram desde a última vez que as encontrámos. Mantendo o seu núcleo minimalista, surgem agora mais cheias, mais dramáticas e vívidas, notando-se um certo cuidado em desenvolver a componente paisagística que mais tarde acolheria o cerne da canção. As batidas minimais soavam agora como colossais tremores oníricos cuja simplicidade só fez pelo cariz cerimonial que ganharam ao se libertarem pelo teatro. Por detrás, complexas chuvas de notas continuavam a desenvolver aventuras pela electrónica contemporânea e pela música ambiente.

Surma tem feito jus ao leito de sucesso e acolhimento que tem recebido ao retribuir com uma progressiva solidez enquanto artista ao vivo. A sua persona cativante era ela própria parte integrante da música, com o seu próprio corpo a marcar o tempo e o ritmo das expressões ondulantes que ia criando. Confiante e aguerrida, tomou conta do palco e das suas canções com um rigor e perícia de forte nível, não só na sensibilidade artística como nas próprias possibilidades técnicas. Isto foi principalmente evidente na recta final do concerto quando trocou o baixo pela guitarra para debitar poderosíssimas e cheias linhas de baixo, mais musculadas e ritmadas do que nunca e abraçadas por uma radical distorção a elevar o nível de altitude acima das suas açucaradas nuvens do costume. Muito se podia continuar a dizer, mas a verdade é que a reunião perfeita de circunstâncias e lugar, combinado com o crescimento inegável e absolutamente frutífero de uma jovem artista fresca e cativante, proporcionaram um dos concertos de maior escala do festival até agora, e sentir Surma a agarrar o portentoso anfiteatro de forma tão abrasivamente positiva e poderosa, foi um dos mais saborosos e recompensantes momentos deste fim-de-semana.