Iniciou-se Setembro e com ele, logo no primeiro dia, veio mais uma edição do ZigurFest. A 6ª edição do jovem festival sediado em Lamego regressou aumentada, fruto do seu gradual progresso. Com mais um dia de duração e três novos palcos a serem estreados, a versão de 2016 baptizou a agradável novidade de trazer uma jornada inaugural mais descentralizada da costumeira zona de operações conhecida como a Rua da Olaria onde, ao lado, descansa o belo Teatro Ribeiro Conceição. Assim, entre a avenida principal, em cima do acontecimento das Festas da Nossa Senhora dos Remédios, a Alameda do Castelo e o coreto do Jardim da Câmara, um dia cheio de exploração, convivência e forte intercâmbio foi ocorrendo com banda sonora de luxo.

No início da tarde, apesar de um eventual jovem ou outro em dedicada azáfama organizacional permitir a desconfiança de que algo se estará a preparar para breve, Lamego soa como qualquer outra pacata cidade em fim de Verão. Soalheira, desperta, colorida e tranquila, não se diria que um festival de música moderna estaria para a acontecer, mas na verdade tudo isso faz parte do charme. O ZigurFest ergue-se em beleza discreta e harmónica relação com a própria vida da cidade, não numa perspectiva de diluição, mas de verdadeira simbiose. A juventude, apoiada pelo resto da comunidade activa as engrenagens do evento que vive de roda da cidade, faz com que a experiência passe precisamente por Lamego, sem qualquer tipo de esforço ou auto-consciência.

Uma tarde a contemplar…

É neste sentido que vamos encontrar, ainda sob boas temperaturas, as primeiras paisagens musicais a serem esculpidas mesmo no centro dessa mesma avenida principal, junto à estátua do Soldado Desconhecido. O Homem em Catarse e o Rapaz Improvisado preconizaram precisamente a representação da imagem descrita no parágrafo anterior: música transportadora, dona e criadora dos seus próprios mundos e locais, mas que igualmente vem encontrar uma casa em Lamego, ilustrando exoticamente o quotidiano da cidade que bebe do Douro. O Homem, através da sua música introspectiva e ilustrativa, puxa para as paisagens férteis de um Minho íngreme e indomado que não deixam de ser vizinhas ao local onde agora se encontra e que com ele vivem através das guitarras expansivas e ondulantes, cobertas sob o manto do eco e da reverberação calma e plácida.

Entretanto, o Rapaz Improvisado vai dando música aos arranjos de flores ao seu lado e aos arcos luminosos (ainda apagados) que desenham os padrões que no céu agoiram festa. A guitarra, ora de sabor mais western, ora mais jovial e de vanguarda, oscila entre as sensações mais cândidas (ajudadas, a certo ponto, pela textura límpida do metalofone) e as mais marotas e carregadas, encontrando a atmosfera cinematográfica e suscitando as emoções que a arte é tão hábil em emprestar. De um ponto com sombra, possível foi encontrar e saborear estes dois projectos, maduros e serenos, a despontar a um fim da tarde que se aproximava ali perto e mais ao alto. Uma breve pausa que permitiu ficar a conhecer outros pontos de referência da catita zona e admirar desde a zona baixa o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios. Ainda não deu para ir subir o escadório, mas a acção não deixou de se concentrar em altitude, quer física, quer nas frequências mais astronautas que iriam balançar a seguir.

Sobe-se para cima…

Atravessando a parte “antiga” da cidade, aquela salva em si, a subida para o Castelo, damos com citizen:kane, aquele conhecido como Marco Guerra, músico e produtor aqui dedicado à criação de ambientes musicais sintéticos directamente polares à paisagem medieval que o recebia. Desde os meios mais industriais e frios até a um techno de introspecção, a música de Guerra vibrou e descansou no ar sob uma vista aérea magistral da serra e da cidade que ao lado dela descansava. Ornando a Alameda, juventude, e não só, sentou-se em natureza de contemplação e reunião. Copos na mão e sacos de batata frita a passarem de fila em fila ao longo das bancadas de pedra, trouxeram um conceito de piquenique sonoro à medida que o calor se substituía por brisa e a temperatura se trancava num limbo perfeito de calor e frescura.

Estava assente o arraial e não tardou para que citizen:kane brevemente obtivesse o privilégio da companhia, com a jam session Desterronics a dar início e a preencher os restantes postos, outrora vazios, de uma mesa paradisíaca para os fanáticos analógicos e amantes de knobs. Um grupo de amigos, um pequeno diálogo, ora verbal ora de sorrisos, e um lento arranque de mais uma sessão livre e improvisada que desta vez trocou a pequena cave do Desterro pelo ar livre ajudado pela altitude. Os suaves pads preenchiam o ar de som nebuloso à medida que uma melodia espreguiçava um certo amanhecer numa altura que a vida realmente esboçava o anoitecer. Nisto, um galo encharcado em delay confirma a nossa impressão. Foi assim que se iniciou uma viagem sonora e imagética simpática para a imaginação. A certo ponto, um rebanho de ovelhas fez-se ouvir, ou se calhar foi só o que pareceu. Aqui tudo tem a ver com a textura e os trilhos que aquela hivemind ali concentrada ia esculpindo para cada um de nós.

Desde a cumplicidade e o entusiasmo visíveis e representados por um sorriso mútuo destes artesãos aquando a descoberta de um beat incrível que potenciara a jam até à acidez das brincadeiras trance e jungle que iam surgindo e convidando algumas pessoas a levantarem-se, a Desterronics é um projecto de música pura enquanto sensação e descoberta, não precisando de um objectivo claro para cumprir a sua missão de transportação, seja num fechar de olhos despreocupado ou num ouvido mais atento à espera de perceber a próxima nuance. Alongando-se até à hora de se jantar, a jam termina quando terminar, isenta de grande rigor de horários excepto os da barriga. A seguir, uma nova descida prometia-nos mais música.

Torto mas leviatânico…

É agora sob uma paisagem muito familiar a qualquer noite de Verão que a música continua. O Jardim da Câmara, apetrechado com o seu coreto que breve receberia uma dose dupla de rock instrumental cada um puxar quer para um lado mais dançarino quer para outro mais pesado e até literário, encontrava nos seu bancos e relvado famílias e crianças na cavaqueira e na brincadeira para mais um serão de férias de ar limpo e calor descontraído. A banca de gelados convidava a tentação inocente e breve, os também nortenhos Leviatã subiriam ao palco para descarregar as primeiras notas. Como um duo, funcionaram como uma cooperação entre a portentosa groovebox e uma ágil e serpentina guitarra a lembrar o titular bicho mitológico. Deles sai uma combinação jovial e anímica de post-rock com a linguagem da música de dança: colossais beats ora mais reais e altivos, ora mais porcos, caíam secos e ecoantes para cima da plateia à medida que o excelente trabalho de sampling ia estendendo uma confortável manta para a guitarra solar e criar melodias brincalhonas e confiantes.

De entre misturas notáveis como a velha máxima da batida drum n’ bass a encontrar as guitarras etéreas e friccionadas, saiu um espectáculo de rock bem temperado, saltitão e sempre com os olhos postos no movimento dos corpos e no groove mais quente. De resto, boas indicações de significante curiosidade para um Leviatã que começa agora a pôr a cabeça de fora. O mesmo já não se aplica aos Torto, puramente no aspecto da aparição, uma vez que são uma figura bem estabelecida neste panorama. Agarrando o palco com postura e experiência, marcharam lentamente em direcção às tão suas composições pesadas, pensadas e profundamente condutoras. O seu início lembra um gigante dinossauro a erguer as suas patas e a perfurar o chão com as pisadas, começando a sua jornada lenta e paciente para o próximo oásis. É assim a música deste trio: uma viagem que reserva em si sempre a poesia do movimento e da escala larga da viagem.

O som grave e maduro a sair dos hipnotizantes tons do baixo e da acutilante precisão da bateria dão uma qualidade extremamente concreta e tangível à sua música, à qual a guitarra confere uma propriedade selvagem e mais dispersa, agoirando o perigo. Com um post-rock extremamente maduro e absorvente, os Torto ganham na sua capacidade de fazer música complexa e intrincada que não vive dos altos e baixos da montanha russa emocional normalmente encontrada neste género. Em palco, isso traduz-se numa experiência musical gratificante e à flor da pele, onde o ouvinte é convidado a sentir todas as componentes, desde o baixo que se levanta e se deixa cair na sua colossal força motriz, até aos pratos que oscilam pesados e cheios como uma chuva metálica a aconchegar uma guitarra que uiva e grita mais do que canta ao longo dos complexos movimentos que dividem e unem os seus longos temas.

Terminada a aventura no coreto, o resto fica reservado para o dia seguinte já com o Teatro Ribeiro Conceição inserido no roteiro. Joana Guerra, Luís Severo e bandas como Alförjs e O Galo Cant’Às Duas, bem como a exposição curada por João Pedro Fonseca entitulada Zona (onde vários jovens artísticas plásticos exibirão as suas criações dentro do Teatro), constituirão a programa do dia 2. Entretanto, a música acabou, mas o mood permanece intacto à medida que artistas, organizadores, habitantes e visitantes se espalham pela cidade a recolher os frutos de uma estreia bem regada. É sob a égide da vida nocturna da Rua da Olaria que se reflecte e se pensa já o dia que virá.

Zigurfest 2016

Zigurfest 2016