Trust - Joyland
90%Overall Score

Já passaram alguns anos desde a rebeldia dos meus anos 80, desde que tive vontade de colocar o eyeliner preto e uns vestidos vanguarda. Mas bastou ouvir os primeiros beats de “Joyland”, nome também do novo álbum de Trust, para fazer o meu revival de adolescente. Flashback de memórias… a mais nítida de todas? A primeira saída à noite aos 18 anos. Um incrível mundo novo (o meu mundo) condensado num espaço simples onde apenas apareciam aqueles que procuravam sons alternativos, aquelas músicas que hoje são a grande maioria das influências das novas bandas e das novas vertentes sonoras. Trust é o regresso às origens, mas de forma tão brilhante que qualquer um dos que jurou nunca ouvir música electrónica, vai morder a língua!

A banda canadiana composta hoje apenas por Robert Alfons, poderia ser alvo de comparações a bandas como os Crystal Castles, mas Trust tem uma composição muito mais refinada. Após a saída da sua companheira de banda, Maya Postepski, Robert dedicou-se a criar este novo trabalho baseado no conjunto de ideias e gostos adquiridos na sua infância e adolescência. Um mundo de batidas e ambientes baseados na década de 80, onde as músicas de videojogos, livros de Anne Carson e a sua influência musical através de nomes como Kate Bush ou Cocteau Twins, bem como as sonoridades do acid house ou os primórdios do techno, são a alma de Joyland. Sim, é possível juntar tudo isto e fazer boa música! Trust leva-nos às pistas de dança de um qualquer armazém abandonado em Berlim onde acontecem as melhores festas de música electrónica da Europa. Apetece dançar. Há alegria e sensibilidade muito além da frieza do techno ou do industrial. Por vezes, quase se parece escutar um Ian Curtis revitalizado num mundo de fantasia de videojogos enquanto dançava ao som de “For Gut”.

Continuando à descoberta, as faixas “Lost Souls/Eelings”, “Joyland” e “Rescue, Mister” ganham destaque como bons exemplos disso, apesar da voz profunda de Alfons ser ela própria a linha condutora de um estado de quase hipnose dançante um tanto ou quanto obscura. “Barely” é aquela música melancólica, quase darkwave, cheia de intensidade e possivelmente o melhor trabalho em termos de composição por parte de Alfons, mesmo em relação aos trabalhos anteriores editados. Sabe-nos bem este Joyland! É um regresso em grande e um álbum que tem tudo para ser de culto.