Turtle - Colours
75%Overall Score

O género electrónica tem sido, nas últimas 5 décadas, um dos âmbitos musicais mais Livres – com L maiúsculo, por tão maiúscula que tem sido a crescente liberdade Produtiva – da música pop, muito graças à evolução tecnológica. Um criador musical do Presente, mesmo sem tocar instrumentos, pode realizar (tornar real) quase qualquer som e ritmo que a sua Criatividade componha, o que tem resultado em dezenas de rótulos electro para a música produzida nesse modo; e pode também ser uma banda, acrescentando liberdade criativa à liberdade produtiva.

Turtle (pseudónimo do britânico Jon Cooper) tem tranquilamente sido uma banda (da qual é vocalista e letrista), mais que um misturador de sons ou mero produtor de beats. E que banda! O novo EP Colours, lançado neste Maio com cinco faixas aparentemente não relacionadas, confirma e transcende as qualidades demonstradas no anterior Who Knows, pela maturidade artística sensível ao longo da audição e prometida pelos primeiros versos do EP:

Take it easy now.
Don’t lose your head.
Don’t lose your heart.

O início de Colours faz-se com “The Floor”, uma composição com tranquilos compassos de lucidez, nos quais Turtle apela ao self control e afirma a ubiquidade e/ou a omnipotência – ­you’re limitless – sobre suaves percussões e guitarras­ que são alternados com enérgicos compassos de transe, literalmente bombados e encorpados por baixos muito amplificados, enquanto a rápida cadência de agudos metalofones desafia o cérebro a se transcender para o clímax final da canção. E aquele clímax transcendente é os dois últimos minutos, já com sintetizadores na massa sonora em acelerada viagem, (d)escrita como find your way back home com direito a suave aterragem nos segundos finais.

“Silent Weapons”, segunda canção do EP, parece ser uma reflexão sobre conformismo e amadurecimento que tem como verso exemplar “Iggy Pop now wears the t­shirt”. Está sustentada por uma frase de guitarra que se ouve durante todo o tema, primero isolada, depois contra outras frases de guitarra (mais elaboradas), a seguir já com um ritmo minimal de bombos e, finalmente, também com uma cadência de duas notas de piano num animado(r) crescendo de intensidade que acaba fazendo bater o pé até ao curto final sem percussão.

“Lavender” é um quase instrumental (a letra é um único verso), cujo conceito é similar ao de “Silent Weapons”. Após a abertura ao som de um órgão de igreja, entra um compasso de bateria que evoca um saltitar aleatório num prado em soalheira manhã de Primavera envolvido naqueles acordes do órgão, aos quais foram sucessivamente adicionados bucólicos arranjos de violinos e uma suave brisa de baixo. Numa palavra: libertadora.

A faixa com o título do EP, “Colours”, é um instrumental rock, coerentemente baseado em guitarras, que evoca algumas composições de outro escocês, Mike Oldfield. Canção enérgica após o primeiro minuto, não estará deslocada nos auscultadores de um ciclista de BTT explorando trilhos onde nenhum carro circula – excepto os de bois, puxados por bichos com mais algumas cores para enriquecer o cenário. Sendo o quarto de cinco temas, acaba por ser o clímax de uma viagem cuja aparente ida se distancia de um saturante quotidiano urbano.

No final de Colours, enquanto ecos da voz de Cooper sopram a tranquila melodia de “Us”, sente-se o regressar à normalidade. De alguém revigorado, por reflexões primaveris de um optimista racional.

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