As guitarras pesadas começam por pressagiar a humanização do medo, da solidão, da deprimência que se instala nos ossos até chegar à carne e agarrar-se intrinsecamente aos pulmões. Depois, espera-se que Tyler nos volte a dar a respiração e que nos salve deste vírus ao qual chamamos rotina. Das tais guitarras pesadas que criam uma paisagem carregada de sofrimento, às guitarras com um perfume de post-rock nas quais entramos num monólogo com o nosso próprio ser, o trabalho de Tyler Daniel Bean é incrivelmente poético e capaz de salvar almas perdidas que se refugiam no abrigo da solitude.

On Days Soon To Pass é o mais recente álbum de Tyler e foi lançado pela Tor Johnson Records no dia 18 de Novembro. Um disco construído à volta da batalha que tem em mira o suicídio e as causas que lhe antecedem, matéria que nos é apresentada de forma imediata no primeiro tema “Archibald Street”:

It’s a nice night to die,
We both held our eyes in the dimness,
Latticing our frozen bottles,
And frozen dreams.

Os temas que compõem o álbum focam-se, principalmente, na premissa que a arte e o medo se alimentam reciprocamente. Assim, temas como a desolação, o medo, a morte, conectados que estão por um fio de depressão que nos liga ao mundo. Em “Willow I” e “Willow II” – nome do cão de Bean que vive apenas na memória –, a imagem é a de quem perde mais uma razão para viver mas que, antiteticamente, desenha um novo mundo dentro de todo o bulício existente:

There is a life
Outside my body
Calling for me.
– “Willow II”

No entanto, dentro de toda esta atmosfera de escuridão terrivelmente fria, encontramos também a procura de um lugar – numa economia de esqueletos –, onde seja possível amar. Como, então, construir uma nova ligação entre o corpo e o mundo? Escutar a batalha que ao longo do álbum vamos ouvindo, é ver a morte a dizer adeus a uma cidade mas sem, ainda assim, saber o que é a morte. Reconhecer a fragilidade humana como forma de encontrar amor: é esta a batalha de Bean e as espadas estão dirigidas a todos nós. É uma luta constante que se encontra no peso do mundo.

Allen Ginsberg poeta americano que pertenceu à geração beat -, disse-nos que “the weight of the world is love” num poema chamado Song, e este peso dramatiza-se e torna-se humano quando perdemos o sangue de quem nos construiu uma casa no meio das ruínas. Falamos assim de Willow, o cão de Bean e do seu amigo Chris Parmelee que era, também, membro integrante da banda que o acompanha. Chris Parmelee e Willow já partiram, mas as suas presenças ficaram marcadas numa narrativa musical onde Bean parece ir ao encontro de ambos, abrindo uma janela com o desejo de saltar para o sítio onde eles descansam em paz quando no tema homónimo “On Days Soon To Pass” canta:

Lu and Willow rest buried in the yard
And we’re still here.
But it’s nights like these,
When I’m not right in the head,
When I’m wishing I were dead
That I think:
How can I expect you
To see things the way I do
If I’m counting on you
To pull me through?

Agora, com as espadas afiadas e espetadas junto ao coração, as letras de Bean não são meras palavras; resultam, antes, de poemas que escreveu durante um longo processo criativo onde os seus medos o deixaram levar ao fim como a morte a chegar num sonho melancólico. São palavras orgânicas, seres-vivos que respiram dentro daquele jardim coberto de neve na parte de trás da alma e onde nos sentamos num banco a observar a dor a atravessar a ponte para devastar mais um corpo que, no meio da insónia, tem a luz acesa. E, é desta maneira, chegamos ao último tema do álbum “All At Once” que, dentro do seu tom pacífico, nos recorda as últimas palavras de Bukowski no seu poema The Shower: When you take it away, do it slowly and easily, make it as if I were dying in my sleep instead of in my life, amen. A música navega num universo embriagado, conduzindo-nos a um sujeito desolado e com imagens suicidas a percorrer pelas veias bombeadas de álcool. É esta a película que nasce deste universo no qual existe um anjo que salva os demónios do corpo de cometer suicídio:

But you didn’t; you chose,
To carry me home.
To thaw me in your arms.
You are everything, all at once,
And I’m ready.

Esse anjo percorre, através da melodia criada e através de um dedilhado mórbido conjugado com um violino que faz renascer o espírito, todo o universo extremamente sufocante construído pelas palavras e instrumentos mas que, no entanto, estará sempre pronto a nos salvar esse “you” e subentendido ao longo da narrativa do álbum.

Compreender On Days Soon To Pass é percorrer uma longa estrada sob o luar e abraçar a luz que vem dos pequenos espaços ainda por preencher. É, também, um hino para todos os freaks que se encontram presos num puzzle de constante depressão. Essa moeda principal de toda esta economia de esqueletos na qual nos deixam os ossos e um cemitério por pagar.

Tyler Daniel Bean - 'On Days Soon To Pass' cover

Tyler Daniel Bean – ‘On Days Soon To Pass’ cover