É costume dizer-se que bom filho a casa torna. Na verdade, pode não ser o provérbio mais apropriado: nem Pernadas é bracarense, nem o gnration – onde se estreou a actuar -, será uma referência para o músico. No entanto, há cerca de um ano, ocupou o palco do Theatro Circo, no Festival Para Gente Sentada, que decorreu em Braga, para proporcionar um dos concertos mais surpreendentes da noite. Com a sua trupe de sete músicos em palco, o mote foi How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge, o primeiro disco em nome próprio, de uma sonoridade eclética, bem preenchida, mas extremamente acessível.

Pois bem: um ano volvido, Braga foi novamente anfitriã da sua música. Desta vez, precisamente no gnration, o músico propôs Those Who Throw Objects At The Crocodiles Will Be Asked To Retrieve Them, um dos dois discos que lançou no passado dia 23 de Setembro. A expectativa poderia medir-se pela afluência ao concerto: à hora marcada, a Blackbox estava muito bem preenchida e o seu palco, habituado a não mais que três ou quatro músicos de uma assentada só, pareceu multiplicar-se (uma ilusão, apenas) para albergar toda a parafernália; uma bateria, dois saxofones, uma flauta e trompete, guitarras várias, sintetizador, e baixo eléctrico. Para os manejar, um ensemble de dez músicos, incluindo o próprio Pernadas, encarregue da guitarra e, simultaneamente, o nosso mestre-de-cerimónias.

Durante o concerto, a banda seria fiel ao alinhamento do disco – por isso, começámos a jornada com Spaceway 70, a primeira de muitas referências ao imaginário espacial. As músicas, já originalmente longas, são susceptíveis à improvisação, momentos chave do concerto onde a energia oscila, cresce, abranda, mas nunca regride a um ponto morto. Entretanto, as vozes de Francisca Cortesão, Margarida Campelo, e Afonso Cabral juntaram personalidade à música levemente tingida pelo jazz. Este, notamo-lo primeiro na presença dos sopros e no espaço que lhes é dado, no uso de métricas pouco usuais na música pop (os chamados compassos), mas também no cuidado com o arranjo das músicas e a vontade, sempre presente, de produzir música “interessante”.

Ainda assim, o público respondia sem considerar as chatas questões de composição. Depois da avalanche rítmica de “Problem Number 6”, viajámos para “Valley In the Ocean” a soar como uma balada de outros tempos como se tivesse sido composta na plácida contemplação intergaláctica, o seu sintetizador meloso como orientador da viagem. Quando, através dele, Margarida modula a sua voz para um belíssimo efeito, todos agradecem a si próprios a decisão de ali estar, presentes na constatação de que a música é uma grandiosa arte e fantástico veículo de emoções. Ciente do singular momento, Bruno Pernadas toma os interregnos para apresentar o disco, a banda, e o nome de cada canção. Aproveitou e agradeceu ao técnico de som e a Luís Fernandes, director do gnration, pela – perguntámos entretanto a razão – aposta num grupo tão numeroso.

No palco, o grupo reunido por Bruno Pernadas é exímio; mais do que interpretar as canções, esta reunião tomou contornos de “festa”, um encontro entre amigos sob o pretexto de dar vida a este disco. Se, ao ouvi-los em casa, nos arrebatamos com a imensa variedade da música, o intangível sentimento de maravilha – como se fôssemos crianças outra vez a descobrir sons e melodias -, em concerto podemos, além de a ouvir, constatar o crescimento das canções, ou a sua materialização. Evidentemente, a escola na composição que o jazz proporcionou, mais o facto de serem todos músicos competentes, faz com que tudo, esta espécie de química entre todos os intérpretes – a comunhão musical -, pareça extraordinariamente fácil. E a sua diversidade é imensa: quando, em “Galaxy”, passámos pela marcha dos sopros e as vozes, em coro, hipnóticas, tudo um bom revivalismo de uma época musical passada, custa crer que é o mesmo grupo a puxar a brasa ao rock em “Ya Ya Breathe” com uma intensidade pulsante que suplantaria muitos aspirantes a shoegazers. Isto não é jazz, nem pop: é um statement de devoção à música, mais uma vez, como arte.

No final, interrompidos na saída do palco, a banda foi entusiasticamente convencida a um encore – “esta é mesmo a última”, disse Pernadas -, e recuperaram “Première”, do primeiro trabalho; já nós,  inebriados pela música do grupo, assegurámos algo que já era uma certeza: no nosso Portugal, poucas bandas (neste caso particular, reunidos à volta da obra do compositor) proporcionam um espectáculo como este: diverso, rico, dançável, estimulante. Tudo resulta, e mais engrandecido sai um disco que é, por si só, excelente à partida. Nos próximos dias, seguem-se alguns concertos, dos quais o mais mediático será a presença no Vodafone Mexefest; ainda assim, não tantos quanto merece este projecto. Manifeste-se a vontade de os ter por perto, e eles virão. Braga, mais uma vez, recebeu um dos concertos do ano na companhia de Bruno Pernadas. A casa está encontrada e os laços afectivos criados; o músico já é, definitivamente, um de nós.

+ Bruno Pernadas

Bruno Pernadas apresenta disco no gnration