Se na semana passada o Musicbox recebeu os respeitosos norte-americanos Woods, esta quinta-feira provou-se que Portugal é um ótimo sítio para se ouvir música, e também para se fazê-la. Este foi um concerto absolutamente mágico, que pode bem ter marcado a entrada dos Ganso para a lista de concertos do ano, até agora. A rapaziada lançou Pá Pá Pá, o seu estreante álbum há umas semanas e achou por bem vir apresentá-lo à sempre-acolhedora sala lisboeta. Provou-se também que o público português é de se louvar, fazendo questão de encher e preencher a noite de möshs, crowdsurfing, subidas ao palco (sim) e mergulhos.

Os 40 minutos de atraso são logo esquecidos quando nos é projetado um excerto de Who Framed Roger Rabbit, filme de 1988 passado nos anos 40. Dá-se entrada às estrelas, que mais parecem The Beatles versão japonesa 2.0, todos vestidos com quimonos – um possível tributo aos Kikagaku Moyo. O grupo surpreende-nos também com a participação de 3 novos membros, ocupando um clarinete, uma segunda bateria, e as congas. Quão psicadélica esta entrada?

Assim que a banda arranca, percebemos que esta seria uma noite monumental. O repertório dos Ganso pode criar ansiedades quando ouvido em casa, mas funciona lindamente ao vivo. O Musicbox tornou-se numa autêntica arena de combate assim que as congas começam a ressoar, junto de descargas de eletricidade vindas dos teclados e guitarras, em “Brad Pintas”. E se o público ainda não tinha tido tempo para decorar as líricas do novo patinho, o grupo saca da menina “Idalina”, e é ver-se a letra na ponta da língua. Um dos selos dos Ganso é as precisas e melódicas transições de ritmo e energia, que ao vivo parecem ganhar vida própria ao trepar pelas paredes e mergulhar nos ouvidos. E vai mais um crowdsurfing.

O companheirismo e amizade sente-se em cima daquele palco e na felicidade de se estar a tocar a música que se gosta para uma casa inundada de sorrisos e de ouvidos bem abertos. Se até aqui já transpirávamos adrenalina, “Quando a Maldita” se solta, o animal indomável liberta-se, com möshs dignos de festival alicerçados num solo brilhante de clarinete arrancado da psicadelia dos 60’s.

O semblante branco de Sala, que toca apenas com uma mão, dá provas que um frontman não tem que ser atlético nem ágil para cativar os dominados. A seriedade irónica assenta-lhe que nem uma luva. Porque, afinal de contas, este foi um espetáculo marcado pelo deboche, tanto cinematográfico, como musical e lírico. “Gostaram? Nós gostamos muito de desenhos animados e de seres humanos, portanto…”, referindo-se à surpresa inicial da mistura da Disney com Looney Tunes e humanos.

E porque o amor é feito a partir da complementaridade, foi em “Salamandra” que as guitarras de Ricciardi e Barreira se casaram, numa terra onde o divórcio não existe e onde as harmónicas, teclados e bichos de 6 cordas são terapias tântricas para todos os males e pecados milenares. Somos afogados numa explosão psicadélica que acaba com todos a baterem desnorteadamente nos seus instrumentos. E vai mais um crowd.

Se falamos em transições melódicas e rítmicas, é impossível não referir a arquitetura quarternária incrivelmente bem planeada de “Lá Maluco”. Quase obrigados a tocar esse single, os Ganso  demonstram que sabem bem o que fazem, com as passagens e crescendos ora lentos, ora cativantes, com a voz de Sala que parece andar sempre com 5 maços de tabaco e 2 garrafas de whiskey atrás.

No entanto, o melhor momento da noite está ainda por vir, assim como a melhor canção. É de arrepiar quando se percebe a lírica de “O Que Há Por Cá”, um choro puramente poético do tédio existencial conformado com um amor, ou consigo próprio. Para além da escrita, Sala entranha estas palavras tão bem na sua voz, com uma melodia bela e petrificante, de trazer a lágrima ao canto do olho.

Deves achar estranho o meu empenho
Em alimentar.
Agora que te entranho, já acho que tenho
De te desligar.

Sei que aqui há diferença e não pertence
Ao que vou lembrar
Posto isto eu aposto
Embora não goste
Vens p’ra ficar.

Em dimensão de despedida, os möshs multiplicam-se e as subidas ao palco e mergulhos idem aspas. Com a abertura do riff de baixo de “Take a Walk On the Wild Side” de Reed, passa-se diretamente para psicadélica “Pistoleira” e acaba assim um concerto, no mínimo memorável, que serviu para mostrar o excelente caminho que a música portuguesa está a tomar. Para fechar o espetáculo, Eddie Valiant, Mickey, Bugs Bunny entre outros, invadem a tela e dizem-nos um adeus. Ou um até já.

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