Chegados ao último dia do festival courense, deparamo-nos com uma bomba calórica para qualquer amante de música com a poesia ora amarga, ora doce do nortenho Manel Cruz, no palco principal. Com a sua poesia tão característica e introspetiva, Manel Cruz deu a alegria a centenas de fãs de voltar a ver o seu rosto e ouvir a sua voz, que tem permanecido na penumbra nestes últimos anos para tristeza de muitos. Enquanto isso, o palco secundário é também lusitano, já que se apresenta com cores mais românticas e ingénuas do cancioneiro português a bordo dos Toulouse e, para dar continuidade à fornada portuguesa segue-se João Vieira sob o seu pseudónimo White Haus com o qual rega o anfiteatro natural de Coura com a sua sonoridade eletrónico-dançável. Foram estes os nomes que antecederam os glamourosos Foxygen, sempre imprevisíveis e surpreendentes, que celebraram em grande a sua própria existência numa comemoração difícil de engolir para uma parte do público com o seu sarcasmo hollywoodesco mergulhado em maquilhagem e purpurinas – repetindo a história do NOS Primavera Sound, em 2015.

Era com entusiasmo e ansiedade que se via o discreto multi-instrumentista e produtor Jonathan Rado orquestrando a montagem do set para o concerto, aumentando assim a vontade de ver o seu companheiro de dupla musical, Sam France, brilhar pelo estrado fora. Com todos os instrumentos e membros apostos (exceto a vedeta e a back vocalist), ouvimos soar a orquestra de 3 elementos numa harmonia abafada e sinistra, vinda de dentro do tubarão de Jaws para logo depois se dar uma primeira e rápida transição melódica. Acabadinhos de sair de uma daquelas festas em casa de Warhol, em que todas as personalidades dos 70’s se agregam e copulam, surgem Sam e a sua companheira vocal Jackie Cohen para dar início a uma demonstração de como se ser uma verdadeira rock n’roll star. Numa conjunção instrumental completamente caótica e com um arranjo ainda mais subversivo e desnorteado que a faixa original, a banda enrola-nos numa espiral desconcertante com a voz de France balbuciando “We are the twenty first century embassadors of peace and magic!”

Com a ajuda da sua excentricidade e imprevisibilidade bem características, Sam foi catalisador de uma mixórdia de pensamentos e emoções que podem ter suscitado equívocos cognitivos nos festivaleiros em relação à sua qualidade performativa. A atitude por vezes displicente do vocalista é resultado de uma personagem criada por France, sendo que as suas tiradas obviamente sarcásticas de auto-bajulação soam a tudo menos a genuinidade. Mais que consciente da sua reputação e das comparações diárias e infinitas com os frontmen dos 70’s (principal e obviamente, o nosso amigo septuagenário Jagger), Sam enverga este cartoon hollywoodesco do qual não conseguimos tirar os olhos. Consciente também da banda excecional que tem às suas costas, France negligencia a versatilidade brilhante da sua voz para assumir o papel de entertainer, comprometendo assim a sua performance vocal com tudo de positivo e negativo que isso tem.

É emanado o cheiro das flores dos jardins cinematográficos de Hollywood dos anos 30 (ou será de Avalon?) até Paredes de Coura. Num solo de saxofone absolutamente gracioso, o homem-saco-de-cocaína-ambulante, de calças sujas, chapéu e óculos em forma de coração recorre a uma dança tosca com a sua go go dancer, deixando o vento tomar conta das suas purpurinas faciais. Haverá mais rock n’roll que isto? Numa harmonia genuinamente semelhante a um confronto bélico entre instrumentos – impossível de não referir as semelhanças imagéticas com Silly Symphony Music Land (de 1935, da Looney Tunes) -, Sam e Jackie ausentam-se de palco por segundos para prontamente voltarem com novos vestuários e professarem as palavras ironicamente certeiras de “America”:

But you only play yourself when you’re in Hollywood!

Esta frase pode ser interpretada de diversas maneiras; contudo, descartando interpretações promíscuas, ela revela mais uma vez o sarcasmo tácito à banda californiana. Crescendo em Los Angeles, esta é uma banda que se alimenta do faz-de-conta, do showbiz, coisa que Sam France incorpora melhor do que ninguém.

Seguindo ipsis verbis o alinhamento do novo álbum Hang, chegamos a um dos momentos mais deliciosos do concerto, em jeito de agradecimento a S. Pedro pelo belo pôr-do-sol nortenho. Sem pausas para aplausos, a banda de Sam e Jonathan arranca numa cadeia de faixas que vai gradualmente crescendo em intensidade e majestosidade, demonstrando toda a premeditação na construção, tanto do álbum como da playlist do concerto. Se primeiramente nos despejam com a melancolia de quem teve de deixar a sua cara metade ou de quem a nunca a chegou a ter por um milímetro (“On Lankershim”), logo de seguida entramos num circo governado por anões e siameses, onde teremos o prazer de navegar na sua mini montanha russa (“Upon a Hill”). Numa escalada de minutos chegamos ao pontífice da teatralidade, onde adquirimos a forma de um edifício monumental e nos vemos a nós próprios, desde crianças, a habitar e envelhecer nele, apodrecendo em arrependimento e frustrações jamais irreversíveis. Num instrumental estrondoso, Jonathan afasta-se do piano e atormenta a sua guitarra que, naquele momento, seria capaz de portar o mundo inteiro nas suas cordas. Falamos, claro está, de “Trauma”.

Fechando o espetáculo como o abriram, Rado e a sua banda perderam a cabeça numa jam desenfreada e caótica, voltando às suas origens psicadélicas e garage rock. France volta ao palco para o seu encore, retornando às suas raízes de embaixador da paz e magia, sem que nada o destrua (“No Destruction”). Toda esta hora e pouco de espetáculo, carregada de pungência, melodramatismo e, por vezes, masturbações afirmativas, levou à inquietação daqueles que não lidam bem com a excentricidade. Porém, acreditamos que é sempre inteligente separar o artista da realidade pessoal do mesmo, sendo que este foi, no fim de contas, um cenário artístico fascinante.

Foxygen @ Vodafone Paredes de Coura 2017

Foxygen @ Vodafone Paredes de Coura 2017