O entusiasmo toma conta da nossa disposição em plena A1. Saídos de Lisboa a caminho do Cartaxo ouve-se Worship, o aclamado disco dos A Place To Bury Strangers, sem sombra para dúvidas considerado pelos amantes do género O DISCO do ano de 2012. Também é agradável perceber que a distância não é assim tão grande e cerca de 40 minutos de carro fazem-nos chegar ao destino. À porta do Centro Cultural do Cartaxo, o ajuntamento de pessoas pouco antes das 22h mostra que o público aderiu; a descentralização é um factor positivo, o preço cobrado pelas entradas também e reencontros entre amigos são uma constante. Tudo isto fora da grande, cara e divisora Lisboa. Parabéns à Cartaxo Sessions pela coragem e excelência dos cartazes que tem vindo a apresentar no mundo da música alternativa em Portugal.

A banda de Pedro Pestana e João Pimenta entra em palco pouco depois da hora marcada. Os 10.000 Russos brindam-nos com o seu rock progressivo tresloucado; a luz vermelha que os cobre condiz com os efeitos na guitarra, com a rapidez na bateria e com a voz intensa. Pena nem sempre serem perceptíveis as palavras cantadas. Trazem-nos novidades em relação à cassete editada há uns meses atrás e bonito foi também reconhecermos a homenagem a Lou Reed quando pelo meio do terceiro tema,”CSKA Putain”, ouvimos os acordes e o refrão de “Run, Run, Run” dos The Velvet Underground.

Os Bambara sobem ao palco com o auditório já quase todo ocupado e é com alguma perplexidade que os começamos a ouvir e vemos que uma boa parte do público continua sentada! Estivéssemos em Brooklyn e ao primeiro acorde tínhamos stage diving, certamente! Trio muito jovem com um som a roçar o punk com guitarras noise q.b., algumas arestas a precisar serem limadas, mas os rapazes da Georgia (US) vêm cheios de energia. Têm um daqueles sons de guitarra baixo que faz explodir sorrisos e levantar voo. Ao terceiro tema, “Nail Polish”, ficamos rendidos e é com alegria que começamos a ver alguns dos presentes a sair das cadeiras para dançar e apoiar a banda. Fica aquele sentimento de alguma tristeza, infelizmente tantas vezes visto em Portugal, sobre uma grande parte do público só mostrar agrado e dançar o som que conheceu antes. Gente: acordem para as novidades!

Antes do momento esperado, já a boca de cena conta com pessoas de pé que aguardam a subida ao palco dos A Place To Bury Strangers. Percebe-se bem que mais de metade dos presentes veio para os ver e ouvir. Máquinas de fumo são ligadas e ao som dos primeiros acordes é difícil distinguir Oliver, Dion ou mesmo Robi mais lá atrás. Strobs acompanham os ataques nas guitarras ritmicamente, braços levantados por entre o fumo querem tocar os músicos. Estamos dentro de um nevoeiro de som, mas todos queremos mostrar a devoção sentida. À chamada de “Missing You”, quem ainda estava sentado tenta aproximar-se, e a frente do palco está à pinha com uma muralha de adoradores. São momentos sublimes. Ficamos a pairar numa redoma de som denso, dança frenética, por vezes, ou um só movimento compassado da turba: há aqui muito de magia e comunhão. Desfilam temas de todos os álbuns editados. A certa altura, Oliver apaga um a um todos os holofotes em palco; ficamos mergulhados na escuridão, ouve-se a bateria e a guitarra baixo. Overdose de sensações, sentem-se mais guitarras e pouco a pouco percebemos que os elementos dos Bambara se juntaram à festa; cada um traz um foco de luz preso à cintura. É um final apoteótico com “Sunbeam” e “Ocean”, dois dos emblemáticos temas que datam de 2008, ainda no tempo dos EPs editados em nome próprio. Estes Senhores tornaram-se imensos desde então. Foi um prazer! O acender das luzes no auditório revela sorrisos de satisfação e cansaço bom por todos os rostos, músicos incluídos. Esta noite fez-se magia pelo Cartaxo.