Tiago Castro, a.k.a Acid Acid, começou esta odisseia de mil sons em 2014 e actuou já em festivais como o Reverence Valada ou Jardins Efémeros. Entre actuações ao vivo, Tiago foi gravando as suas criações em estúdio, em nome do álbum de estreia, lançado no mês de Junho. A obra, homónima, saiu pela editora Nariz Entupido e contou, para além de Tiago Castro na composição, guitarras eléctricas, guitarra acústica, órgãos e sintetizadores, com Baltazar Molina nas percussões e Tiago Raposinho nas guitarras eléctricas, baixo, órgãos, sintetizadores e percussões. O disco divide-se em duas partes, de 23:33 e 23:46 minutos, respectivamente.

Para arrancar em grande o ciclo de concertos grátis no Átrio do The Decadente Restaurante & Bar, que decorrerão de mês a mês, Acid Acid apresentou-se na sua montanha de gestos e instrumentos com a Azáfama – Produções Artísticas responsável pela programação. Foram cerca de 45 minutos de actuação em que fomos contra a gravidade, constantemente empurrados para outra dimensão e em que Acid Acid esculpiu formas e colcheias tão imensas que merecia bem mais que um átrio só; antes, um grande salão ou uma enorme varanda com vista para um céu estrelado, pisando degraus psicadélicos, ambientais e experimentais.

Entre ensaios que pareciam transportar-nos para o genérico de Star Wars ou Star Trek, o espaço e o tempo geravam-se etéreos, absolutamente espaciais e especiais. Em teclados alucinados, mas em coordenação de constelações e cordas electrizantes, Acid Acid tocou em crescendo, aumentando a sua expansão sonora e o seu alcance de melodias e ritmos estonteantes. Até a maraca foi pertinente para a composição – ou ainda o microfone -, que Tiago usou para germinar ainda mais ingredientes insólitos e ambiciosos, sempre com sucesso. A cabeça ia pendendo dos ombros de modo que era impossível permanecer quieto, em injecções de mil e muitos volts.

Numa trip de ácidos amigáveis, daqueles que se podem tomar em qualquer altura, atingimos alguma matéria-prima de sonhos. Com um dialecto muito próprio, e em estilo one-man band, os vários pedais ganhavam vida e permitiam-nos inúmeras atmosferas, do minimalismo ao tribal.

Pudemos recordar também o músico e compositor de ambient music Michael Sterns, embora com mais batida, e a banda-sonora de Baraka, documentário experimental de 1992, do realizador Ron Fricke, ou ainda uns retoques de Brian Eno ou Philip Glass. Uma aula de excelência sobre a imensidão do som e os seus atributos inerentes a um artista só, em pleno átrio.
Em situações com esta riqueza de sonoridade a voz é, de facto, absolutamente dispensável. Tiramos-te todos os chapéus, Acid Acid.