Aos 24 anos e 8 de carreira, Mallu Magalhães já é um dos grandes nomes da música brasileira do século XXI. Ao lado de Marcelo Camelo, o seu fiel companheiro, fazem a dupla mais amorosa da atmosfera musical, capaz de nos fazer acreditar no amor imutável. No auge do Verão, nesse tão distante Agosto, anunciou a sua tour “Saudade – Voz e violão”. Rendida a uma nostalgia inesgotável, pulsa de dentro do seu interior a vontade de retornar à sua segunda “casa” – os palcos -, e ver estampado no rosto de cada fã uma alegria inigualável. Desse feito Portugal, juntamente com o Brasil, foram os felizes contemplados com a sua presença. Depois de ter actuado no mês passado em Braga no Festival para Gente Sentada, Mallu percorre o mapa lusitano até chegar ao próximo destino: Aveiro.

Sábado à noite soprava uma brisa gélida que estremecia a temperatura amena do corpo, mas o coração mostrava-se quente, pronto para receber a cantora. Antes das 21:30, hora prevista para o começo do concerto, já se avistava uma enchente de fãs, a cantarolar as músicas do álbum Pitanga na esperança que o tempo passasse da forma mais descontraída e alegre possível. Momentos mais tarde, sala cheia. Arritmia. Ansiedade. Toda uma panóplia de sentimentos invadia-nos a alma. Queremos sonhar ao som dela. De certo seria isto que pensavam, em simultâneo, as centenas de pessoas presentes no Teatro Aveirense. Sentiu-se um arrepio por todo o corpo. É agora. As luzes apagaram-se, susteve-se a respiração por meros segundos, sentimos a alma a contornar este mundo onírico, e eis que se abre o pano que separa o comum mortal da etérea Mallu Magalhães.

Num ambiente intimista, podíamos avistar a personificação da divindade, de um vestido branco, sentada numa cadeira vintage e com apenas duas guitarras. Era ali que estava o anjo que dava voz às músicas mais doces oriundas do Brasil. Mallu arrumou a casa, abriu a porta e convidou-nos a entrar no seu mundo. Desse convite se fez o início do concerto com a “Casa Pronta”. Dotada de um sorriso magnético, rapidamente conquistou o público que se contorcia e suspirava ao ouvir os ritmos calorosos do novo tema, conjugados com a irresistível doçura e jovialidade a que já nos acostumou.

Devidamente acomodada na sua cadeirinha, Mallu cantou e encantou ao tocar harmoniosamente na sua guitarra músicas como “Ô, Anna”, “Sambinha Bom”, “Olha Só, Moreno” e “Cena”, do seu álbum Pitanga. Cada vez que finalizava uma música, palmas estonteantes ecoavam por todo o Teatro até abrir o seu sorriso cheio. Agradecia com a maior cordialidade e ternura o amor retribuído, incentivando ainda mais a louvação do público. Por entres vozes da plateia, eram pronunciadas frases peculiares e cheias de amor: “Mallu, você é linda”; “Você é um amor”. Elogios que coloriam as bochechas num tom rosado e num tímido obrigado. Do pouco diálogo que manteve com o público, devido à sua sorrateira timidez, proferiu adorar o país e a ternura peculiar do povo português.

Mallu Magalhães @ Teatro Aveirense

Mallu Magalhães @ Teatro Aveirense

Se pensam que a voz e os acordes da guitarra reproduziram somente músicas de Pitanga estão rigorosamente equivocados. Durante sensivelmente uma hora mágica de concerto, o público foi levado ao rubro com músicas da Banda do Mar, o que justificou o coro espontâneo em “Me Sinto Ótima” e “Mais Ninguém” ; e covers de artistas brasileiros conceituados como João Gilberto e Os Mutantes. Entre a menina adolescente, de carácter singelo e a artista que aborda músicas alheias, sentia-se nítida metamorfose. A voz doce continua empírica em cada música que reluz das cordas vocais, mas a intensidade com que interpreta renasce com tamanha maturidade para encantar e envolver quem ouve atentadamente cada versinho. Transborda a nostalgia por voltar aos palcos. A meio do concerto, Mallu faz uma viagem no tempo, abre o seu baú de canções e contempla cada um de nós com “Tchubaruba”, tema lançada à atmosfera musical quando tinha apenas 16 anos, e “Lost Appetite”, uma canção que retrata um amor perdido, apenas cantada em concertos e nunca antes editada.

Dois momentos marcantes a destacar do concerto: a doce Mallu deixa a sua cadeira de conforto e enfrenta o leão do público. A sua alma transluz uma carga emocional forte, onde canta em formato a cappella os versos de “Chega de Saudade” do mítico João Gilberto; e “Janta”, que vai ficar para sempre como o ápice mais emocionante e acolhedor que se pôde experienciar na sala do Teatro. Cada pedacinho da letra foi cantado com o sentimento a fluir à flor da pele. Impossível ficarmos indiferentes à narrativa musical que apela à fé contida numa relação que pode estar amaldiçoada pela incerteza do fado. Sente-se o apelo ao amor que transparece. O público canta, com os olhos não encondem o cintilar para a cara-metade que os acompanha.

Uma hora passada significava que o término estava próximo. O encore finalizou com a cover “Baby” d’Os Mutantes e “Muitos Chocolates” da Banda do Mar. Nota-se a tristeza nítida da plateia que implorava por mais e nem uma dose de chocolate a poderia cessar. As luzes apagaram-se, Mallu deixou o palco e um pedacinho dela em cada coração presente no Teatro Aveirense. Vamos ficar apaixonados pela sua essência hipnotizante até ao próximo concerto ou quiçá, para sempre.

Ela que vai, ela que vem..

As fotos pela lente de Marcelo Baptista.

Mallu Magalhães @ Teatro Aveirense