Homebound pode significar ‘estar confinado em casa, não fazendo nada de produtivo’ mas, atentando ao conteúdo do disco de estreia de Vaarwell parece que se fecharam em casa sim, mas para compor a arte dos temas que tecem a história do disco Homebound 456. Margarida Falcão, Ricardo Nagy e Luís Monteiro lançaram em 2015 Love and Forgiveness, o EP de estreia da banda e, empolgando com razão a crítica e os fãs, arregaçaram mangas e criaram os seus pódios, tanto em território nacional e estrangeiro, reflectindo um indie pop fresco e de alma plena. Neste sentido, o surgimento de um álbum cai bem e expressa, de novo, a crença de que a língua inglesa nunca destoa, sobretudo se for pensada por três portugueses com uma noção de melodia e musicalidade bastante preciosa.

O vídeo de “YOU”, o single de boas-vindas da obra lançado em Fevereiro,  lançou todos os dados para um álbum que se auspicia como um dos mais belos do ano inaugurado, assim, por uma das faixas essenciais para o reconhecimento do seu sentido. Encontra-se uma constante em todo o disco: a angelical voz de Margarida Falcão, que parece jamais esgotar-se, não dá tréguas a nenhuma experiência, seja ela qual for. Fazendo também parte das Golden Slumbers com a irmã Catarina, é na repetição, agridoce, da palavra ‘you’ que a memória de tudo encontra uma nova superfície onde se fixa para não mais sair. A sua voz é, sem surpresas, um dos instrumentos mais poderosos da banda, e não é só em “YOU” que habita com muita notoriedade, mas difícil é não reparar na riqueza instrumental e na sua destreza, também, referentes à arte de Ricardo e Luís.

Todo o disco parece conter, com perícia e sensibilidade, uma ambiência pousada algures entre as músicas de embalar, os domingos de chuva, as playlists que se escutam em viagens longas de carro e o tipo de canção que os clubes nocturnos apresentam em noites frias, com um apontamento electrónico bem medido entre os sons orgânicos dos instrumentos e da voz de Margarida. Imagine-se uma composição capaz de condensar, de forma muito suis generis, estes contextos aparentemente tão opostos. Na verdade, estas harmonias não seriam tão afiadas, nem alcançariam um patamar de nostalgia tão absoluta sem a presença, saliente, das letras, que existem sem permitir que se omita a carga das palavras, tantas vezes de um teor que fere, e muito, o coração.

Cada frase, quando se toma verdadeira atenção, permite um universo de dúvida, insegurança, receio, a par de tudo o que chega ou desaparece com o amor nos seus vários formatos, e que nunca traz livro de instruções ou pilhas suplentes. Cada frase reconhece uma existência viva, atenta em todas as direcções e realidades. E cada frase está lá, não por acaso, mas porque precisa mesmo de estar.

Neste belo tango entre instrumental e letra, Homebound 456 pertence a uma liga própria dos álbuns que actuam como livros de poesia e cadernos de emoções que englobam, se assim se pode assumir, alguma efervescência de uma geração ou de uma época, ou justamente da combinação dessas duas estruturas.
Partindo desta leitura, assiste-se a um claro processo de amadurecimento. Não só porque os Vaarwell crescem e com eles crescem as composições musicais, mas porque também permitem a exploração de outros temas e com outra profundidade, menos infantil, menos inocente, menos ingénua. Tudo isto sobrevive a par de uma invejável frescura, e ainda que pareça um paradoxo, não é. Esse contraste está presente com uma elegância muito rara, que não existe de forma pretensiosa ou superficial.

Vaarwell

A banda parece ter aberto as portas de um laboratório em que a operação a corpo aberto, visível para qualquer um, pende para uma transformação de melodias ímpares e sem fronteiras, com uma delicadeza que é idêntica tanto ao vivo como na versão de estúdio de cada tema. Essa operação não vai pelas regras convencionais, note-se; antes procura alternativas, embora, no fim, alcance o sucesso. E é esta uma das lições que Homebound 456 ensina: o de poder dizer as coisas como elas são, mas sem passar pelas fórmulas do costume, ou pelas ideias-feitas.

O primeiro tema do álbum, “Untitled” desenha-se com uma enorme susceptibilidade, e este mecanismo seguirá todos os passos de Homebound 456. Não é, portanto, indicado a quem não queira reflectir as emoções próprias, interiores, mesmo as mais escondidas e ignoradas. É preciso assumir-se que é um álbum que não deixa os ouvidos indiferentes e, dessa forma, tirar-lhe o maior proveito. Com “Floater” há maior agitação mas, de novo, notam-se bem as duas camadas presentes, a da letra e a da música, vivendo sob o mesmo tecto e permitindo saltos espaciais e temporais com muita elasticidade. A abrangência de sons em “123” é tão inebriante e formosa que parece inevitável recordar Feist, por exemplo, sobretudo se pensarmos nos remates em The Reminder, disco de 2007. Existem lances imprevisíveis no avançar do próprio tema, e há uma enorme capacidade de ir resgatar uma sonoridade mais rock sem perder a identidade ténue que sempre caracterizou o som dos Vaarwell.

Em Homebound 456 encontram-se vislumbres, tanto na forma como no conteúdo, que poderiam ser ligados aos Slowdive, aos The xx – em “Waiting Game”, por exemplo -, ou Warpaint, nas cordas de “Still Me”, mas em “American Dream”, por outro lado, não só pelo título da música, mas pelo seu recheio, pode recordar-se Lana del Rey, com as suas habituais premissas. Em “Still Me” e “Terminals”, escuta-se o que parece ser um time-lapse, com avanços, retrocessos e ruídos que, de facto, recordam locais de passagem, com o comboio a partir ou a chegar à estação, agindo como faixas que servem quase como introdução ao que lhes sucede ou ao que as separa, e recordando todos os não-lugares e não-momentos do quotidiano, as várias pessoas que se cruzam e não se olham, os vários pensamentos que assomam e logo desaparecem.

Em “Homebound 456” sentem-se nuances na melodia que, ao detalhe, relembram o ADN dos London Grammar. Embora podendo encontrar várias referências ou inspirações, que neste caso são só opiniões, a linha dos Vaarwell é a sua própria linha e as suas composições têm esse cunho dos três integrantes como um modelo que funciona muito bem e que lhes faz expressar, sem constrangimentos, os seus princípios e desejos.

“I Never Leave, I Never Go” tem uma força colossal e traz o lembrete de que o tempo não pára nem espera por ninguém, e “the streets are frozen and I don’t belong in the city, no I don’t belong in the city”, com a voz de Margarida a tomar rédeas próprias. “Sheets” inclui ainda um sample em que se ouve um diálogo entre homem e mulher, sendo este o tema mais longo – com quase 10 minutos -, encerrando, assim, este magnífico álbum, tão cristalino quanto as suas composições e quanto a abordagem ao vivo da banda, ao mesmo tempo actuando quase como uma rapsódia que informa os mais curiosos que este é um disco para guardar e cuidar bem como uma carta que se recebeu na infância mas que só agora, enquanto jovem adulto, se entendeu bem o que dizia.

Homebound 456 merece tocar lá em casa as vezes que forem precisas, e merece ser escutado até se tornar, pelo sabor dos tempos, um clássico no carro, no mp3, no quarto, na sala ou numa varanda com vista para o que se quiser.