O verão suplicou por um álbum para fins de tarde, para o copo na mão, para o samba, para um abraço, para um beijo. E Vem veio mesmo a 9 de junho deste ano na voz mais doce e calorosa possível que só Maria Luiza Magalhães – ou Mallu, como carinhosamente prefere que nós a conheçamos -, com o seu jeito suave consegue alcançar.

Falar de um amadurecimento por parte da cantora oriunda de São Paulo é muito mais do que dizer que Mallu Magalhães passou pelo peso temporal de experiências durante o curso natural da vida. Fala-se de um desenvolvimento emocional e instrumental que a eterna “velha e louca” faz desenrolar no seu quarto álbum de estúdio. Permitir este desfolhar de seus sentimentos, medos e ambições para todos ouvirem vai muito além da simples maturidade; é uma madureza de espírito e da confiança assente nas profundezas da sua alma e que revelam o ser humano em que se tornou.

Vem acabou por chegar mais cedo; veio com “Você Não Presta”, primeiro single lançado no início do mês e a faixa que abre esta carta emotiva e cheia de perspetivas sobre a vida que Mallu nos escreve. Para além de falar por si mesma e sublinhar a sua voz como quem “não tem segredo”, o início da música prepara-nos para um som mais quente e sambista, rico em instrumentais coloridos de passo rápido no pé e na anca e envolvente do seu Brasil. Mas o melhor de “Você Não Presta” está nos momentos finais de “quem sabe demais/Quem nunca chorou/Quem nunca perdeu tudo”, em que Mallu canta desenfreada, relembrando como o sentimento é bem melhor quando aliado à felicidade.

É raro conseguir ver alguém sorrir enquanto canta só com a audição, mas é precisamente isso que acontece em “Culpa Do Amor”. A segunda faixa tem um baixo, uma batida e uma guitarra que brilham isoladamente com a sedução e fascínio perfeitos e faz surgir a vulnerabilidade de Mallu, que aceita as discussões e os mal-entendidos como parte indissociável da equação e que o amor não se faz só doçura. Numa roupagem mais refinada, “Casa Pronta” é aqui apresentada de forma diferente de como Mallu a tocava em digressão por Portugal no ano passado; mais consonante com o resto do álbum, o tema aprofunda-se na emoção com instrumentos de cordas, transmitindo um conforto ainda maior na vida familiar . Já “Vai e Vem” marca o contraponto ao sentimento emanado da faixa anterior: uma relação de vai e vem, instável e periclitante, de quem sabe que “as coisas não esperam para acontecer” e por isso vive, aproveitando o que pode e como pode. E aquele “ah uh uh” é tão bom.

“Será Que Um Dia” e “Pelo Telefone” são alguns dos pontos altos do álbum. Curtas e complexas, são odes às hipóteses, aos dilemas, e aos conflitos com as dúvidas e as inseguranças, sem pudor de expor o que tormenta a alma. E é isto que deslumbra em Mallu Magalhães: em nenhuma altura mostra que tem a vida como garantida; canta susceptível às dificuldades da vida, e admitir que se chora é das maiores virtudes que alguém pode ter. A meio do disco, “Navegador” chega imponente como uma autoafirmação de independência e confiança. Aqui é feita uma certa alusão a Portugal, onde Mallu reside há já algum tempo, embora venha de forma meio disfarçada. O eterno navegador e pescador serve de comparação para uma Mallu que se vê adulta e de queixo firme e que não precisa que ninguém “chore por ela”, pois as águas agora são outras. E a maré a levará a bom porto.

A guitarra do álbum que mais roça o som da Banda do Mar encontra-se em “Guanabara”, que se ouve vislumbrando a praia enquanto se cheira a brisa do mar no final da tarde. E é na guanabara, ou no seio-mar, que ficamos a ponderar onde andará quem escolheu tirar-nos das suas vidas. Já em “São Paulo”, os instrumentos de sopro voltam a dar vontade de dançar sob as luzes de candeeiros numa noite quente, com um riff mais latino que serve de fundo para um regresso às origens de alguém seguro de si. O solo de cordas complementa o sentimento de entrega dos seus pensamentos, enquanto em “Gigi” se abarca sons de pássaros e a primavera no seu início, uma faixa marcada por um baixo forte e uma batida que se arrasta. A voz da cantora brasileira voa em agudos perfeitos e desenham uma linha que sobe pela atmosfera, levita e nos eleva também a nós.

“Love You” é a única faixa em inglês presente em Vem, e resgata-se a memória de uma época em que a cantora explorava mais recorrentemente idiomas estrangeiros. Apesar de não existir essa necessidade, é sempre bom ouvir em novos trabalhos uma letra que nos transporta para a altura em que Mallu foi descoberta e onde vinha cheia de sonhos em vídeos no Youtube. Soa a canção de embalar, com ritmo de criança e com um amor de mãe extremamente acolhedor. A última faixa é uma verdadeira ode a Lisboa. “Linha Verde” começa com uma linda guitarra portuguesa, um fado abrasileirado – ou uma bossa nova aportuguesada -, que nos mostra como a música ainda é feita de originaidade. É uma homenagem a uma intimidade que passamos a ter com a cantora, uma visão da sua vida com a sua família e a aceitação de uma realidade que parece boa demais para ser verdade. É a canção mais pura, com um toque a Portugal e à felicidade.

Se no álbum Pitanga (2011) víamos uma menina de 18 anos que falava de si e dos seus amores, em “Vem”, a Mallu 24, agora tornada mulher, expõe todas as suas preocupações e mágoas, as opções de uma vida futura num tom vanguardista em termos de samba e do pagode como os grandes Tom Jobim e Elis Regina. Produzido por Marcelo Camelo, este disco mostra como existe um equilíbrio profissional e emotivo entre ambos os membros do casal, que encontram na música uma linguagem muito própria.

Mallu canta para quem gosta de ser feliz e para quem vê nos piores momentos uma lição de dança harmoniosa com a vida. É voz doce no meio de uma prece longa para que as alegrias simples superem a amargura. Não é só melancolia, é a satisfação de aceitar os medos e as inseguranças, e dá vontade de saborear no travo de Vem a beleza de sentir. Um disco que consegue fazer-nos abraçar o quão desconfortável um desgosto, uma desilusão, uma tristeza se pode transorfomar e transmutá-lo para o bem-estar caloroso de uma música. O sambinha bom passou a ser óptimo. Vem já é um clássico. Ouve-se de rajada. Canta-se. Várias vezes. E sente-se demais.