Não são estrelas do rock&roll, não sobem aos palcos nem são o jornalista ou o fotógrafo comuns. São a Vera Marmelo (porque as senhoras primeiro) e o Luís Martins, os rostos por detrás das imagens ao longo de tantos anos de ZDB. Mais que fotógrafos, serão retratistas de momentos, recolectores de experiências ou coleccionadores de expressões?

2014 cantou os parabéns à Galeria Zé Dos Bois e Convite foi a prenda de Vera e Luís à sala que os convida a criar… é de igual forma uma oferta da casa a todos os que por lá passam e fazem a história da sala mítica da Rua da Atalaia, Bairro Alto.

Trocámos as voltas às coisas e pusemos o Pedro Almeida e o Luís Custódio, os nossos fotógrafos, a conversar com eles. Nada de entrevistas… uma conversa longa entre pessoas que falam a mesma língua. E as conversas são assim como uma fotografia, surgem e começam sem aviso nem convite. E assim de repente… 

(Introdução: Alec Peterson)

Estávamos a falar sobre como é fotografar na ZDB. 

Sim. O que eu estava a partilhar com vocês… – V. M.

…as dificuldades de fotografar neste espaço. 

Não há dificuldade… Pelo menos, eu não vejo dificuldade absolutamente nenhuma em fotografar aqui. É dos meus sítios favoritos para fotografar, por também já estar habituada à sala e a dimensão do palco ser perfeita para a única lente que, de uma forma já muito estúpida e teimosa, faço questão de só usar uma. – V. M.

Qual é?

É uma 50mm. Mas o que eu estava realmente a partilhar com vocês é que chegámos a um ponto, eu e o Luís, que é uma posição muito especial em que o Sérgio prefere que sejamos nós a fotografar aqui e vai reduzindo o número de acreditações a outros fotógrafos. Mas acho que é principalmente por em primeiro lugar estar o público. E ainda mais, está em primeiro lugar aquele público que chegou à ZDB trinta minutos antes do concerto começar para ficar na fila da frente. – V. M.

Como nós.

Como nós, mas a verdade é que eles pagaram o bilhete, não é? E nós temos convites, tal como o livro. É por isso que se chama Convite. Todos os bilhetes da ZDB dizem o nome da banda que toca nessa noite.  – V. M.

Os nossos não. Dizem só convite. – L. M. VeraLuís-Horizontal-03-Logo

É uma tristeza muito grande. – V. M.

E é um motivo de orgulho.

É o que é. – V. M.

Foi uma óptima desculpa para dar um nome a um livro. – L. M.

No fundo, conquistaram o vosso lugar aqui dentro.

Sim, mas… Não é uma questão de conquistar um lugar. É uma questão de amizade e de passarmos muito tempo aqui e de dedicarmos muito do nosso tempo a querer contribuir para um espaço e a garantir que eles têm o que agora percebemos ser um arquivo muito especial e muito completo. E então, estas pessoas confiam em nós, confiam principalmente no nosso bom senso quando estamos à frente do palco a fotografar porque somos muito quietinhos, ou tentamos ser o menos notado possível. Por causa disso, para mim é uma ordem. Primeiro, está obviamente o músico que é incomodado por isto. É impossível um músico não dar conta que está a ser fotografado e que está a ser observado e é uma posição com a qual é difícil lidar, não é? Estás de baixo para cima, está um gajo ali debaixo de ti a fotografar com uma câmara à frente, é uma posição de poder muito grande que nós temos. E depois está o público, que chegou antes. Tu não podes ter cinco gajos a mexerem-se e a dispararem e a estragar a experiência que é um concerto às pessoas que estão ali, porque a ideia é ouvir música. Não é só depois ires para casa ver as fotografias. Daí, essa reserva. Eu acho que é uma coisa muito inteligente da parte deles, em que às vezes podem até perder algumas reviews de sites como o vosso, em que dizem “Não, nós só vamos se tivermos o nosso fotógrafo.” Mas ao mesmo tempo, estão a garantir que o público deles tem a melhor experiência possível. Nós, por uma questão, se calhar, de longevidade… – V. M.

E depois também há outra coisa… Fotografar num espaço como a ZDB é muito diferente de fotografar, por exemplo, num festival de Verão, em que a forma como se fotografa é completamente diferente. Nós não temos um espaço para nós. Não conquistamos, mais ou menos, esse espaço quando chegamos meia hora antes do concerto e nos sentamos à frente para fotografar. Se chegarmos em cima do concerto, onde chegarmos é onde ficamos. Ou pedimos… – L. M.

Mas o pessoal até é simpático e já nos conhece. – V. M.

E é capaz de nos deixar passar, mas nós os dois não deixamos de fazer o esforço de chegar antes de grande parte das pessoas para termos o nosso lugar e pode fotografar à vontade. E depois a outra coisa é que há concertos com guitarras e distorção e não sei quê e outros que são muito mais frágeis. A guitarra é acústica, ou que é um piano e que o clique é completamente disruptivo no concerto. Tanto eu como a Vera, porque já fotografamos aqui há algum tempo e noutros sítios temos, talvez, a sensibilidade de perceber que há concertos em que podemos fotografar mais à vontade e outros que não… Muitas vezes comentamos isso quando estamos a fotografar com mais gente em que ouvimos o clique… Para nós, é-nos muito complicado não ouvir o clique. – L. M.

Incomoda-nos também a nós.

Por defeito profissional. Quando estamos a ouvir 15 cliques a disparar de seguida, incomoda-nos muito. Presumimos que para o músico, também não seja a melhor coisa. É impossível ele não estar a ouvir. E para quem está a ver o concerto… – L. M.

Logo ali à volta….

É horrível. Eu chego a ficar chateada, constrangida e páro de fotografar. Isto aconteceu-me umas duas vezes. Duas vezes em que foi mesmo intenso, de eu ficar a pensar “Eu não quero pertencer a este grupo.” Porque todas as pessoas te vão olhar depois da mesma forma. Ninguém sabe que é que fez o clique. Ou quem fez os 10 cliques seguidos. Eu quase que fico constrangida de pertencer àquele grupo. – V. M.

Sim. Eu estava aqui a tentar pensar e o concerto que acho que tive mais cuidado com isso foi o concerto da Julia Holter na Igreja de St. George, há uns anos, em que o Sérgio me pediu para ter muito cuidado com os cliques, porque no concerto que ela tinha dado noites antes, não sei se no Porto ou em Guimarães, ela sentiu-se muito incomodada com os dez fotógrafos que não paravam de disparar. E isto em outros sítios em que também costumamos fotografar. No Teatro Maria Matos ou outros sítios do género. Um clique pode ser muito disruptivo para a experiência de toda a gente naquela sala. E tanto eu como a Vera. Nós nunca falámos muito acerca disto, mas temos técnicas para esconder o clique. Ou seja, quando sentimos que vai haver mais barulho disparamos mais, quando sabemos que não vai haver barulho… – L. M.

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E houve concertos em que eu fotografo só nas palmas, em que ele já nem sequer está a tocar. E não me chateia. E há concertos em que, aqui na ZDB, quando alguém está parado à tua frente, com uma guitarra acústica no colo, ele não vai fazer mais nada. Portanto, tu tiras uma… duas… e já está! E se falhaste, epá… Esquece. Muda de ramo. – V. M.

Mas uma coisa fantástica é, e se falhaste, tens na boa mais uma hora de concerto em que podes ter cuidado, e não precisas de disparar quinze vezes, porque as quinze vezes… – L. M.

…vão ser sempre iguais. – V. M.

É a mesma coisa. É a mesma imagem, não sei quantas vezes. Só para resumir, o espaço que nós temos hoje na ZDB também se deve ao facto de termos a sensibilidade de lidarmos com estas experiências todas e perceber que há concertos em que podemos fazer algumas coisas, outros concertos que podemos fazer outras. E isso também contribui bastante para a relação que nós temos com eles. – L. M.

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E depois há uma coisa que acho que é também aqui essencial. Isto para nós não é a última Coca-Cola do deserto. Ou pelo menos, para mim. Eu não venho para cá com aquela sensação de “Ok, é o meu trabalho, tenho de fazer a coisa mais incrível de sempre.” Não. Estou aqui para tentar fotografar as coisas como eu as sinto e como eu as vejo. E a maior parte das vezes… nós os dois fotografamos de uma maneira um bocadinho diferente, e o que nós conseguimos obter em cada concerto é muito diferente. Mas acho que cheguei a um ponto, passado tanto tempo a fotografar, que já não tenho aquelas ganas de ter aquela posição incrível e tudo o mais. Estou muito mais por simplificar as coisas e obter… outro tipo de momentos. Enquanto que se calhar, alguém que esteja agora a começar, que esteja naquela energia de tentar fazer o melhor possível, chega aqui e quer disparar em todos os momentos e fazer todas as coisas… eu percebo essa energia e acho super fixe que ela exista. Tu quando estás a começar queres fazer o teu melhor. Mas ao mesmo tempo, tens de garantir que a experiência é o concerto e não o tipo que está a fazer acrobacias à tua frente, a fotografar. – V. M.

Se não consegues tirar em 15 fotografias aquela que te interessa, não é por tirares mais 300 ou 400 que vais lá chegar.

Não. O Sérgio gosta muito de partilhar 40 fotografias num álbum do mesmo concerto e tudo o mais… Eu também peco, às vezes, pela quantidade. Mas, a maior parte das vezes, e foi este o exercício que nós fizemos no livro, há uma grande imagem e é mais do que suficiente para cativares as pessoas. – V. M.

E muitas vezes, uma só foto sintetiza o concerto todo. Ou seja, não é que não hajam outras fotos boas, mas aquela é claramente a mais emblemática do que se passou na noite. E o livro, se calhar, até melhora aquilo que nós fazemos. Sempre que há um concerto cá, pomos várias. – L. M.

Um exagero. – V. M.

O livro, muitas vezes, pega nas fotografias que são mesmo mais emblemáticas daquele concerto, aquele momento. Quem não esteve no concerto, não vai perceber o que se passou pelo nosso registo. Acho que nem eu nem a Vera temos a presunção de sermos fotojornalistas. – L. M.

Dá para ver perfeitamente na vossa estética que não é o tipo de trabalho que vocês fazem, não é o típico do fotojornalista. Vocês procuram, acima de tudo, a intimidade. Eu folheei este livro e há uma coisa muito engraçada: não se consegue distinguir quem…

Quem é quem. – V. M.

Ainda há bocadinho estávamos a falar acerca disso. – L. M.

É um jogo que nós agora fazemos com as pessoas. – V. M.

Vocês poderão conhecer o vosso trabalho…

Nós percebemos bem. Há coisas que se percebem bem. Há outras que foram coisas que nós descobrimos quando estávamos a pôr as coisas lado a lado, a tentar casá-las. Há imagens que parecem umas o prolongamento das outras. E chega a ser assustador. Agora, nunca nos podemos esquecer de uma coisa. Nós estamos a fotografar, em algumas situações, o mesmo concerto. A mesma coisa está a acontecer à nossa frente. Acontece, montes de vezes, nós começarmos o concerto lado a lado. Estamos a conversar. De repente, as pessoas vão-se aglomerando e nós pensamos, “estamos um ao lado do outro, isto não vai servir de nada.” – V. M.

Muitas vezes o que acontece, como eu já disse, nós chegamos antes. Às vezes, abrem-nos a sala um bocadinho antes só para garantir que nós estamos lá à frente, mas no limite, o privilégio que nós temos é este. Obviamente, se estamos na sala há meia-hora, não vamos estar cada um numa ponta do palco. Portanto, estamos juntos a falar. Quando damos por nós, a sala está cheia e o concerto está a começar. – L. M.

E estamos colados um ao outro. (risos) – V. M.

E mesmo assim, o que cada um de nós produz é diferente. Mas é o que já falámos algumas vezes, complementa-se, ou seja… Eu procuro umas coisas, a Vera procura outras. Não pretendendo contar uma história, através dos meus olhos e da Vera, dá para ter uma ideia do que é que foi a noite. Mas outra vez… O melhor é vir ver o concerto. As fotos não são justificação para nada. Às vezes, são uma memória para quem veio ver um concerto. – L. M.

Sim. Aliás, já senti isso. Há duas coisas então, uma para concluir esta ideia do complementar. Há pouco tempo, houve um concerto muito importante, o do Rodrigo Amarante. Nós estávamos os dois a fotografar. Fiquei tão aliviada por ter o Luís a fotografar ao meu lado. Porque eu sei que, também por uma questão de material, ele consegue sempre certas coisas que eu não consigo. E ele, ao mesmo tempo, percebeu que eu estava a fotografar muito as pessoas e aquelas coisas ali à nossa volta. Estavam mesmo ali à nossa frente. E nós tivemos esta conversa no final.  Ele diz “Eu vi-te ali a fazer aquilo e pensei ‘Tá-se bem, ela já fez aquilo.'” E eu vi-o a ir para longe a fotografar o público inteiro e pensei “Tá-se bem, ele já fez aquela parte.” De certeza absoluta, no início, quando começámos a ver o que os dois estávamos a fotografar e que não nos conhecíamos assim muito bem, ficávamos naquela… Eu não sei se alguma vez pensaste sobre isto… “Ela conseguiu isto melhor do que eu! Bolas…” – V. M.

Ah, sim, sim. – L. M.

Mas agora, eu já sinto outra cena, que é “Estou super curiosa para ver o que ele conseguiu.” Para conseguirmos encaixar as duas coisas e já nem sequer há esta luta. Há mais aquele alívio, por pensar “Eu não consegui, mas ele conseguiu e vou guardar as dele para mim também.” – V. M.

Alguma vez olharam para as fotos um do outro e disseram “Isto é num sítio diferente, não tiraste esta fotografia no mesmo concerto que eu?”

Não… Acho que isso acaba por não acontecer. Acho que o que acaba por acontecer é olhar para coisas diferentes. Ou seja… Pegando noutro exemplo diferente. A Vera e eu estivemos este fim de semana a fotografar o concerto de Ty Segall. Eu também tinha estado lá à tarde, tinham-me dado acesso a vários pontos… – L. M.

Sim, ele tinha uma pulseira que eu não tinha. Fiquei tão contente de não ter essa pulseira… Foi maravilhoso. Não precisei de me esforçar nada. Foi tipo… “Olha… ‘Tá-se bem.” – V. M.

O que aconteceu foi que eu já sabia que depois de estar um bocado a fotografar à frente do palco, que até pensei que iria ser mais tempo do que acabei por ter, que eu depois acabaria por ter liberdade para ir atrás deles e fotografar por trás deles. Do backstage, fotografar da mesa de luz do Lux. E acabei por não me preocupar muito por estar lá em baixo a fotografar ao mesmo nível das pessoas que estavam a ver o concerto, porque eu sabia que a Vera estava lá. Como a Vera não… Porque também não é isso que lhe interessa. – L. M.

Sou uma casmurra do caraças. – V. M.

Porque não é isso que lhe interessa. O material também é limitativo, nesse caso. Eu posso ir para um sítio mais longe, porque tenho uma teleobjetiva e fotografar aquilo de uma determinada maneira, mas tenho a certeza absoluta que as fotos de perto, do pessoal a fazer crowdsurfing ou o que for, eu sei que a Vera está lá para as fazer. – L. M.

Para garantir. Então, nós tivemos… quatro músicas? Estivemos o primeiro concerto todo na frente, a sermos completamente esmagados, depois tivemos cinco músicas do Ty Segall e pensámos… “Vamos evitar partir as ancas e partir as máquinas.” – V. M.

E acabámos por sair os dois ao mesmo tempo. – L. M.

Saímos os dois ao mesmo tempo. O Luís foi para uma lateral. Eu subi para um banco que está no Lux, ao pé de umas amigas minhas e estive o tempo todo só a fotografar o crowdsurfing.  E depois a fotografar o pessoal a dar beijinhos e não sei o quê… E a fazer gifs animados do Ty a passar… Então tu tens a minha versão, que é veres as mãos no ar… Uma pessoa fez uma comparação linda, disse que aquilo parecia As Viagens de Gulliver. – V. M.

Ah, vi vi… – L. M.

VeraLuís-Horizontal-09O gajo a ser transportado pelos homenzinhos. E o Luís tinha imagens incríveis de uma sala cheia… Aquilo parecia muito maior! A sério, ficou fora. Mas é uma ilusão, é verdade. É uma ilusão, mas ele tinha estas imagens muito abertas, do público todo. E eu tinha as coisas mais fechadas e aquela cena de veres os pés e as barrigas e tudo o mais. E então eu consigo fazer aquilo que me dá prazer e consigo ficar aliviada também por pensar que é super fixe para um programador ter a sala cheia e ter isso registado. Ainda por cima, foi a primeira vez que a ZDB saiu e foi para o Lux. E o Luís cumpre isso na perfeição. Há montes de vezes em que esse é um bocado o teu registo. Tu gostas daquela amplitude, não é? De teres as pessoas todas em palco. Aliás, o livro abre com essa fotografia… E é muito giro. Vês o palco completo do concerto dos Metz, aqui na ZDB mesmo. E tu tens todos, tens essa energia. É dele. E depois mais à frente tens uma fotografia minha, do mesmo concerto, em que na verdade são duas fotografias, porque como dentro da minha 50mm não me cabe o homenzinho completo, eu tenho de fotografar uma, duas vezes. E faço isto n vezes. Pronto. – V. M.

Isso é uma ideia lindíssima.

Eu faço isso montes de vezes. O Sérgio demorou montes de tempo a perceber isso. Em que, de repente, tens o Thurston Moore dividido em três e isso aconteceu montes de vezes. Isto é só porque tenho uma 50mm e estou à frente do palco e é a única maneira. – V. M.

Tinha visto uma fotografia dessas, do Fred, em que tiras uma fotografia do Fred. Tiras a cara e depois tiras daqui para baixo.

Faço isto montes de vezes. Mas, lá está… É uma sorte este pessoal da ZDB ter-nos aos dois. E depois, nós termos estas… Porque nós fotografamos de uma maneira muito parecida, eu acho que sim. Ou pelo menos, encaramos isto tudo e temos a mesma atitude perante a cena de fotografar concertos. E o mesmo respeito. Acho que acima de tudo, é isso. Mas também temos esta variedade de aproximações à coisa. E eu acho que tu és feliz a fazer a tua versão. Eu sou bué feliz a fazer a minha. E sou ainda mais feliz por pensar que ele está cá para complementar a cena. E eu acho que isto é raro, entre fotógrafos. Eu acho que isto não acontece. – V. M.

Pessoalmente, não conheço muita gente que trabalhe como vocês trabalham. Normalmente, vai um fazer um concerto, vai outro fazer outro. Também pela própria dificuldade em arranjar as acreditações.

Pois. O Sérgio fez um texto muito bonito acerca desta ideia de se fazer este livro e ele a certa altura diz – se calhar vou dizer isto da forma errada – mas é mais ou menos esta ideia. Que nós fazemos aquilo como quem gosta do que vê e do que ouve. Por exemplo, o concerto do Rodrigo Amarante era um concerto que para nós os dois era muito importante ver porquenós gostamos da música dele. – L. M.

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Lá está. É um concerto… é daqueles concertos que não podia ser. Eu estive nos dois, porque sou fã, mesmo… de ficar nervosa. Eu fotografei o primeiro, o Luís esteve presente no segundo e fotografámos os dois o segundo. No primeiro concerto quase não consegui fotografar. Porque era uma tensão tão grande e o primeiro foi muito intenso, que eu não conseguia. Eu não conseguia! Estava completamente bloqueada por ter à minha frente uma pessoa que eu admirava tanto e estar tão próximo. Eu não o queria incomodar. – V. M.

E neste concerto do palácio, é um concerto em que é ele e uma guitarra. Era daqueles casos que se tinha de ter um pouco de cuidado na experiência, para não destruir muito… – L. M.

Nota-se que tiveste o cuidado de vir um bocadinho mais para trás, tiraste fotografias do público todo.

Mas agora já temos encomendas do Sérgio, verdade seja dita. Que é uma coisa que não nos custa nada cumprir, mas é uma coisa que ele valoriza bastante, porque é importante para ele. Mas nesse concerto, eu quase não tenho imagens do Rodrigo a tocar, mesmo. É sempre momentos de paragem, quando vêm os aplausos. Porque é um respeito muito grande que eu tenho por ele, não quero nada ser notada. – V. M.

E depois é muito isso de que a Vera fala. É um alívio saber que ela está a fotografar os beijinhos do pessoal e o público de uma maneira completamente diferente de como eu faço. Mas, na prática, os dois temos a noção que é importante fazermos aquilo que queremos, mas também para o espaço ter aquilo que é importante para eles. E para eles, para eles é importante ter uma fotografia que mostre que o concerto estava cheio de gente. E não é falsificar isso. Nunca. Mas se está à nossa frente, nós não podemos ignorar esse facto. E o concerto do Rodrigo estava esgotado. O concerto do Ty estava esgotado. Os dois concertos de Paus, Linda Martini e Filho da Mãe já estão esgotados. – L. M.

Mas esse vai ser muito difícil fotografar o público todo. – V. M.

Sim, sim, mas eu… – L. M.

Tu consegues. Estão a ver? Faz isso. Eu fotografo o pessoal de pés para o ar. – V. M.

O que estamos a falar é que isto também conta um bocadinho da história do concerto. E há aí exemplos de que o mais importante que se estava a passar no concerto nem sequer era em cima do palco, era à frente do palco. Ou seja, se calhar olhar para trás “Espera aí, se calhar afotografia não está ali. Está aqui atrás.” – L. M.

Eu acho que essa foi a grande razão pela qual eu decidi, na quarta música, dizer “Meu, eu vou bazar daqui. Porque aqui nós só vemos eles a tocar e está a passar-se tanta coisa atrás de nós, tão fixe, que… Mesmo que seja assim, meio de longe, só com o pessoal a voar.” Os miúdos que apanham aquelas fotos a fazer crowdsurf usam aquilo para todo o sempre. E isso é muito fixe. Lá está. É tu tentares aproximar uma sala de concertos das pessoas que lá estão a ver os concertos, porque eles também fazem parte. Ainda hoje nós estávamos a ter essa conversa. Aquele concerto não seria o mesmo se o público não fosse tão teenager como era. Eu, pela primeira vez na vida, ouvi alguém chegar à frente do palco – os primeiros que chegaram – a dizer assim: “Pá, o não-sei-quantos ficou lá fora, porque não trazia o B.I.” E nós… “Espera? B.I. para entrar no Lux!” Pois é, porque a idade mínima é 18, quando muito 16 e eles tinham tipo 17 anos… 18 anos… E um jovem de 17 anos a ver um concerto, comparado com os nossos amigos, de 30 anos, a ver o concerto cá de trás, armados em tough… É completamente diferente. E a energia é muito boa. Se calhar é melhor começarmos a responder às vossas perguntas, porque senão… Nós nunca falámos tanto… Estamos para aqui a escorrer. – V. M.

Uma coisa de que tenho curiosidade. Tu começas a fotografar e és o miúdo que vai ao concerto e queres levar uma recordação para casa. Depois, passas a ser a pessoa que quer fotografar o concerto e quer ter uma reportagem do que se passa. E a certa altura passas a ser um artista, que pensa numa fotografia como uma coisa que estás a fazer e não como um trabalho. Vocês concordam com essa evolução, acham que estão presos numa das etapas?

Mais ou menos. Essa etapa do meio, acho que nunca chegou a acontecer muito seriamente, nem comigo nem com a Vera. – L. M.

Não. Não tenho pretensão nenhuma em ser fotojornalista, nem documentarista… – V. M.

Nunca aconteceu muito a sério, e acho que… Não sei se era arrogância ou confiança no nosso olhar, nós tínhamos mais ou menos a noção que aquilo que estávamos a fazer era aquilo que nos interessava fazer. Era a maneira como nos interessava olhar. Eu com isto, não quero dizer que nunca tenha feito um compromisso entre aquilo que quero fazer e um trabalho pago. – L. M.

Exacto. Uma coisa que pretendem de ti. Agora, aqui, isso não acontece. Ninguém nos obriga… Eu não me sinto obrigada a fazer qualquer tipo de registo, mais assim ou mais assado. Porque eu sei que eu é que tenho de ficar feliz e contente com as imagens no final. Mas conclui, que depois eu digo qualquer coisa. – V. M.

Não, basicamente era isso. O momento em que eu decido trazer a máquina fotográfica, era essa a lógica que estavas a falar. Que era guardar uma recordação. Se bem que no momento em que trouxe a máquina fotográfica digital, a “máquina boa”, se calhar era uma pretensão maior do que isso. “Espera aí, deixa ver se eu consigo fotografar um concerto.” Se calhar, posso falar um bocadinho sobre isso também. Tive a minha primeira boa máquina fotográfica digital em 2009 e foi uma prenda de Natal. Foi incrível. Era absolutamente incrível ter aquela máquina. E eu não a tive cá, tive fora de Portugal e era óptimo ser turista com aquela máquina. – L. M.

A sério? Andar com o peso todo? – V. M.

Sim… – L. M.

Epá, não percebo essa cena. – V. M.

É uma questão de hábito.

Não percebo nada disso… Eu sei que tu andas sempre com isso atrás. É impressionante. Também tu, Pedro? Foda-se… – V. M.

E de que máquina estás a falar?

Estou a falar de uma Canon 50D. E depois andava com uma lente de 50mm. A mesma lente de sempre. O que acabou por acontecer foi que eu cheguei a Lisboa e já não tinha as mesmas desculpas, porque já não era turista, e então a forma como olhava para a cidade era diferente. Então comecei a tentar arranjar temas e missões para ir fotografar. A primeira vez que eu fotografo um concerto não é aqui, é noutro espaço. Mas nesse momento, eu se calhar decido “Se calhar consigo fazer isto mais vezes.” E acabei por começar a trazer a máquina. Se calhar, esse momento em que trago pela primeira vez a máquina, é mais do que ser só mais alguém que quer guardar uma recordação, era um desafio que eu tinha posto a mim mesmo. Mas a partir de certa altura, acabou por… Não sei se “artístico” seria a visão certa. Eu acho que nós só queremos é olhar para as coisas e tirar umas fotografias. Acho que nem temos sequer a noção do que é criar um bom… – L. M.

Do que é que isto vai ser no passado… No passado, não. No futuro. Fotografar a ZDB é uma pequena parte das coisas todas que eu acompanho com uma militância quase doentia. Então, eu começo a fotografar, a primeira vez que cá venho e fotografo cá, vim para ver uma banda de que gosto e faço as fotografias porque as queria para mim. Eu vim ver os Vicious Five. Eu nessa altura estava a fotografar com filme. Ampliei as fotografias e fui dá-las, em mão, ao Quim. Foi a primeira vez que eu falei com ele. Portanto, isto era claramente a minha posição de fangirl, a querer conhecer a banda e a não ter qualquer tipo de bloqueio e a ir lá tipo “Olha, fui ao vosso concerto e fiz estas fotografias.” – V. M.

Eu li esse episódio e fiquei a pensar “Isto é uma ótima estratégia para começar a conhecer os artistas.”

E foi assim que eu comecei. Isto foi em 2004. – V. M.

E continuas a fazer isso?

Hoje em dia, já não preciso de lhes mandar emails. Regra geral, são eles que me mandam “emails”. “Ei, Vera, dá para safares aquela foto para metermos no site?” Aliás, nós estávamos aqui sentados, estava a ver mais um email de alguém. Os papéis já se inverteram e isso é uma coisa maravilhosa, que foi natural. Mas, por exemplo, o primeiro festival que eu fotografei, assim à séria e foi o que me fez começar a ter um blog, foi o OUT.FEST 2006 e eu fotografei aquilo… muito mal! Filme, rolos de 1600 a cores, passadíssimos do prazo… E eu lembro-me de mandar emails aos músicos todos a dizer “Olha, fiz isto assim e assado…” Naquela altura, a minha energia, era… Ou o que me fazia fotografar, era a posição de fã e de pertencer a um grupo de pessoas da minha cidade que eram todos músicos e eu queria contribuir. Portanto, eu começo a fotografar os meus amigos. As primeiras vezes que eu venho fotografar à ZDB assim mais seriamente, tipo missão, são os meus amigos que marcam concertos cá e eu venho fotografar os concertos deles. Depois, o Sérgio começa a programar e então eu já fotografo concertos que o Sérgio programou. – V. M.

Mas vens por ti própria, não por pedido do Sérgio? 

Venho porque quero vir. Porque saía do trabalho super tarde, não tinha para onde ir e vinha para aqui e jantava com eles e tudo o mais. E quando uma vez me perguntaram onde é que achava que encaixava as fotografias que tinha vindo a fazer… Perguntaram-me essa história. Fotojornalismo, foto de artista… Aquela fotografia conceptual, não sei quê… Ou o documental. E eu continuo a achar que estou só a acumular imagens, no género de arquivo pessoal, que é como um álbum de recordações. Porque há pessoal que vai de férias com os amigos e tira fotografias quando estão de férias, quando vão a uma cidade nova… Eu vou em tour com as bandas. Ou venho para a ZDB. Ou faço retratos a membros de bandas que já são meus amigos, portanto são momentos especiais em que nem sequer são retratos para eles usarem de promos. Por exemplo, como fez agora os 10 anos que fotografei os Vicious Five cá e eles este ano voltaram a tocar. Fizeram estes concertos de funeral. Eu vi um bocadinho do concerto do Alive e vi o concerto completo do Milhões. Então nesse concerto eu fiz questão, quase por uma questão de fecho também meu, de fotografar o ensaio, o concerto e fazer uns retratos a todos eles, à beira da piscina. E isto não tem qualquer tipo de pretensão “para completar o ciclo do meu trabalho”. Não. É só as várias etapas de vida de pessoas, que algumas eu já considero minhas amigas, ou estão tão presentes na minha vida que já fazem parte e eu quero fotografar essas etapas todas. Quero estar presente. Só porque sim. E tu quase que crias este vício e se não estás, ficas quase que meio incomodado. Se eu por algum acaso tiver de falhar um Barreiro Rocks… A minha cena de estar presente é muito superior à importância que aquelas fotografias podem ter no futuro. Para mim, é quase tão importante como não falhar o casamento de um amigo, ou não tirar umas fotografias ao filho de um amigo meu… Portanto, não há pretensão artística absolutamente nenhuma. Nenhum de nós tem uma formação de fotografia por trás. E se as nossas motivações fossem outras e se calhar não tão nobres… Posso dizer, nobres como estas, só querer estar presente e contribuir para uma coisa e sentir que há quase uma cena musical que está a acontecer à nossa frente e na qual nós conseguimos participar, mesmo não sendo músicos. Isso é incrível. As pessoas reconhecerem-te e reconhecerem o teu trabalho e dizerem “Obrigado por tu estares a fazer este tipo de registo.” E eu tenho isso num conjunto tão grande, em grupos tão variados de música aqui em Lisboa, que para mim é um orgulho muito grande poder ser tão transversal. O Luís, acho que se tem dedicado muito mais aqui à ZDB e não se vai atravessando em todas as outras coisas… Eu tenho OUT.FEST, Barreiro Rocks, tenho aqui a ZDB. Tenho um grupo muito grande de malta da Trem Azul, da cena do jazz. Tenho a malta toda da Flor Caveira. Filho da Mãe, Paus, Linda Martini, Vicious Five. É outro grupo de malta que eu tenho muito orgulho de ter muita coisa já e de já poder contar um bocadinho de história. E isto deixa-me muito orgulhosa. Mas é só mesmo por uma questão de arquivo, de álbum de recordações, sem qualquer tipo de pretensão. E tu não sentes essas fases, tu não sentes. Tu só sentes o tempo a passar e eu começo a pensar “Meu, estou quase a fazer 30 anos. Vou continuar até ao quê? Aos 40, a vir para concertos e a fotografar?” Se assim tiver de ser e eu sentir que é assim… – V. M.

Claro que sim.

Claro que sim. Que eu vou fazer. Mas não há esse patamar. Tu não sentes isso. É impossível. Eu acho que só comecei a sentir isso quando no ano passado dei mais entrevistas e as pessoas me colocavam esse tipo de coisas. “Tu tens noção da importância…” E eu assim a olhar para eles. “Pá, não, meu…” São só concertos. Para quê elevar isto a uma posição tão… Não, são só concertos. Quem está a fazer isto acontecer são os músicos e as pessoas que estão a aderir ao que se está a fazer em Portugal. E nós tivemos uma óptima… Foi tipo um momento-chave. Quando há muita energia à volta da música em Lisboa, quando há muitos festivais a acontecer. Nós não somos, tipo esquece… Essa cena do artista é bué totó. Nós não somos assim tão importantes. Nós estamos cá só para fazer o registo. Mais nada. – V. M.

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Luís, como é que chegaste à ZDB?

Como espectador. – L. M.

 E tu igualmente, Vera?

Sim. – V. M.

Vocês não se conheciam antes?

Não. – V. M., L. M.

Só nos conhecemos… quando é que nós nos conhecemos, Rita?

Vocês os dois? – Rita

Foi no Maria Matos, não foi? Em que ano? Quando é que vocês começaram mais ou menos a programar lá? – V. M.

Vocês conheceram-se em 2009/10. – Rita

Foi, foi nessa altura.Eu já vinha à ZDB há anos. Vim a um concerto, curiosamente de Vicious Five também. – L. M.

No ano a seguir. – V. M.

Sim, no ano a seguir. – L. M.

E ele, curiosamente, nasceu no ano a seguir a eu ter nascido, portanto para o ano faz ele 10 anos. – V. M.

Exacto. E vinha sempre como espectador… e para mim era um bocado óbvio vir à ZDB por causa da programação, era o sítio que eu queria vir. Era o sítio onde vinham tocar as coisas que num primeiro momento eu queria ver e depois apercebi-me, a uma certa altura, que era o sítio onde eu podia vir ver coisas sem conhecer. – L. M.

Podias arriscar.

Sim, porque.. não estou a dizer que tudo o que vier é incrível, mas… consegui vir aqui, ser surpreendido e ficar bastante contente com a surpresa que acontecia. E que ainda hoje acontece. E… pronto, vinha como espectador. E, se calhar, numa primeira instância, quando comecei a fotografar aqui, foi nos momentos em que também queria ver o concerto e era a minha maneira de participar um pouco no concerto. Ou seja, ir tirar uma fotografia era uma óptima desculpa para estar presente. Eu nunca tive grande problema em vir a concertos sozinho, portanto fazia-o frequentemente. Se havia uma coisa que queria ver, vinha e não precisava da desculpa de ter que vir ao concerto com alguém ou seja o que for… – L. M.

É uma seca vir a um concerto com alguém, não é? – V. M.

É… – L. M.

Eu quero vir sozinha. Dá-me jeito. Dá-nos muito jeito. Não tens aquela pressão de ter que estar a fazer companhia àquela pessoa. – V. M.

E estás mais concentrado. E acho que isso até se pode manifestar um bocadinho na ideia de ser fotógrafo, ou seja, na prática, quando eu estou a fotografar, existo só eu quando estou a olhar para um determinado sítio e aquilo que se está a passar à minha frente. Portanto, não tenho que estar a fazer conversa, não estou distraído com absolutamente mais nada. Não é que não esteja atento, mas não estou distraído. E depois, basicamente, comecei a fotografar, mostrava as fotografias, acabei por mostrar mais à Daniela aqui da ZDB, a Patrícia também começou a partilhá-las e percebi que se calhar tinha aqui algum tipo de papel nesta história toda e pronto… às tantas eu e a Vera, começámos a falar e vínhamos aos mesmos concertos fotografar as mesmas coisas. Era giro porque outra coisa que nós fazemos – e não sei se é assim tão comum – é irmos para casa e escolhermos logo as fotos. – L. M.

Tipo, logo a seguir. A seguir ao Ty Segall não fui para casa, eu moro do outro lado [Margem Sul], então quando o Luís fez o post, disse logo “Desculpem pessoal, mas eu hoje não fui dormir a casa!” – V. M.

Exacto! (risos). – L. M.

Ri. – V. M.

Não sei, sinto mesmo a urgência de partilhar… – L. M.

Tem que ser. – V. M.

…qualquer coisa, e a verdade é que hoje em dia já me faz muita confusão… – L. M.

…deixar para depois. – V. M.

Não, entrar num concerto sem a máquina fotográfica. – L. M.

É horrível. – V. M.

Eu consigo sobreviver (risos). 

VeraLuís-Horizontal-14

Eu pego no telemóvel nessa altura e estou “espera aí, deixa-me tentar ver se consigo fazer alguma coisa”. Mas a verdade é essa, para mim uma experiência de um concerto já é impossível dissociar da experiência de fotografar. Portanto, e aqui na ZDB, é o sítio em que vem tocar aquilo que eu quero ver, faz as coisas da maneira que eu quero. Estávamos a falar do Rodrigo Amarante. O Rodrigo Amarante tocou aqui duas datas e no dia a seguir foi para o Primavera e eu não tinha vontade nenhuma de ver o concerto (nada contra o Primavera), mas sei que este concerto teria que ser necessariamente melhor porque era muito íntimo. Por isso, a experiência de fotografar aqui é completamente diferente de fotografar num grande festival. Não é má nem melhor, é só uma coisa que a mim me dá mais gozo fazer. E estavas a falar de ser difícil fotografar na ZDB. Há limitações claras em termos de iluminação, ou seja, num festival onde a luz é muito presente não temos que suar para tirar uma foto, mas aqui o desafio é que aqui o concerto é completamente às escuras, só tem uma luz ligada, o que também nos dá algum gozo. – L. M.

Uma das coisas que me chateia muito e razão pela qual não vou investir numa tele (e isto pode mudar amanhã) é que a mim não me dá gozo absolutamente nenhum estar tão longe com um canhão para fotografar uma coisa que nem sequer estás a ver bem, percebes? E mesmo que essas luzes sejam incríveis, que tenhas a banda mais incrível à tua frente, aquilo não me dá gozo nenhum, não me dá pica nenhuma… e aqui a proximidade é uma cena que me entusiasma muito mais, porque eu gosto mesmo de estar em cima. – V. M.

E permite outro tipo de registos, lá está, de maior intimidade.

Claro. E é o que me interessa. – V. M.

…Sentir que a própria pessoa que vê a fotografia sente que está lá, que está no meio.

Sim, sim. – V. M.

A mim, por exemplo, faz-me muita confusão ir a um festival e estar a ver o concerto muito longe. Ou seja, estar a ver o concerto pelos ecrãs. Sinto que é um bocado dinheiro deitado à rua… – L. M.

Claro, exacto… – V. M.

Não é que a experiência seja má, mas não é aquela que eu quero. Se eu for a um festival, vou fazer o esforço, se é uma banda que eu quero muito ver, estar o mais próximo do palco e ver o concerto, não ver o concerto através do ecrã. Porque na prática, um telemóvel também é um ecrã. Por isso é que hoje em dia toda a gente está assim nos concertos e faz-me um bocado de confusão porque não se está a ver o concerto, é um feed em directo do concerto. Ou um filtro qualquer que estás a por à frente dos olhos e a pessoa quer experienciar a coisa em directo e no momento. – L. M.

É igual fotografar atrás do palco, no backstage, no soundcheck, ou seja, faz parte do mesmo trabalho ter mais gozo quando estão no momento mais íntimo só com a banda…?

É diferente… – L. M.

Ou para vocês o público é essencial? 

Soundchecks, testes de som são fixes, porque podes andar à volta deles e quando as pessoas te conhecem e te querem ali então é muito bom. – V. M.

E não incomodas ninguém… – L. M.

Não incomodas ninguém, tens o teu espaço, estás ali na boa… – V. M.

Demoras o tempo que precisares. – L. M.

Backstage… depende. Tens bandas que é muito fixe teres em backstage, acontecem montes de coisas e há outras que é uma seca. Para mim, hoje em dia, é fazer retratos, é ter estas hipóteses que eu já tive aqui na ZDB, trazer o Rodrigo Amarante para esta sala, ele estar sentado aqui a fumar um cigarro, eu estar à frente dele e poder fotografá-lo e ter 10 minutos que seja, mas ficar com uma cena que é só minha e que não seria possível de outra forma. Porque eu gosto muito de partilhar essa intimidade com essas pessoas… não é um desafio, mas crias… e vocês, como fotógrafos, sabem isso… quando tu estás com alguém à tua frente que é minimamente especial, o momento da fotografia e do retrato é uma coisa que é super íntima e pode ser incrível. Por exemplo, com o Rodrigo tive uma cena de uma tensão muito grande e foi complicado fazer os retratos. Com o Vincent Moon, que também está no livro, foi uma coisa surreal, porque nós em 10 minutos conseguimos ter uma conversa em que ele me leu completamente. E disse uma série de coisas super certeiras naquela altura. Isso para mim, agora, nesta altura, é o que eu acho mais fixe. E depois, a verdade é que sou sempre tão simples e tão básica a fazer os retratos… é muito rápido aquilo acontecer, não preciso de inventar nada e então dá-me um gozo especial. Mas gosto de fazer as outras coisas todas porque primeiro começas por fotografar o concerto e a pessoa sabe quem tu és e gostou, então deixa-te ir para o ensaio de som. Depois estás no ensaio de som e ela ganha alguma facilidade contigo e deixa-te ir para o backstage. Depois no backstage és invisível e chegas ao pé dele e dizes “olha, podes só parar para te fazer um retrato” e aquilo sai naturalmente… são etapas, pequenos patamares ..

São conquistas?

Sim, eu curto a cena toda, eu gosto das cenas todas. E posso dizer-vos que hoje dá-me igual pica ter o Thurston Moore à minha frente, é igualmente fixe a ter o Luís à minha frente para lhe fazer um retrato especial. E chegas a um ponto em que… tenho 30 anos, estás aqui por outra razão, já fotografas as coisas por outra razão.. Isto aqui é militância, já não és capaz de não fazer… O que é que tu gostas mais de fotografar, Luís? Concertos? – V. M.

Comida… – L. M.

Comida?

É isto, isto agora é brutal. Ele começou a fotografar comida! – L. M.

Pois é, eu vejo no teu site que, de vez em quando, tens bandas bandas bandas e depois um prato!

Figos! Bolos! – V. M.

Sim. Estive durante uns meses a trabalhar como assistente de um fotógrafo, o Mário Pinto, e ele ensinou-me. Fui lá para aprender mais fotografia de moda e acabei por sair de lá com algum gozo a fotografar produto – e a comida é produto. E a minha namorada tem um blog de comida e então fazia sentido eu perder um bocadinho de tempo com isso. E a verdade é que dá-me algum gozo. Relativamente a concertos, continua-me a dar muito gozo, é um momento muito especial. Embora fotografar antes do concerto seja bom, porque estás mais à vontade, olhar para trás também é muito bom. E a energia do concerto às vezes influencia-te – pelo menos a mim e acho que à Vera também – muito a fotografia que estás a tirar. – L. M.

Sim. – V. M.

Se o concerto não estiver a ser particularmente vivo, a fotografia também não vai representar isso. É impossível mentir muito com… quer dizer, não está ninguém a saltar. – L. M.

Tipo, “Faz-me bonito…”  e eu digo, “Não vai dar”!  (risos) – V. M.

Porque não vai dar. Portanto, um concerto parado vai ser um concerto em que a fotografia vai representar isso. É muito giro estar num concerto como, este por exemplo o de Ty Segall que se calhar foi dos mais enérgicos dos últimos tempos, porque as fotografias também vivem isso, o público passa a ser também um elemento fundamental na fotografia. Continua a dar-me muito gozo continuar a vir fotografar os concertos, não tenho muito aquilo que a Vera tem do retrato, embora obviamente que é engraçado fazer em particular quando é bem feito como a Vera faz… – L. M.

Ah, muito obrigado, nunca me tinhas dito isso! (risos) – V. M.

Isso é só ele que te está a agradar.

Exacto. (risos) – L. M.

Isso é porque te fiz um retrato muito giro no outro dia! – V. M.

Exacto, é isso! (risos) Mas obviamente, quando o resultado é bom (e isso também depende muito do fotógrafo) e outra vez, a Vera no trato com as pessoas coloca-as à vontade e é preciso também ter muito essa apetência, falar um bocadinho, não apontar logo a máquina. Eu, honestamente, não procuro muito isso, gosto da parte em que se está a passar alguma coisa e estou a ver isso, e agora vou registar o meu olhar sobre uma determinada coisa, que não é preciso ser representativa, é a maneira como eu estou a olhar. Há coisas que penso que fazemos os dois frequentemente em concertos que é fotografar pés, fotografar mãos a tocar guitarras, fotografar mãos a tocar pianos, fotografar detalhes, tatuagens… – L. M.

Sim. – V. M.

Há uma fotografia lindíssima, que penso que seja tua, Luís, que é uma mão a puxar uma saia… 

Ah, sim sim, é. Foi na Marissa Nadler. Porque, outra vez, o concerto que se estava a passar à minha frente não ia variar muito de música para música. O que se estava a passar à frente do palco foi sempre a mesma coisa. Mas há detalhes, há maneirismos que as pessoas têm, há formas que ao fim de 30 minutos em que as pessoas estavam… se ela estava em pé ou estava sentada, a forma como ela estava em pé ou sentada vai ser diferente . Reparei no momento em que ela começa a agarrar no vestido enquanto está a cantar…. pronto, são detalhes assim que às vezes informam mais o olhar do que é que foi aquele concerto. – L. M.

Exactamente, o que foi o próprio concerto… 

Sim, e nós estamos tão próximos, que se calhar quem está lá atrás nunca vai ver aquilo. E aquilo pode ser uma coisa muita bonita. No Ty Segall, as miúdas antes tinham muitas tatuagens nas pernas e para nós aquilo era uma coisa que estava ali, à nossa frente, mas quem estava lá atrás não via, e agora tens ali aquela cena especial. Um pormenor importante, que só nos apercebemos quando estávamos a reunir as fotografias. Ele quase só fotografou concertos com miúdas e eu quase só fotografei concertos com homens. – V. M.

É verdade (risos) Mas acho que ainda não fizemos o exercício de olhar para o livro e ver se isso é mesmo verdade… – L. M.

Não, no livro não, mas nós chegámos a essa conclusão. – V. M.

Ah, acontece.. acontece muito eu vir fotografar concertos com raparigas e a Vera com rapazes. – L. M.

Mas é coincidência ou acham que é a estética que é mais apelativa? 

Não, acontece… (risos) Não me apetece nada ouvir aquelas miúdas choninhas que o Sérgio às vezes marca e o Luís encontra para ali algum tipo de incentivo.

Vera&Luís 02

Tanto eu como a Vera viemos fotografar o Thurston Moore. E tanto eu como a Vera viemos
pelas mesma razão, porque é o Thurston Moore e é incrível. Quando viemos os dois fotografar a Kim Gordon, não era mais do que por isso. Mas sim, quando começámos a olhar para as coisas vimos essa relação. – L. M.

A própria construção do livro, como surgiu a ideia? Foram os 20 anos da ZDB?

Mais ou menos. Muito rapidamente, no ano passado fiz uma fanzine só com fotos de músicos portugueses e a Filipa [Valadares], que nos ajudou um bocadinho na montagem do livro – ela tem uma livraria de fotografia, na Rua do Norte – a STET – e ela perguntou-me, “Então, e o que é que queres fazer a seguir, hã?” E eu, “Oi? Então? É suposto fazer mais?” E rapidamente respondi “ZDB”. Sem pensar nos 20 anos. E depois de pensar um bocadinho no assunto, pensei que queria partilhar a experiência de ter um livro cá fora e falar com pessoas como vocês e partilhá-la com alguém e o Luís era a resposta óbvia, que poderia completar muito mais aquilo que já tinha, porque ele fotografou muitas coisas que eu não fotografei, porque ele faz as coisas de uma maneira um bocadinho diferente da minha e porque eu não me queria armar em campeã de “Só eu é que fotografo na ZDB”. Coincidentemente, são os 20 anos. Então, óptimo. – V. M.

Uma óptima prenda.

Foi uma óptima razão, um óptimo presente, mas no início isto é uma vontade minha que quero partilhar com o Luís e ele diz-me, “Claro que sim, que quero fazer isso contigo.” Primeiro dei um pontapé no rabo da Filipa. “Como é que é, agora tens que produzir.” E depois de um desafio que eu lhe levantei, partilhámos a ideia com o Sérgio e ele obviamente que disse “Claro que sim!” E isso é super fixe, mas decidimos fazer tudo por nós, é uma edição completamente financiada por nós, também para fugir a outros dedos na parte que toca a escolher. Porque nós já estamos muito minados, de “Gostei muito deste concerto, gostei muito deste, aquele diz-me alguma coisa, aquele não me diz nada.” O Sérgio já tem “Isto foi importante, isto foi a celebração do aniversário”. Ele até hoje me pergunta, “Então, mas não está fotografia nenhuma do concerto dos Konono [Konono nº1]…”Sim, mas essas imagens não me dizem nada… cada um tem as suas razões para escolher as imagens, então nós pensámos “Vão ser as nossas razões, ponto final”. E tivemos essa liberdade… e a sorte da ZDB dizer “Então está bem, vai lá celebrar a coisa”. – V. M.

Sim, nós fizemos aqui o lançamento. – L. M.

Numa festa muito bonita. – V. M.

Foi muito giro. – L. M.

Sim… – V. M.

Mas obviamente que a relação existe [livro e 20 anos  ZDB], mas a ideia do livro vem mais do nosso lado. Nós concretizámos e basicamente fizemos tudo e mais alguma coisa. Desenhámos o livro, escolhemos as fotos, falámos com as gráficas… – L. M.

E o processo de escolha? Como é que foi entre vocês?

Foi mais pacífico… – L. M.

Foi incrível. – V. M.

Basicamente a Vera escolheu as fotografias favoritas dela, que ela tirou, eu escolhi as minhas, juntámo-nos uma tarde e começámos a olhar para aquilo que tínhamos. – L. M.

A tentar casar as coisas, não é? – V. M.

Fizemos um primeiro ensaio, percebemos que precisávamos ali de mais uma ajuda externa… entretanto, procurámos a ajuda de duas pessoas, a Ágata Xavier e a Filipa Valadares. – L. M.

VeraLuís-Horizontal-07A Filipa, numa fase muito inicial, para nos ensinar literalmente a paginar o livro, a montá-lo. E a Ágata na parte da edição das fotografias. “Ágata, este foi o conjunto de imagens que nós escolhemos, o que é que tu tirarias, o que é que tu colocavas mais.” E ela foi muito útil a fazer este jogo de pares, que é algo muito importante. É muito difícil tu contares uma história e teres uma cadência num livro que são só fotografias de concertos e alguns retratos, e ela deu-nos essa base, e sugeriu, “Olha, vamos tentar casar imagens pelo menos a pares.” E acho que isso foi um exercício que nos correu muito bem. A parte da organização da imagem, com o que é que abres, como é que funciona, com o que é que fechas, já foi um trabalho feito do nosso lado e depois pela Filipa. Elas foram muito úteis nisto. O meu outro livro foi todo um trabalho muito diferente deste, em que é mais um objecto em que tu podes mexer, manusear e tudo mais, e isso foi feito com uma designer logo de início, a Sílvia Prudêncio, que trabalha aqui com o pessoal da ZDB. Desta vez, não foi de todo possível ter a ajuda dela na fase mais inicial do projecto e acabou por ser o Luís a montar as coisas todas no Windesign, porque ele tem skills de designer, apesar de não ser a formação dele, mas esta escolha, este casar de imagens foi entre nós e estas duas pessoas que nos ajudaram. – V. M.

Mas isto, estamos a falar se calhar de tudo somado, de 5/6 momentos. – L. M.

Sim. Demorou muito tempo, porque começa em Dezembro… – V. M.

Sim, alongámos… – L. M.

Acaba não sei quando, mas reuniões efectivas entre nós foram 5/6 vezes. As reuniões nem eram assim tão produtivas. – V. M.

Não falávamos mais do que trabalhávamos… – L. M.

Mas conseguimos chegar a bom porto, acho eu. – V. M.

Bem, acho que podíamos ficar aqui a falar a noite inteira, mas só para acabar, queria fazer-vos uma última pergunta. Se alguém vos telefonasse e dissesse, “Vem retratar-me…”

Vem-me fazer um retrato? – V. M.

Sim. Quem é que vocês quereriam?

Ah! Se pudéssemos escolher? Ahhh… hummmm… vá, começa tu, Luís. – V. M.

O Aphex Twin. – L. M.

Sim. Mas músicos? Têm que ser músicos? – V. M.

Acho que ele tem uma daquelas caras que ele até já utilizou como elemento em vários vídeos e em vários elementos gráficos… é uma cara incrível… sim, acho que gostava muito de fotografá-lo. – L. M.

Então olha, eu tenho dois crushs de adolescente. – V. M.

Acho que consigo adivinhar. Acho que seria o Devendra Banhart. – L. M.

Tanammm! – V. M.

E o gajo de Deftones, o… – L. M.

Chino Moreno. Mas, a verdade, é que acho que iria ter uma grande dificuldade em fotografá-los. Porque é, tipo cenas de adolescente. Falando em caras incríveis e gajos com presenças surreais… o Nick Cave. – V. M.

Sim, acho que é uma boa escolha. – L. M.

Mas, por cena adolescente, de ter os cromos, dizer “Está lá!” – V. M.

Eu, o Chino Moreno. – L. M.

O Chino e o Devendra. Mas se for para ser assim, personagem, para saberes que vais ter um retrato impecável, o Nick Cave. Mas posso-vos dizer que a maior parte das vezes entusiasmo-me muito com pessoas que conheço e uma razão que me leva logo a querer estar mais com alguém é se tenho essa atracção por fotografar essa pessoa. Se há um twist qualquer… não precisa de ser uma miúda muito bonita ou um homem muito bonito, ou seja lá o que for, há qualquer coisa que me atrai em alguém, e regra geral eu tenho conseguido ser bem sucedida nisso que é chegar à fala com pessoas e virar amiga, até, e muitas vezes começa nessa vontade de fotografar. E tenho, neste momento uma pessoa assim, em stand-by de ser fotografado. Eu já o fotografei, mas quero fazer uma coisa mais especial. E podem ser anónimos perfeitos… e agora aconteceu com o Bruno Ferreira, a última pessoa que nós entrevistámos para aquilo do Boca-a-Boca, era uma pessoa que eu… the first place é instagram, choquei com aquela pessoa, e pensei “Quem é este gajo?” Faz video-clips de Linda Martini. Acabei por conhecê-lo, mas quando eu o vi, a primeira vez que vi uma fotografia dele e que o vi, a minha força inicial era querer fotografá-lo, querer ter um momento em que gostava de fotografá-lo. E isso já aconteceu. Mas isto acontece com perfeitos anónimos, o thrill não vem daí. E acho que sempre que gostas muito de alguém, de um namorado ou de uma coisa assim qualquer, é uma coisa fixe de partilhar (pelo menos se a pessoa não for muito esquisita, não é?) Mas sim, vai: Chino Moreno, Devendra e… – V. M.

E Aphex Twin. – L. M.

Nick Cave. Mas não, não é essa a cena, eu já não tenho isso de curtir bué fotografar aquela banda, eu já não tenho isso. Tenho… estou desejosa da noite de Paus, Linda Martini e Filho da Mãe. Isso estou desejosa, sei que vai ser super divertido e incrível. E esgotado e apertado e suado, com bué gente a voar e sem luz (risos). Vão ser a p&b de certeza, garantidamente.(risos) – V. M.

Pedro Almeida & Luís Custódio

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