Viet Cong - Viet Cong
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Quieto e em silêncio é que não andam as colheres deste jornal; podem até ser estranhas, esquisitas ou desconhecidas, criar fricções e aversões, mas não são quietas. Nem mesmo na experiência mais inútil o silêncio impera, bem pelo contrário. E, por momentos, penso que adormeci com a televisão ligada. Acordo sobressaltado, mas rapidamente percebo que foi a janela que ficou aberta.

Entra-me em casa milhares de maratonistas com camisolas fluorescentes que me encandeiam a caminho da mesa escura. E, de repente, estou onde é impossível estar, flutuando nesta marcha do progresso, a caminho de um futuro incerto. Entre o incompreensível minimal repetitivo e o depois do punk, estranha-se, entranha-se, arrepanha-se as frases e as palavras a dar um nó apertado para segurar a estabilidade de um todo que tende a fugir, a mudar e a reinventar-se. E crescem a olhos nus, tornam-se grandes, alargam e incham-se de sons, de particularidades, de pormenores e de inquietude.

Sempre a uma velocidade constante dentro das várias acelerações e travagens, este autocarro Viet Cong não tem publicidade de lado nem destino à frente. E, quando o hábito já mora na memória do monstro, eis que as silhuetas dos maratonistas desatam a correr pelas paredes, ora de um toque branco, ora de uma cor diferente.

Para sobremesa, um longo caminho a percorrer em tons de progresso, repetindo aqui e ali as mesmas cores, adicionando uns pozinhos de claro e escuro, evoluindo, parando estrategicamente para marcar uma posição de arranque para o nível seguinte, como num jogo de computador com consecutivos níveis infindáveis só mesmo comparável ao jogo do galo. Vezes e vezes sem conta, o mesmo de tudo, o mesmo diferente a crescer, a crescer até à morte. E depois da morte, e quando menos se espera, ao invés da calmaria de se estar morto, vem a vida esquizofrénica, vivida toda em passo acelerado, como que a reviver num só momento, com pressa, a correr atrás do prejuízo, do comboio que sai agora e não espera, como que a viver com medo de não ter vivido tudo.

O Viet Cong vive no psicadelismo do post-punk progressivo, sem novidades aparentes, nem sensações relativas, na era já vivida, e no revivalismo por viver. Ideal para se consumir num bar vazio, sem preconceitos, sozinho ou aos vinte no quarto fechado à chave em dia de discussão familiar enquanto se dobra colheres de jornal com a mente atrás de uma prateleira continental trazido de um velho bunker com cheiro a morte e silhuetas usadas nas experiências sem sentido durante a marcha do progresso.

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