O tempo não volta para trás. Nem uns dias, nem vinte anos. Nem engole as feridas nem as marcas das disparidades de negros e cores surreais afectadas pelas observações que podemos fazer daqui deste exacto momento sobre decisões, posições e alterações que qualquer entidade viva sofre sentada nas mãos de Cronos. O tempo não volta para trás, mas o tempo passado volta sempre a ti. Consegues ouvi-lo? Consegues ouvi-lo, Deus? Mudamos agora de posição e vens tu subir as montanhas sagradas e impregnadas de humanidade pegajosa e de falhas imperdoáveis. As tuas e as nossas. Queres trocar, Deus? Eu sou tu mas em humano e tu és eu mas em menos que humano. O tempo não volta para trás nem uns dias nem vinte anos mas observar é sentir, e os Placebo sabem-no agora melhor do que nunca. Sabem que a arte de ser divino é muito mais valiosa quando se olha a direito, olhos nos olhos. Porquê? Porque…

“We both matter, don’t we?”

São vinte anos de expiação a serem lançados de cima de um palco. São vinte anos a serem dissecados laboratorialmente em cima de um palco. Um mesmo palco que recebe agora e celebra um carrossel de excessos que parou para deixar entrar um reencontro do ser. A mesma banda que como tantas outras vezes encheu o Coliseu de Lisboa, mas uma banda que não retirando um milímetro ao legado decadente e glamoroso que os colocou como uma espécie de voz anárquica algo menos que geracional mas principalmente filosófica e inspiracional, se encontra agora na plena capacidade de saber quem é, que o que diz pode mudar o mundo de alguém e que o peso das palavras é agora sentido e entendido e as histórias que montaram os dias, um a um ao longo de vinte anos, são tão pesadas porque são violentamente reais. Brian vive agora as suas palavras em pleno exercício de aceitação como se se observasse a si a viver-se em camadas de realidade que por sua vez observam um passo atrás a cada passo em frente. Brian reconhece Brian a reconhecer Brian a encontrar Brian a revisitar Brian.

A noite termina e o tempo não volta para trás. “Running Up That Hill” de Kate Bush reinventa-se e os ecos sagrados do original acabam em torção e processo de remodelagem num remoinho negro, electrónico e hipnótico. O final desacelera o passado rápido, o dos encores e de nós e deles. O olhar de Molko, colocado ao alto e replicado em leds no fundo do palco do Coliseu, assume-se como o olhar de quem está finalmente consciente, de quem questiona. Brian reconhece Deus no seu próprio som.

A dor adolescente que todos ainda trazemos marcada nas segundas e terceiras camadas de pele fragilizada de “Teenage Angst” não volta para trás. Não volta mas também não perdeu o poder divino de embalar e de aconchegar mesmo sabendo agora que o que era verdade há vinte anos é hoje, em pleno acto de decomposição viva, ainda mais verdade. Agora sem vícios e sem véus de irrealidade narcótica é mais claro que tudo estava condenado a ser normal e a ferocidade da juventude, tal como o verniz e o eyeliner pintados de fresco de “Nancy Boy” agora quase ausente de quem não está no palco, lentamente se foi apagando de tantos e ajustando a outro tipo de batalhas. Os Placebo vencem a deles no primeiro encore da noite com a sobriedade de quem domina os segredos de como sobreviver a décadas de overdoses de tudo que fica do lado de lá, nos terrenos saborosos do pecado. Podes correr mas não te podes esconder da vingança do  tempo, e “Infra-red” fecha a trilogia com o pulsar vivo de que quer levar todos para fora da Terra.

Placebo Coliseu de Lisboa

Placebo Coliseu de Lisboa

Porquê…? Porque we all matter, don’t we?

“For What It’s Worth” abre o segmento rápido do concerto e valha o tempo o que valer, a linha do tempo dos Placebo sempre foi feita de sangue e suor e lágrimas. E é quase numa linha de tempo nada concreta que Molko e Olsdal desenham a festa de aniversário de um aniversário – que foi efectivamente em 2014 e, inconscientemente ou não, mais celebrado tanto pela banda como pelo público na passagem dos Placebo pelo Coliseu dos Recreios em Novembro desse ano –, de forma assumidamente esquematizada. Uma setlist repetida ao longo de toda uma tour que já se arrasta desde Outubro do ano passado e arrumada por graus de intensidade ganhou velocidade com um dos temas maiores do primeiro capítulo da segunda fase da carreira da banda inglesa. Incompreendido tal como Black Market Music tinha sido nove anos antes, Battle For The Sun marcava em 2009 o começo do processo de assimilação de uma outra realidade… a sobriedade. E valha o que valer, “For What Is Worth” é uma peça basilar na carreira dos Placebo e arranca a noite para o banho de suor. “Slave To The Wage”, “Special K”, “Song To Say Goodbye” e a amargura final das guitarras de “The Bitter End” cumprem aquilo para a qual foram destinadas esta noite. Exorcismo catártico de demónios vários tão vívidos e próximos na linha temporal dos 20 anos de sangue, suor e lágrimas e a efectiva celebração que até então tinha sido essencialmente interna.

 “Weeping wounds that never heal”

E abertas estão as feridas fechadas por um passado que não volta a ser. Ainda faltam mais 20 anos ou já estavam prometidos estes primeiros desde 2006 e “Twenty Years” hoje é reduzida a pouco mais que palavras. Stef e um piano, uma guitarra tímida, um pedido agressivo mas escondido para guardares o telemóvel e um crescente levitar pesado que só descansa na crueza desesperante de “I Know”. As expressões marcadas de Brian transformadas em espelhos da consciência de cada letra, cada sílaba. O olhar… o olhar de quem entende na pele a solidão, o afastamento, a idolatria demente. As guitarras que esmagam e que novamente evoluem do silêncio à demolição emocional. “Devil In The Details” e “Space Monkey” deixam apenas respirar pontualmente para todo o oxigénio ser amputado de forma brutal pela descrição letra a letra da insanidade da perda do objecto amado. “…at night under covers as he’s sliding into you Does it set your sweat on fire?”

Coincidência ou não, mas “Exit Wounds” abre caminho a dois dos clássicos mais intensos e angustiantes da carreira dos Placebo, “Without You I’m Nothing”, que não deixa de dizer adeus a Bowie através de imagens projectadas no fundo do palco e “Protect Me From What I Want”, que se tornou numa epifania mutável com o passar dos tempos. Da leitura de antes sobre drogas e decadência ganha um novo foco com Molko a apontar para os telemóveis ao alto e para a substituição do real pela tecnologia. “36 Degrees” vem de mansinho como bom introvert que Brian diz ser e “Lady Of The Flowers” simplesmente sucks us in para um estádio de dor penetrante de agonia e negação. The end… e Brian resume-se bem a si mesmo e à imensa nuvem negra de nostalgia e contemplação do passado que ainda sangra com as palavras…

Placebo Coliseu de Lisboa

Placebo Coliseu de Lisboa

I don’t know about you but this was fucking intense for me

O tempo não volta de todo a ser o que era e “Too Many Friends” sabe-o bem. Escrito para cuspir na cara das redes sociais é recebido por um enxame de luzes de telemóvel. O passado demora a ser o futuro e até o círculo poder dar a volta, “Too Many Friends” vive emparedado entre a mensagem e a realidade. A mesma realidade que pragueja contra as mentiras e a política em “Sleeping With Ghosts” – hoje tocada em versão “Soulmates”, a reconstrução da música editada como lado B de “This Picture” –, e a mesma realidade de “Special Needs” e da vontade de voltar a caminhar em “Lazarus”. A constante inconstância das temáticas dos Placebo a contar uma história, a sua história.

Uma história que começa pelo fim mesmo que o tempo não exista e não possa voltar atrás. Uma história que é contada por Stefan e Brian de pés firmes na luz e no presente. Como se antes de darem início a uma viagem de milhares de minutos que nos separam a todos de 1994 e de uma Londres num mundo que já não existe fizessem questão de dizer que a vida é agora e que estamos perante, além de uma celebração, de uma despedida e de um nova alvorada para os Placebo que já por diversas vezes avisaram que o futuro traz sons diferentes e uma evolução para terrenos a explorar com Life Is What You Make It e A Place For Us To Dream a colocarem mais um separador, o separador que dá início aos próximos vinte anos. “Every You, Every Me” e uma história contada inversamente a todas as histórias de uma vida de uma banda. Um palco vazio e uma sala cheia. Um vídeo na tela que não entrega Olsdal, Molko, Fiona Brice, Bill Lloyd, Nick Gavrilovic e Matt Lunn às luzes quentes de Lisboa mas que abre espaço à avalanche de decibéis que chegava dentro de momentos com “Pure Morning”, a exaltação do Amor Universal em “Loud Like Love” e a afirmação pública e definitiva que os Placebo são hoje uma entidade de luz e espiritualidade de “Jesus’ Son”.

Valha o que valer o tempo, os Placebo valem o que fizeram dele em duas mãos cheias de tudo e de canções e contra modas e correntes. Duas décadas e sete discos depois Stefan Olsdal e Brian Molko são mestres de cerimónias de quase silêncios e de ensurdecedoras paredes de som. São tantas as palavras para escrever sobre o tempo que não passou mas cavalgou com todos nós durante vinte anos mas nenhumas são como o toque dos lábios na poesia de Molko por isso…

Stand to attention, the moment’s passed you by/Now is the rest of your life!

Placebo Coliseu de Lisboa

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