Vision Fortune - Night Jukes
85%Overall Score

Previamente lançado em formato cassete, Night Jukes foi reeditado em Agosto de 2013 pela Cardinal Fuzz Records, em vinil. Como a preciosidade que é. Este trio londrino composto pelos irmãos Austin e Alex Peru e pelo baterista Andreas Cuatroqueso, descarrega drone da mais alta qualidade com a facilidade irritante e intrigante de quem joga em casa e joga bem.

O EP arranca com “Heavy Saddles”, uma quase-agressão repetitiva, dura e directa ao inconsciente, marcada por uma guitarra seca, uma secção rítmica que serve, acima de tudo, como compasso e o componente electrónico onde se molda uma tridimensionalidade sonora que abre o espaço para o universo em que se entrou. E é exactamente quando nos apercebemos de que estamos a ser levados que surge “Drag” a fazer lembrar, de algum modo, a experiência, dir-se-ia religiosa, dos OM (ainda que, ao contrário destes, não se sinta tanto a viagem; com Vision Fortune, vive-se o processo de descolagem com toda a intensidade).

Mantemo-nos num registo semelhante com “In My Father’s House There Are Mansions”. Ouvem-se ecos de ragas e Médio Oriente, a intensidade esvai-se um pouco e o lado hipnótico ganha corpo. A faixa final, “Black Ocean Glow” é, provavelmente, a grande maravilha de Night Jukes. A suavidade com que arranca é, à falta de melhor palavra, encantadora e daí nunca se desce abaixo disso. Existe voz – como, aliás, ao longo do EP – que não reclama espaço de destaque, fundindo-se na perfeição com os restantes instrumentos: um saxofone entre névoa (que, com a sua suavidade, poderia muito bem ser Dana Colley), um contrabaixo a oferecer veludo e tudo segue até ao desvanecer da música, lento e tranquilo, como se pretende numa descida.

Não é muito fácil falar deste EP. Sendo, acima de tudo, algo que se sente (sem qualquer espécie de lamechice – não há mesmo outra palavra), algo que envolve, é complicado manter não ser levado para longe, para a trip que se esperava que existisse. E existe. E é melhor do que isso. Às vezes, não é preciso falar das coisas. Neste caso, basta ouvir. Muitas e muitas vezes.