Escrever sobre Paredes de Coura é ingrato porque não é desprovido de amor. E tudo o que se fala com amor influencia os sentidos de quem lê. E, como esta não é uma peça informativa mas de opinião, reservo-me o direito de transparecer alguma emoção para quem me lê apesar das críticas, boas ou más, aos concertos.

Há vários tipos de amor mas há um, em particular, que se insere no fenómeno Coura. Aquele amor à primeira vista que leva os mais racionais a questionar as vidas passadas e os encontros com sítios que nos trazem memórias que nunca tivemos e que nos oferecem uma casa, que desconhecíamos, mas que andámos sempre à procura. Ver os músicos a passear pelo rio, perdidos em pensamentos, faz-me questionar se, como eu, eles encontraram aquele sítio secreto onde sempre quiseram tocar e onde sempre quiseram ouvir o som da sua música perder-se entre copas de árvores e correntes de rio e encontrar-se nos braços do público que, durante 365 dias, sonha em ali voltar, aquele lugar onde todos somos felizes, sempre. É assim que eu vejo Paredes de Coura, um refúgio de esperança, uma peregrinação que dura um ano e que culmina no Minho.

20 de Agosto

O primeiro dia do Festival Vodafone Paredes de Coura 2014, arrancou em força no anfiteatro natural da praia do Tabuão. Com todos os concertos a acontecerem no palco principal, foi grande a afluência de pessoas.

Às 21h a portuguesa Capicua abriu as festividades com um hip-hop morno com referências políticas e sociais gratuitas como a absurda dedicação de um tema às “mulheres que atravessam o Tejo todos os dias para ir trabalhar, de cacilheiro ou autocarro (…) e que lutam contra o patriarcado opressor do colonialismo”. E assim continuou com textos à Margarida Rebelo Pinto de esquerda.

A música chegou pelas 22h30 com Cage The Elephant. Os norte-americanos do Kentucky mostraram que o poderio do punk rock em fusão com o rock genérico pode resultar na rendição do mais alternativo dos melómanos. Matt Shultz deu tudo o que tinha para dar em palco, numa entrega total ao público português que resultou no êxtase de uma multidão que se entregou ao moche e ao crowdsurfing juntamente com os membros da banda que procuraram o auge da adrenalina ao se entregarem nos braços do público. Sem camisa e numa actuação digna de um Iggy Pop indie, Matt e os seus companheiros tocaram êxitos antigos e apresentaram Melophobia (medo/aversão a música) o terceiro álbum de estúdio da banda que, com a performance oferecida, claramente trouxeram a cura. Temas como “Cigarette Daydreams”, “Ain’t No Rest For The Wicked”, “Come a Little Closer” ou o tema do último álbum em colaboração com Alison Mosshart “It’s Just Forever”, roubaram todas as atenções do primeiro dia de Paredes de Coura e ditaram o mote de qualidade para os próximos dias. Será difícil superar.

Quem se seguiu foi Janelle Monae. O blues foi oferecido num concerto que agradou aos presentes e terminou com dois encores. Um espectáculo demasiado formatado e entregue como um produto pouco natural e espontâneo. Recheado de coreografias num cenário a preto e branco retirado de um programa de televisão dos anos 60, Monae chegou ao palco carregada por dois homens e num colete-de-forças, ideia que reforçou no final quando a retiraram do palco num teatro de manicómio com a “actriz2 a resistir a abandonar o mesmo. O repertório não é dotado de variedade melódica; sendo todas as músicas muito parecidas umas às outras, o desafio principal é distingui-las. Só me consigo lembrar de um tema e não era dela, foi o cover do tema “I Feel Good” de James Brown.

A responsabilidade de fechar o Palco Vodafone no primeiro dia de Festival, ficou a cargo de Public Service Broadcasting. A banda que musica filmes antigos e os projecta ao vivo como parte integrante e fundamental do espectáculo, deixou algo a desejar. O que parecia prometer com a originalidade do conceito, espalhou alguma frieza e aborrecimento. O contacto com o público, através de processadores de voz, também não ajudou à aproximação e perdeu-se o que poderia ter sido o concerto da noite. A noite terminou com o Dj Set de Cut Copy, no palco Vodafone FM que, só abrirá oficialmente, amanhã.

21 de Agosto

O português Fast Eddie Nelson abriu o Palco Vodafone FM com o seu bluegrass do Barreiro e fê-lo com a autenticidade que lhe é inerente. Descalço, de guitarra em punho e voz arranhada, ofereceu o primeiro momento de puro rock do festival. Apresentou o seu novo trabalho There’s No Place Like Nowhere, editado pela Raging Planet, e conquistou o público.

Os Panama seguiram-se no Palco Vodafone FM e seduziram com a sua electrónica fofa, um género que devia ter sido reconhecido há muito tempo. Músicas que fazem o público sorrir, dançar e sentir-se bem, sem nenhuma culpa. O palco secundário ficou marcado pelo concerto de Thee Oh Sees. Os californianos de São Francisco e o seu rock psicadélico eram aguardados com expectativa. O concerto foi intenso, tão intenso que chegou ao ponto de ser interrompido por John Dwyer (o único membro da formação original da banda) ao avistar desacatos entre o público e os seguranças. O clima foi de pura adrenalina.

O White Haus Album dos portugueses White Haus fechou com chave de ouro as actuações de bandas no palco Vodafone FM do dia 21 se Agosto, com a competência absoluta de João Vieira. Electrizante e dançante, a electrónica berlinense que brota da música de White Haus fez a cama para o DJ Ivan Smagghe.

No palco principal não há como não destacar a grande actuação de Seasick Steve. O americano nómada, de barba longa, jardineiras de ganga, boné e garrafa de vinho na mão, é o exemplo mais fiel do blues rock do Tennessee, tocado em bares de beira de estrada poeirentos. A autenticidade é tão grande que somos teletransportados para uma américa rural, com guitarras artesanalmente feitas, letras que falam do quotidiano e da rebeldia do homem livre. Seasick Steve é uma força da natureza com alguma ajuda do álcool para que a realidade seja um encontro entre o que vemos e o que imaginamos.

O queridinho do indie, Mac DeMarco subiu ao Palco Vodafone às 21h20 e deu o seu espectáculo. Como seria de esperar, o público subiu ao palco, houve derramamento de bebida e o clássico momento em que Mac DeMarco se besunta em batom vermelho. Quanto à música? Houve pouca. Recheado de falhas, ele apresentou as músicas insonsas e indistinguíveis do seu último trabalho, poupando-se algumas do primeiro EP que foi, provavelmente, a melhor coisas que ele fez. Não foi marcante.

Os escoceses CHVRCHES seguiram-se no palco principal e, apesar da timidez da vocalista Lauren Mayberry e uma inocência que facilmente se confunde com medo do público, deram um concerto sem falhas. Num registo electrónico que conquistou a indústria musical de forma meteórica, os CHVRCHES são uma banda que só com o tempo perceberemos se foi uma moda efémera.

Os Franz Ferdinand encerraram o Palco Vodafone do dia 21 de Agosto de forma apoteótica. O público aderiu de esfusiante, com moche, dança, tochas coloridas e gritaria. O alinhamento do concerto foi incrivelmente inteligente, oferecendo ao público todos os grandes êxitos seguidos dos temas do novo álbum e de momentos mais rock, atingindo o ponto máximo do êxtase aos primeiros acordes de “Take Me Out”. Foi um concerto que deixou o público feliz e satisfeito.

22 de Agosto

O Palco Vodafone FM foi marcado por Yuck, Perfect Pussy e Cheatahs. Como não vi o concerto de Perfect Pussy, não faço considerações. Os britânicos Yuck são um fenómeno que recupera características de Sonic Youth e Dinosaur Jr. num noise rock actual e, ao tocarem “Georgia”, fizeram o concerto da noite no palco secundário. O shoegaze dos Cheatahs deu o mote nostálgico da noite, trazendo à memória bandas como My Bloody Valentine ou Ride, no entanto, com muito menos talento e competência. Mesmo fora do que seria o top do shoegaze actual, o tema “The Swan” é um bom embaixador do género.

A abertura do palco principal esteve a cargo dos portugueses Killimanjaro que o fizeram com distinção. Muito jovens e já com grandes referências musicais que, claramente, passam pelos primórdios de Pink Floyd, apresentam temas encorpados de longa duração e riffs inspirados. Num rock instintivo que passeia pelo psicadelismo, os Killimanjaro, ao contrário de muitas bandas portuguesas, são despretensiosos e podiam ter saído do submundo londrino.

Seguiram-se os Linda Martini. O que dizer sobre Linda Martini? É um fenómeno incompreensível. Compreensível se assumirmos que foi construído por opinion makers e promotores. Com um último álbum inaudível, de um rock datado dos anos 90, os ratos não me devoraram, mas eu rezei muito para que isso acontecesse já que o palco secundário se encontrava num hiato inadmissível. O pós-hardcore dos Linda Martini, a ser estrangeiro, dos subúrbios de Perth ou Londres, seria totalmente ignorado pela crítica e pelo público português. No entanto, eu reduzo-me à minha insignificância de quem afina o barómetro dos piores álbuns do ano pelos melhores álbuns do Blitz e dou a visão descomprometida do espectáculo: o público pareceu gostar. E é isto.

From Atlanta, Georgia, ladies and gentlemen: Black Lips. Foi o momento da noite onde o público deu tudo o que tinha a dar em solo Courense! O anfiteatro natural da praia do Tabuão ficou inundado por uma nuvem de pó que se soltava do chão pelo moche e dança frenética. Apesar de não haver em palco nenhuma performance chocante como os Black Lips nos têm habituado em outros certames, houve a entrega ao garage rock- lo-fi de forma genuína e sem prejuízo legal. Êxitos como “O Katrina!” levaram toda a gente a sentir-se como um adolescente e a entregar o corpo ao manifesto do rock.

Dia 23 de Agosto

O último dia despertou com Sequin, no Palco Vodafone FM, e despertou mal. O projecto da portuguesa Ana Miró deixou a desejar, numa actuação sem brilho e sem emoção. O público viria a despertar mais tarde. Hamilton Leithauser entregou-se ao seu pop com classe renascido dos anos 60 como um Frank Sinatra mais alternativo. Não creio que o músico tivesse mais para dar a não ser a sua potente voz e o seu visível amor pelas canções que escreve.

O palco secundário ficou marcado pela actuação dos Goat. O grupo sueco de world music deixou o público em êxtase. Goste-se ou não – no meu caso não – tem de se reconhecer o imenso poderio das actuações ao vivo, marcadas por manifestações teatrais e vestes tribais que imprimem misticismo e mistério como se estivéssemos a participar de um culto secreto.

Os últimos cartuxos foram lançados no Palco Vodafone pelos incríveis Sensible Soccers. Estes músicos não sabem falhar. O público aderiu em massa à da banda de Barcelos, transformando o pit do palco numa imensa pista de dança. Mas a sonoridade dos Sensible Soccers não se fecha num só género; transporta-nos para um espaço sideral onde o corpo não tem peso e só responde às demandas deste quarteto que, no seu psicadelismo mais marcante, imprime uma intensidade quase brutal sobre quem os está a ver e a ouvir.

Kurt Vile And The Violators foi um dos concertos mais secantes do festival. Sem dinâmica nem dimensão, foi doloroso de ver. Os cartazes que se avistavam em Sensible Soccers, apelando ao tema “Sofrendo Por Você”, encaixavam na perfeição nesta actuação. The Growlers foi a banda que se seguiu e ganharam o prémio “Maior pedrada do Festival Vodafone Paredes de Coura 2014”. Uma vénia para estes meninos. Se ingerisse a quantidade de substâncias ilegais que eles devem ter ingerido, com toda a certeza falecia e, eles, conseguiram estar de pé. Só por essa façanha, merecem uma menção honrosa, já que o concerto foi muito pobre. A voz do vocalista Brooks Nielsen esteve longe do seu melhor, arrastada e esganiçada, muito devido ao anteriormente referido e à directa que os levou de Amesterdão até Paredes de Coura. O espectáculo esteve a cargo de algumas peripécias do público que ajudou à diversão subindo ao palco, tornando-se mais numa expectativa de vergonha alheia do que de música.

Vi pouco do concerto de Beirut. Em álbum funcionam muito bem, ao vivo pode acontecer o mesmo mas, certamente, não em festival, não no último dia e muito menos às 21h. A essa hora quer-se alguma dinâmica que se perdeu totalmente neste concerto. O tédio era generalizado. O que não quer dizer que não haja lugar para este género musical em festivais; o problema foi mesmo a falta de energia e carisma dos músicos. No mesmo registo, em 2013, Paredes de Coura ofereceu-nos Calexico, numa apoteose geral.

O Palco Vodafone fechou com James Blake. O aguardado concerto que fez os homens chorar, correu como o previsto, com emoção e intensidade. Apesar da profunda melancolia na música e na voz de James Blake, o músico fez daquele espaço seu e de quem viu acreditar que aquele era o único sítio onde poderia tocar, com as copas das árvores a fecharem-se ficticiamente sobre a multidão guardando todas as emoções de quatro dias.