Os sons começaram finalmente a ecoar pelo confesso ‘habitat natural da música’, onde ontem se deu início a mais uma edição do Vodafone Paredes de Coura, um dos festivais pioneiros e de maior renome do nosso país. Desde 1993 que o festival tornou a pequena vila de Paredes de Coura num dos pontos referência para os festivaleiros portugueses durante o mês de agosto, e 2016 não foi exceção: com lotação praticamente esgotada, a Praia Fluvial do Taboão está desde dia 12 a acolher campistas atrás de campistas para lhes oferecer uma das mais belas experiências em festivais que se proporciona em Portugal.

Para esta edição de 2016, o festival mais ecológico do país apresenta um alinhamento com a variedade com que já nos vem habituando ao longo dos anos; conciliar nomes estabelecidos (LCD Soundsystem), artistas em ascensão (Algiers), descobertas (Whitney) e não esquecer a música portuguesa (Best Youth, Capitão Fausto), não é para todos. Contudo, se há sítio que se possa gabar de conseguir dar vida a tudo isto e de gerir toda esta diversidade de artistas para que funcionem como um todo, é Paredes de Coura. Com o passar dos anos, a sua prioridade consiste em oferecer a simbiose perfeita entre a ‘música’ e o ‘ambiente’, onde a qualidade do cartaz é apenas rivalizada com a beleza do local, sendo a junção entre ambos o principal chamamento para os amantes de música que, afectuosamente, têm-no apelidado de “Couraíso”.

Este dito paraíso regressou em grande para 2016, contando com uma mão cheia de artistas que se estrearam no festival e que estão de regresso – Unknown Mortal Orchestra, Cage The Elephant, CHVRCHES, The Tallest Man On Earth, Portugal. The Man –, com prestígio suficiente para encabeçar as quatro noites do evento. Dia 17 coube à banda de rock psicadélico, com origens na Nova Zelândia, a lidar com o estatuto de cabeça de cartaz, mas a noite contou com mais concertos…

O ‘até para sempre’ e o ‘obrigado’ dos We Trust

Dando início aos concertos desta edição do Vodafone Paredes de Coura esteve André Tentugal e o seu projeto We Trust naquele que, inesperadamente, se revelou como sendo o seu último concerto. Num formato diferente, o artista fez-se acompanhar pela orquestra Coura All Stars, a sinfonia de petizes artistas da região, numa tentativa de recriar toda a parte orquestral presente no seu disco Everyday Heroes. De facto, a junção entre ambos foi uma aposta ganha, com tanto a secção instrumental e vocal a conseguir acompanhar a banda de apoio de André com distinção e sem soar desenquadrado, tarefa um pouco difícil nestas tentativas de juntar artistas e orquestras no mesmo palco.

Desde os primeiros instantes de “Wait Or Love” que André Tentugal demonstrou que a sua última aparição enquanto We Trust fosse memorável: para além da junção com os Coura All Stars, pretendia uma comunhão perfeita para com o público que já se reunia em frente do palco Vodafone – bem composto, para aquela hora –, de forma a despedir-se com um estrondo. Foi exactamente isso que a plateia com que se deparou lhe ofereceu, batendo palmas, cantando um e outro refrão ou até aproximando-se mais das grades, tudo de modo a satisfazer os seus desejos. Outra das benesses com que pode contar, e que o beneficiou imenso, foi ter tocado no final da tarde: “se pudesse escolher um horário para tocar, seria sempre a esta hora, no meio deste lusco-fusco”, confessou antes de se atirar novamente à sua pop alternativa deveras animada.

Os pequenos (mas só na idade e no tamanho) também tiveram direito aos seus cinco minutinhos de fama, nos quais André, juntamente com a sua banda de apoio, abandonou o palco para que “Fading (Chapter One)”, tema puramente instrumental e assinado por uma orquestra, pedindo silêncio. “Não podem nem sequer respirar”, gracejou, para que fosse interpretado pelos miúdos, naquele que foi um autêntico regalo para os nossos ouvidos, relembrando as belíssimas composições que Nobuo Uematsu assinava para a série de videojogos Final Fantasy. Depois dos jovens de instrumentos em punho já terem dado provas da sua aptidão enquanto artistas, chegou a vez do coro da Coura All Stars mostrar o seu esplendor, inundando o palco de cor através das suas camisolas azuis, amarelas, vermelhas e verdes para recriarem o inconfundível refrão de “The Future”, naquela que foi uma das mais aplaudidas da noite.

Pouco tempo depois, chegou o momento marcante do concerto: a confissão de que os We Trust iriam acabar naquele momento. “Após cinco anos de muito trabalho, queríamos dizer que os We Trust vão deixar de haver. Foi uma decisão árdua mas muito ponderada, e achámos por bem que o melhor sítio para terminar seria no festival que nos acolheu e onde nos estreámos em 2011”, conta emocionado recebendo, em troca, uma calorosa ovação de pé, onde até aqueles que se faziam sentar não quiseram deixar em branco o momento. Continuando com “Time (Better Not Stop)”, tema mais conhecido dos We Trust muito graças a um anúncio publicitário da Universidade Europeia, e culminando com “We Are The Ones”, André Tentugal atingiu os objectivos que tinha estabelecido para a noite de quarta-feira passada: entreter o público, mostrar que o futuro está bem entregue aos jovens músicos de hoje em dia e, acima de tudo, concluir o ciclo dos We Trust. Tomando como base os agradecimentos vindos do palco e uma segunda ovação de pé, quis-nos parecer que ambas as partes saíram satisfeitas com o concerto inaugural desta edição do Vodafone Paredes de Coura.

O ying e o yang dos Best Youth

Numa onda completamente oposta, onde a palavra ‘término’ é algo que certamente não consta do seu dicionário, estiveram os Best Youth, a dupla indie-electrónica portuguesa constituída por Ed Rocha Gonçalves e Catarina Salinas. Antes sequer do festival ter arrancado, já os portuenses tinham dado música em Paredes de Coura, tendo assinado a primeira sessão das famosas Vodafone Music Sessions, concertos intimistas em locais emblemáticos da vila. Porém, quando subiram ao palco principal, notou-se um pouco de desgaste por parte de ambos – não é nada fácil dar dois concertos com poucas horas de descanso -, o que acabou por prejudicá-los na medida em que não lhes permitiu levar a cabo uma actuação a cem por cento, tais como outras com que nos habituaram.

Independentemente do cansaço que acusaram, a química indiscutível que existe entre Ed e Catarina permite-lhes ultrapassar este tipo de adversidades e ainda conseguir levar a cabo belíssimos concertos com Paredes de Coura a não ser excepção à regra. Atuando em prol do seu primeiro e único disco, Highway Moon, temas como “Red Diamond” e “Maybe We Can Still Be Friends” fizeram as delícias dos fãs, com palmas sincronizadas a fluírem pelo recinto sem ser necessário a solicitação por parte de Catarina. Em disco, qualquer um fica encantado pela sua doce voz, mas é necessário ouvi-la presencialmente para que esse apreço se torne em paixão: o timbre é doce e suave, contudo torna-se hipnotizante como se de uma ilusionista de circo se tratasse. Enquanto Catarina espalhava charme em palco, coube a Ed Rocha encarnar o papel de bad boy semelhante ao de um guitarrista saído dos anos 70 cheio de pinta e estilo, cujos acordes e solos electrizantes, juntamente com o à vontade que tem entre os teclados, estão a par com a presença da vocalista.

Os olhares ferozes que ambos soltaram entre si durante músicas apenas é substituído pelo sentimento de orgulho e de felicidade de ver dezenas de lanternas no ar durante “Mirrorball”, tema que lançou os Best Youth para a ribalta e que foi o ponto alto do concerto. Mesmo com apenas um disco lançado, a dupla oriunda do Porto – cujo sotaque ferrenho de Catarina Salinas gerou múltiplos “Porto!” vindos do público –, veio confirmar o seu estatuto como uma das mais promissoras bandas pop da actualidade. Nos primeiros instantes da noite, Ed Rocha Gonçalves confidenciou que a última vez que veio ao festival foi no ano de 2000, como um jovem que quis tornar-se músico depois de ver “concertos que mudaram a minha vida. Hoje, espero que este também seja um deles”. Missão cumprida!

A vitória à tangente dos Minor Victories

Os Minor Victories são um supergrupo que reúne elementos tanto de Slowdive (Rachel Goswell), como de Mogwai (Stuart Braithwaite, Martin Bulloch) e Editors (Justin Lockey). Visto que todas partilham em comum o facto de já terem actuado no Vodafone Paredes de Coura em anos anteriores, era mais do que natural que a estreia da banda fosse nesta casa. Contudo, mesmo sendo originários de bandas tão relevantes no universo da música alternativa, a tarefa de conquistarem o público revelou-se tudo menos fácil: as dificuldades técnicas que enfrentaram nas três primeiras canções, bem como o seu único disco ainda ser relativamente recentemente fizeram com que a zona de restauração ou repousar as pernas no relvado do recinto se tornassem opções mais apetecíveis.

Começando com dois dos temas mais emblemáticos do seu homónimo, “Give Up The Ghost” e “A Hundred Ropes”, os problemas com a guitarra de Stuart fizeram com que ambas não conseguissem oferecer a mesma carga emocional quando ouvidas no conforto do nosso lar. Mesmo com os teclados de Justin Lockey a ‘disfarçarem’ – e bem – a falta do instrumento de cordas, a verdade é que o público começou a perder o interesse e o burburinho de ‘bate papo’ entre grupos era uma constante. Superadas essas dificuldades – o amplificador teve que ser substituído –, o concerto seguiu a todo o gás e desde aí foi sempre a subir, compensando-se a falta de guitarra nos temas anteriores com um solo de fazer inveja a Tom Morello em “Cogs” logo de seguida.

Durante a restante metade do concerto, os Minor Victories não sentiram necessidade de correr atrás dos espectadores que lhes voltaram as costas tendo, em vez disso, concentrado as suas atenções naqueles que se reuniam nas proximidades do palco e que ali se encontravam para sentir a música do quarteto. A sua sonoridade rock alternativa com contornos de shoegaze fez as delícias dos amantes do género, sobretudo dos fãs de Slowdive que se manifestavam através de dezenas de tshirts do mítico fenómeno do shoegazing, sendo estes aqueles que mais vibravam com temas como “Breaking My Light” ou “Folk Arp”. Para os mais ruidosos e sem problemas em demonstrar afecto para com a vocalista, Rachel Goswell respondia, no meio de sorrisos carinhosos e sentidos, que “Portugal é dos melhores sítios onde se pode tocar”.

Deixando “Scattered Ashes (Song For Richard)” e “Out To Sea” – “esta é barulhenta como vocês, preparem-se” – para o fim, a noite dos Minor Victories no Vodafone Paredes de Coura assemelha-se à de um jogo de futebol onde a equipa favorita entra na segunda-parte a perder mas consegue dar a volta ao resultado, ganhando apenas pela vantagem mínima. Com um disco tão fresco e inovador, mostrando artistas fora da sua zona de conforto e a aventurar-se em caminhos tão distintos do que aqueles que nos acostumaram – Rachel, como vocalista a tempo inteiro, ou Justin Lockey a ‘fugir’ da electrónica vibrante dos Editors –, os Minor Victories eram um dos grandes nomes a ter em conta no festival; só foi pena que a forte maioria do público não estivesse interessado em conhecê-los.

Unknown Mortal Orchestra com amor para dar e receber

Com o final do concerto dos Minor Victories, as temperaturas dentro do recinto baixaram até aos quinze graus centígrados. Num dia que começou molhado, as condições atmosféricas não estavam muito a favor dos campistas; precisava-se de calor, de quentura, de algo para ebulir os corpos. Para tal tarefa, era necessário alguém à altura do desafio: os Unknown Mortal Orchestra. Desde que se estrearam em Portugal no ano de 2013, neste mesmo festival, o projecto de Ruban Nielson já tocou cinco vezes no espaço de três anos entre Lisboa e Porto, atraindo sempre mais adeptos a cada actuação, mas seria em 2016 que enfrentariam o seu maior desafio por terras lusitanas: encabeçar um festival.

Faltava pouco para a hora marcada e já o esverdeado auditório estava cheio para ver o nome mais apelativo do primeiro dia do festival. No preciso momento em que as luzes se apagaram – agora sim, já era difícil arranjar um bom lugar –, os Unknown Mortal Orchestra foram recebidos por palmas e logo de rompante atiraram-se a uma extensa “From The Sun” com improvisos ali pelo meio. Enquanto se ouviam alguns coros envergonhados, os mais atentos reparavam numa baixa de peso no palco: Riley Geare, o motor que corria a bateria dos Unknown Mortal Orchestra nos últimos três anos, foi substituído por Amber Baker. Em jeito de apresentação, a baterista teve direito a um arrebatador solo de bateria que ligou “How Can You Luv Me” e “Ur Life One Night” como se de uma música dividida em duas partes se tratasse, quase fazendo esquecer que fazem parte do primeiro e do terceiro disco, com quatro anos de diferença a separá-los.

Desde que Ruban Nielson recrutou Quincy McCrary para os seus Unknown Mortal Orchestra em Multi-Love que a presença do teclista transformou por completo as vibes de rock psicadélico dos anteriores discos para uma onda mais inclinada para o funk. A presença de um quarto membro obrigou a que músicas passadas fossem revistas de modo a se enquadrarem no rumo tomado pelo mais recente álbum da banda, o que levou a que temas como “So Good At Being In Trouble” e “Swim And Sleep (Like a Shark)”, tocados de seguida, causassem um pouco de estranheza ao público por fugir um pouco à premissa com que se comprometeram há uns atrás. Contudo, as novas versões oferecem algo de novo para os fãs que acompanham a banda faz tempo e mantêm a estrutura do concerto sem soarem desenquadradas, concerto esse que se apresentou em jeito de best of, reunindo de igual modo músicas dos três discos da ainda curta carreira dos Unknown Mortal Orchestra.

Uma prática recorrente no Vodafone Paredes de Coura é o crowdsurfing do público, mas durante “Stage Or Screen” foi Ruban o próprio a voar no meio de cabeças e dos coloridos chapéus com hélice que viraram moda. Deixando Jake Portrait, Amber Baker e Quincy McCrary a rolar música em palco, o icónico vocalista andou pelo palco de uma ponta à outra, cumprimentou fãs com highfives e deixou-se cair pelo meio da multidão (quase que ia perdendo o boné). Depois do selo de aprovação de Nielson, inaugurou-se os crowdsurfings nesta edição de Paredes de Coura com as seguintes “Ffunny Ffrends” e a grande “Multi-Love”, aquela que era um dos temas pelos quais todos aguardavam. Apesar de serem duas das melhores músicas dos Unknown Mortal Orchestra, a mais recente adição da grupo ainda não possui a mesma destreza e sabedoria dos temas como Riley Geare, e entre enganos e atrasos, já vimos interpretações destas músicas francamente melhores durante um dos três concertos que deram o ano passado em Portugal.

“Can’t Keep Checking My Phone”encerrou o concerto num autêntico festim de cavalitas, saltos e cânticos, tendo sido antecedido pelo novo hino dos festivais de 2016 “E foi o Éder que os fodeu tramou” por parte de quase todo o público ali presente. Com o frio que pairava no ar, que tornou a banca de merchandising como um dos locais mais concorridos do recinto, os Unknown Mortal Orchestra souberam aquecer bem o público, mas quando estes queriam passar do ‘quentinho’ para a ‘brasa’, houve a tramada partida de não ter existido um encore; mesmo tendo temas suficientes para uma meia hora extra de concerto, a verdade é que o grupo não ofereceu mais que uma hora de duração e dez temas. Esperava-se mais de um cabeça de cartaz. Felizmente, este foi o único aspeto que falhou em mais um célebre concerto dos Unknown Mortal Orchestra por cá.

A aposta certa dos Orelha Negra

Quando subiram ao Palco Vodafone, os Orelha Negra enfrentavam três adversários de uma só vez: a) preencher a lacuna de uma banda post-rock a fechar uma das noites do evento, um hábito antigo do festival; b) substituir o papel de DJ das famosas after-hours; c) lutar contra o cansaço do público que se ausentava desde o final do concerto de Unknown Mortal Orchestra. Talvez sabendo dos problemas com os quais se podiam deparar, o grupo composto por Sam The Kid, João Gomes, Francisco Rebelo, Fred e Cruz Fader levou alguns truques de manga para entreter os resistentes e assegurar que mais ninguém iria abandonar o recinto até eles abandonarem o palco. E não é que conseguiram?

Com o seu hip hop fervilhante, os Orelha Negra destacam-se dos restantes grupos dentro do mesmo género a partir do momento em que não têm um vocalista; a sua hip hop instrumental vai buscar influências tanto ao jazz como à soul para produzir temas ricos em sons nunca antes combinados: “não é o post-rock que merecemos, mas sim o post-rock que precisamos”, diria o Comissário James Gordon se andasse pelos lados de Paredes de Coura. Para além da fusão de géneros que implementam na música que produzem, a banda repete a proeza ao apresentarem remisturas de temas bem famosos com uma pitada de Orelha Negra: ainda o concerto ia nos seus momentos iniciais e já se ouvia um mashup de “Bitch Don’t Kill My Vibe” de Kendrick Lamar com “Hotline Bling” de Drake. Ao recorrer a esta cartada, os jovens que se preparavam para voltar para as suas tendas, correram a toda a velocidade para esgotar todas as energias que lhes restavam ao som dos Orelha Negra. Ha.

O alinhamento que o quinteto apresentou pôde muito bem ter sido uma das razões de terem levado a cabo um excelente concerto: em vez de pouparem os seus hits para o final, souberam-nos espalhar durante toda a atuação: “Parte de Mim” no início, “Throwback” a meio, “M.I.R.I.A.M.“ e “A Sombra” para encerrar, souberam cativar o público do festival que ainda tinha bem fresca a memória de Unknown Mortal Orchestra e do crowdsurfing para serem os próprios a darem início à época de surf para estranheza dos Orelha Negra. Primeiro estranha-se e depois entranha-se, não é? Terminado o concerto dos Orelha Negra, pode dizer-se que a primeira noite do Vodafone Paredes de Coura deste ano foi apenas um cheirinho daquilo que ainda está para vir. E com base na noite de hoje, o olfacto não vai ser o único dos nossos sentidos a vibrar no Couraíso.