Por norma, o ser humano dorme, em média, 8 horas por dia. Até abrir os olhos, o indivíduo foge à realidade e deixa-se perder no mundo dos sonhos, das possibilidades sem fim. Por mais apelativo que seja este cenário noturno, o Vodafone Paredes de Coura arrebate-o com a premissa de oferecer um total de 96 horas de sonhos, independentemente de ser o sol ou a lua a figurar o céu. Depois da “recepção ao campista” na noite anterior, o segundo dia do evento expande-se para dois palcos onde subiram artistas cuja música se situa numa encruzilhada entre o real e o imaginário.

Com os termómetros a rondar os 30 e muitos graus, desde cedo que a Praia Fluvial do Taboão foi inundada por banhistas, barcos e os habituais megafones. Para além de festival de música, Paredes de Coura carrega no currículo a possibilidade de ser tanto um retiro espiritual para a alma como um escape entre amigos para usufruir de uma das melhores semanas que o verão pode oferecer; entre os que vieram pela música ou apenas para acampar com os amigos, no final do próximo sábado é certo que todos sairão daqui de coração cheio. Com um clima favorável e que convidava a uns quantos mergulhos ou viagens de barco pelo rio, o ambiente antes dos concertos era de repouso: com Thee Oh Sees e LCD Sounsystem a actuar no mesmo dia, as baterias tinham que estar carregadas para que se pudesse usufruir a noite ao máximo. Mas antes disso, seria o folk a tomar conta do recinto.

Entre Ryley Walker e Joana Serrat, saímos todos a ganhar

O bem-estar que se fazia sentir junto do Taboão tornava complicada a tarefa de trocar o fresco do rio pelo calor do recinto, o que justificava a reduzida afluência no anfiteatro quando o americano Ryley Walker subiu ao palco. Não conformado com a situação, deu início a uma longa jam com os seus músicos de apoio que rondou os 7 minutos de duração; uma espécie de chamamento para quem ainda não estava em frente ao palco. A dita resultou e agora sim, Ryley estava como queria, acolhendo os novos hóspedes ao som de “Primrose Green”. Há uma parecença irrefutável entre a sua voz e a de Mark Kozelek dos Sun Kill Moon, causando um sentimento de estranheza perante algum do público que dizia que “isto é bué parecido com uma cena que conheço”.

As parecenças existentes entre Sun Kill Moon e Ryley Walker residem apenas num timbre semelhante e no facto de ambos tocarem folk, porque de resto, Ryley está na sua própria liga. Foi há 27 anos que se separou do cordão umbilical da progenitora, mas parece que formou novos contornos nas suas guitarras; alternando entre 6 e 12 cordas, este senhor é um mestre na arte do dedilhado, facilmente conciliando acordes com notas na menor das despreocupações. Este seu jeito único de tocar, juntamente com a bateria e o baixo elétrico que o acompanham, permite-lhe dar um ou outro toque psicadélico ao seu folk. Pouco falador – confidenciou que tinha passado “a noite de ontem no Porto e estou com uma valente ressaca”, suscitando alguns risos e sorrisos -, recorreu a temas como “Age Old Tale”, “Summer Dress” ou “Funny Thing She Said” para entreter um público que parecia estar mais à procura de música de fundo para acompanhar as suas conversas do que ver um concerto.

Estreando o Palco Vodafone.FM nesta edição do Paredes de Coura esteve Joana Serrat, a espanhola proveniente de Madrid e também confessa adepta do folk. No dia em que os seus ouvidos tiveram o prazer de se encontrar com Bob Dylan, decidiu dedicar-se de corpo e alma à música de modo a oferecer o mesmo prazer que o norte-americano então lhe provocara, chegando ao festival do Minho já como uma referência dentro do estilo. O seu doce timbre vocal começou a atrair uma enchente considerável quando Ryley Walker se despediu do público português, naquilo que foi uma agradável mudança de ares; enquanto o primeiro se dedicava mais a um registo folk inclinado para o blues, Joana combina-o com o indie rock da mesma forma que Angel Olsen o faz. E que bom que é ouvi-lo.

Cross The Verge governou grande parte do alinhamento que apresentou, mas foi através de temas mais conhecidos como “The Blizzard” ou “Green Grass” que Joana Serrat começou a causar algum impacto. Alternar as suas músicas mais vívidas com outras mais calmas revelou-se uma benesse para a artista, ajudando-a a evitar momentos monótonos e a despertar sempre o interesse do público que se tentava manifestar através de palmas fracas, muito por culpa dos copos reutilizáveis cheios de cerveja. Com “Princesa de Colors” a relembrar-nos a nacionalidade espanhola de Joana Serrat – o inglês das suas canções está no ponto –, e de que a música é um fenómeno capaz de transcender fronteiras, eis um concerto que exemplifica o porquê de Paredes de Coura ser o habitat natural da música. Não houve vencidos no dia em que as duas frontes do recinto transmitiam folk, mas sim vencedores: Ryley Walker, Joana Serrat, o público e o folk em si.

A agradável surpresa dos Whitney

Contavam-se pelos dedos aqueles que não sorriam depois do concerto de Whitney ou aqueles que não tinham ficado surpreendidos pelo festim levado a cabo por sete rapazes que mais pareciam ter saído do campismo ali ao lado. Todos os anos acontece um fenómeno pelos lados do Taboão em que uma banda meio desconhecida e ainda a dar os primeiros passos consegue deixar vestígios tão ou mais marcantes do que artistas com maior calibre a actuar no mesmo festival; este ano, os Whitney arrecadam esse prémio. Fruto de noites passadas em branco dos colegas de quarto Max Kakacek e Julien Ehrlich (ex-Smith Westerns), este grupo conta com apenas um disco, o recente Light Upon The Lake, que foi gravado no frio congelante do último inverno de Chicago, mas mesmo assim apresenta uma sonoridade tão primaveril, um indie-pop que aconchega o espírito e transpira felicidade. Com Josiah Marshall, Will Miller, Malcolm Brown, Print Chouteau e Charles Glander a completar o círculo, desde cedo que a sua simpatia conquistava a já considerável enchente.

Elogiando o festival e sua paisagem, os Whitney iniciaram o concerto com a belíssima “Dave’s Song”, com Julien repartindo o seu tempo a encantar com o seu jovial timbre vocal e a tocar bateria, tarefa esta nada fácil mas realizada em total sincronização. Acompanhado de duas guitarras, um baixo eléctrico, dois teclados e um trompete, os Whitney contavam com um vasto leque de instrumentos para recriar a beleza presente em Light Upon The Lake e resultou a cem por cento: toda a banda se comportou como uma orquestra musical onde todos os músicos desempenham um papel fulcral para que nada falhe na peça que está a ser executada, sendo os momentos em que Will Miller demonstrou o talento que tem atrás do seu amigo de sopro enquanto é acompanhado pelos colegas, aqueles em que nos perdemos de amores. Apaixonado pelo nosso país sempre esteve Julien que revelou que esteve para estudar em Portugal quando ainda estudava devido a “ser dos sítios mais lindos que existe, cheio de gente tão simpática quanto vocês”, dedicando-nos mesmo “No Matter Where We Go”.

Dedicar músicas e a fazer troça dos peluches que andavam por ali – “isso é um gato, uma ovelha ou uma galinha depenada?”, perguntava entre risos Max Kakacek – só ajudava a selar o recém-formado pacto de amizade entre a plateia e os Whitney; aliás, talvez por estarem entre amigos, Julien Ehrlich não se importou de confidenciar que “ ‘On My Own’ é a nossa música mais reggae mas tem um tom tão lixado que às vezes dá merda, portanto se isso acontecer, pedimos desde já as nossas desculpas”; felizmente, não deu. A música de Whitney desencadeava um clima de felicidade e de romance tão grande – se não se estivessem a divertir com os amigos, os solteirões estariam cheios de inveja das juras de amor entre os casais, selados com beijos ao som da cover de “Tonight I’ll Be Staying Here With You” de Bob Dylan –, que o próprio Julien e o baixista Josiah Marshall decidiram levar as coisas para o campo íntimo em pleno palco, para delírio de todos ali presentes; sempre foi dito que ‘Coura é amor’ mas houve, finalmente, um artista que o levou à letra.

Estamos de pé faz agora vinte e quatro horas, obrigado por estarem a fazê-lo valer a pena”, diziam já na reta final do concerto. De facto, a reação por parte do público com as suas palmas constantes e confissões de amor, deve mesmo ter recarregado as baterias dos Whitney porque tal entrega não seria possível vindo de um bando de pessoas que enfrentavam uma directa. Antes de encerrarem com chave de ouro ao som de “No Woman”, agradeceram aquele que tinha sido um dos seus melhores concertos. Este grupo de Chicago, cuja combinação entre folk e country evoluiu para um agradável indie-pop, despertou muito amor e muito carinho, levando a que, depois deste final de tarde, o regresso dos Whitney se tenha tornado iminente, tal como o seu futuro de sucesso.

Os gritos de revolta dos Sleaford Mods

Mesmo sendo apenas dois – o vocalista Jason Williamson e o músico Andrew Robert Lindsay Fearn -, os Sleaford Mods têm energia suficiente para ocupar o Palco Vodafone como se lá em cima estivessem umas cem pessoas. A fórmula da dupla é simples e eficaz: Andrew utiliza um computador para passar versões instrumentais dos temas e Jason completa-os com o seu sotaque britânico. Contudo, é na forma como ambos se comportam em palco que reside o seu sucesso. Andrew fica especado a olhar para o computador, com uma cerveja na mão, naquilo que os conhecedores da banda identificam como uma forma de protesto para com os DJs que, tal como ele, carregam num botão para passar música mas ‘fingem’ que se estão a esforçar imenso; Jason é um autêntico animal de palco que percorre o palco de uma ponta à outra, salta, ajoelha-se, rebola e está sempre em contacto com a audiência, uma postura capaz de rivalizar com as de Iggy Pop. De facto, dentro dos contornos minimalistas que a sua sonoridade apresenta, esta está muito perto do punk, um registo que pouco se ouve pelo Paredes de Coura e que, apesar da sua força e energia, não despertou os clássicos moshes ou crowdsurfs. Irónico, não é?

Mesmo não sendo uma hora tardia, a verdade é que muitos foram aqueles que trocaram os Sleaford Mods pela zona de restaurantes. Um grande erro! Para os que tomaram a decisão acertada, a interacção com Jason Williamson era uma constante: desafiava o público para fazer o máximo de barulho que conseguissem, elogiava-lhes as palmas e dizia que não o conseguia fazer por causa do microfone e, como não podia faltar, referenciou o Brexit. As letras dos Sleaford Mods retratam a vida da classe operária britânica, o que levou a que um assunto tão mediático que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia não fosse esquecido, representado pela senhora ‘Little England’; “Ela não vos quer dizer olá porque se acha melhor do que vocês, sempre se achou! Por isso, eu e o Andrew queríamos pedir desculpa”, gracejou em tom de brincadeira para delírio do público. E o público reagia como podia a temas como “Tied Up in Nottz”, “Jobseeker” ou “Live Tonight” – recriando em uníssono os cânticos “Sleaford Mods” presentes no início desta e a dança “mexer-sem-sair-do-lugar” de Andrew. Até “Tweet Tweet Tweet” ditar o final do concerto e, finalmente, originar algo semelhante a um mosh, houve ainda tempo para umas palmas merecidas durante músicas para Jason, que cospe tanta palavra no espaço de segundos que até é de admirar como é que não se engana nem perde o fôlego.

Sleaford Mods @ Vodafone Paredes de Coura

Sleaford Mods @ Vodafone Paredes de Coura

Algiers, Shura e as enchentes no Palco Vodafone.FM

Qualquer coisa como 2 meses passaram desde a estreia dos Algiers por Portugal no NOS Primavera Sound e já pisam solo luso novamente, mas desta vez no Paredes de Coura. Mesmo após uma passagem por cá ainda tão recente na memória, o seu regresso não é algo descabido: para além de terem dado um dos melhores concertos do festival do Porto, a banda afirmar-se ca

da vez mais como uma jovem promessa, muito pela culpa do carisma e do toque gospel que o vocalista Franklin James Fisher mete nas suas palavras, o que justifica a enchente que se verificou durante todo o concerto. Passadas as primeiras músicas de Algiers, fica-se com a sensação de que estamos perante uns TV On The Radio sombrios, mas há muito mais aqui se nos dedicarmos a levantar o véu: há raiva, um sentimento de revolta, o desejo por uma revolução presente nas letras e nas gravações de discursos sobre questões raciais. Antes de aproveitar a sua música, os Algiers pediam aos presentes que a entendessem.

Ultrapassado esse processo de interiorização, estava na altura de tirar partido da música. Para além do seu frontman explosivo, há que salientar a restante banda: o baixista Ryan Mahan teatralizou todas as palavras que Franklin ditava em “Black Eunuch” estando no mesmo nível do vocalista nos níveis de entretenimento que proporcionou; Lee Tesche aparentava estar dentro da sua própria bolha em todas as canções, mas é fruto dele as ambientadoras guitarras presentes em “And When You Fall” e, claro, não nos esqueçamos do grande Matt Tong (ex-Bloc Party) encarregue de ligar todas as peças dos Algiers e mostras as suas qualidades enquanto baterista ao som de temas como “Irony. Utility. Pretext”. Mesmo que cada um dos músicos tenha dado provas certas do quão excelentes músicos são, é a compilação dos seus talentos em igual modo que elevaram – e bem alto – a fasquia dos concertos seguintes aos de Algiers no Paredes de Coura. Quem lá esteve em “Blood” e “But She Was Not Flying”, esta última para encerrar, não pode deixar de concordar.

Dias antes do arranque do festival, sofreu-se uma baixa de última hora com Sharon Jones & The Dap-Kings a cancelar a sua presença devida a complicações de saúde da vocalista. No curto espaço de tempo de que dispunha a organização seria complicado arranjar um artista a altura. Foi Alexandra Lilah Denton a escolhida para preencher a lacuna. Com a mais recente adição de Shura ao cartaz, o dia 18 sofreu um autêntico abanão: Whitney transitou (felizmente) para o Palco Vodafone, os Sleaford Mods e os Thee Oh Sees passaram para horas mais tardias. Mesmo depois de todo este alvoroço, o concerto de Shura não só foi um sucesso como também demonstrou às más-línguas que foi uma substituta à altura do desafio. Ainda nem os Thee Oh Sees tinham acabado de distribuir todas as suas malhas e já o Palco Vodafone.FM estava à pinha para ver a artista com origens inglesas por parte do pai e russas da mãe que iniciou o concerto com “What’s It Gonna Be” e “2Shy”, naquele que começava a desenhar-se como sendo o primeiro concerto a contar com um coro proveniente do público do início ao fim.

Shura estreou-se pelo nosso país no Vodafone Mexefest de 2014, algo que a própria artista não se esqueceu; “Vim a Portugal pela primeira vez em 2014. Nessa altura tinha umas três canções e agora tenho finalmente um disco, portanto vamos aproveitá-lo?”, dizia a um barulhento público, sobretudo o mais jovem que ocupava todas as lacunas por baixo da tenda que é o palco secundário do festival. Entusiasta, constantemente saltitante e dançando os temas electropop da artista, naquilo que seria uma espécie de aquecimento para o concerto de LCD Soundsystem. Repartindo o seu tempo entre o microfone e os teclados, Alexandra pode ter uma tenra idade mas já sabe muito bem entreter e lidar com o público: sempre que pedia por palmas ou ‘emprestava’ o microfone, colhia muito mais do que aquilo que semeava, tal não era a efusividade da plateia com que se deparou e cujas palmas sincronizadas chegavam mesmo a ofuscar um pouco a voz da cantora, especialmente em temas como “Indecision” e “What Happened to Us?”. Seria, inevitavelmente, com um muito celebrado “Touch” que a tenda ia abaixo e que deixou Shura radiante. “Ter voltado a Portugal e ter estado aqui com vocês foi excelente. Obrigado por tudo, a sério, vocês são os maiores”, despediu-se comovida. É tão bom quando são os próprios artistas a saírem felizes de um concerto!

Thee Oh Sees entre dois palmos no céu e outros dois na terra

Ainda nem as portas do recinto estavam abertas e já se ouvia pelo campismo que “Hoje é para #DarTudo em Thee Oh Sees”. Provavelmente, estes visionários experienciaram a erupção causada pelos Thee Oh Sees no Palco Vodafone.FM em 2014, naquele que foi o concerto mais destrutivo do festival daquele ano. Dois anos depois, a banda oriunda da Califórnia ganhou direito a uma promoção de palco e apresentou-se para um Palco Vodafone bem recheado e cheio de malta para causar arruaça. A par com King Gizzard e The Lizard Wizard, os Thee Oh Sees eram uma das bandas mais frenéticas a atuar este ano no Paredes de Coura, desculpa perfeita para que os típicos moshes e crowdsurfs tivessem carta livre, justificando o porquê da antecipação matinal no campismo. No preciso momento em que John Dwyer, Tim Hellman e os dois bateristas – sim, eram duas baterias – Ryan Moutinho e Dan Rincon se instalaram em palco e soltaram os primeiros acordes de “The Dream”, o caos instalou-se.

Começar com o tema mais conhecido da banda foi sinónimo de se iniciar também a loucura vinda de plateia: o mosh inicial despertado em “The Dream” tinha já proporções significativas nem a música ia a meio, nem se quer dando tempo para que aqueles que não quisessem estar dentro da tempestade fugissem. De seguida, passou-se para “Plastic Plant” do mais recente álbum A Weird Exists lançado no dia 12 deste mês – será que alguém no campismo teve tempo de o ouvir? –, e para “Toe Cutter/Thumb Buster”, mais um dos grandes êxitos do projecto liderado por John Dwyer. Foram precisas somente três canções para se desencadear um dos maiores moshes que aquele festival já viu – FUZZ ainda é detentor do troféu –, com direito a walls of death improvisadas e muito, mas muito crowdsurf pelo ar. Até se podia dizer que os seguranças não tinham mãos a medir a apanhar tanta gente prestes a cair no fosso mas, verdade seja dita, os moshes sucessivos dificultavam a tarefa de alguém conseguir lá chegar sem se espalhar primeiro no chão; não que isso os impossibilitasse de tentar, está claro.

Em cima do palco também não reinavam tempo pacíficos: para além de salientar a guitarra e um baixo sempre prontos para armar confusão, há que ser atribuída nota 20 para ambos os bateristas que conseguiam estar cada um a tocar coisas diferentes mas sempre dentro do mesmo ritmo, não prejudicando o desenvolvimento dos temas. Para os que queriam aproveitar a música, era fácil identificar as diferentes baterias mas, e sejamos francos, a maior parte do público preferiu vivê-la. Com o passar de músicas como “Dead Energy”, “Web” e “I Come From The Mountain”, a intensidade do mosh atingia níveis absurdos, com pessoas a partir mais para a agressão através de murros e joelhadas do que os habituais empurrões; se alguém caísse no chão ou ficasse aleijado, não haveria lá ninguém para ajudar. Começando pelo “gajo muito fixe” que achou que era boa ideia activar um petardo, atirá-lo ao ar e sair dali antes do mesmo aterrar – felizmente não caiu em cima de ninguém -, por vezes um pouco de noção e de companheirismo não ficava nada mal. Afinal, estamos todos ali para nos divertirmos, não é?

Contando com 17 (!!) discos de carreira, era difícil tocar um pouco de tudo, mas nas onze canções tocadas pelos Thee Oh Sees, foram revisitados 6. Com a aproximação da derradeira “Contraption/Soul Desert”, a autêntica nuvem de pó que se foi levantando durante o concerto causava um impasse na continuação do mosh, dando (finalmente) um pouco de descanso aos sempre bons samaritanos seguranças. Enquanto se repousava pelo, agora outrora, esverdeado anfiteatro dos sonhos, os Thee Oh Sees continuavam a tocar com a mesma intensidade que começaram em “The Dream”, nunca tendo repousado para recuperar as energias. É preciso ser uma autêntica máquina para assinar uma actuação tão incendiária como os Thee Oh Sees nos deram, proporcionando um autêntico show de garage rock que conquistou tanto amantes como simpatizantes do género. Momentos depois, os LCD Soundsystem subiriam ao Palco Vodafone para o derradeiro concerto da noite, mas vamos deixar o pó assentar um pouco antes de relatarmos a magnitude daquele que foi um dos melhores concertos a ocorrer ao longo de todas as edições do Vodafone Paredes de Coura. Acreditem, vai valer cada palavra.

Lê aqui a reportagem do Dia 01 do Vodafone Paredes de Coura