A conotação dada a despedidas é quase sempre negativa: é o fim de um ciclo, de um hábito, de uma amizade, de um relacionamento, algo que estimamos. Em todas as manhãs que marcam o último dia do Vodafone Paredes de Coura, o sentimento de ‘perda’ é uma constante, o iminente regresso para as nossas vindas mundanas de trabalho ou faculdade estão a escassos dias e a tranquilidade oferecida pelo retiro espiritual que a Praia Fluvial do Taboão representa está prestes a chegar ao seu término.

Mas, no entanto, nem tudo está perdido. As memórias daquela semana passada com amigos, os banhos gelados nos chuveiros, os risos junto ao rio, o barco que se virou, a dose diária de enlatados, o primeiro crowdsurf… Entre todas estas lembranças, há concertos que nunca irão sair dos nossos corações: LCD Soundsystem, King Gizzard & The Lizard Wizard ou Cage The Elephant foram apenas alguns dos cenários que vamos insistir em não esquecer. Mal sabíamos que a noite de dia 20 iria oferecer concertos de iguais proporções, que começaram ao estilo que todos ouvimos: o rock n’roll.

A vanguarda do rock dos The Last Internationale

“O rock está vivo e recomenda-se”. Foi esta a premissa com que se ficou quando os The Last Internationale abandonaram o Palco Vodafone depois de terem dado um dos concertos mais poderosos do festival. A fórmula tem um elemento fácil: bastante rock n’roll. Delila Paz e Edgey Pires estrearam o palco principal do Paredes de Coura com vitalidade e irreverência suficientes para provocar uns quantos headbangings a todos aqueles que já se encontravam no recinto e que não tinham optado por aproveitar os últimos raios do sol junto ao rio ou encontrar uma televisão algures que estivesse a emitir o jogo do Sporting. Com a projeção de uma imagem que dizia que aquele “banner mata fascistas” (no nosso português), a dupla que nos seus primórdios contou com a participação do baterista Brad Wilk dos Rage Against The Machine disparava temas carregados de mensagens subliminares de revolução, como nas primeiras “Killing Fields” e “Life, Liberty, And The Pursuit of Indian Blood”, onde Delila Paz desafiou o público a que erguesse os punhos no ar e gritasse consigo “blood!” com toda a força que conseguissem. E o pedido foi concedido.

A acompanhar a belíssima vocalista e baixista estava Edgey Pires. Tal como o apelido indica, o guitarrista tem origens portuguesas, e perto da Praia Fluvial do Taboão confessou “é um prazer enorme estar aqui, num país que me diz muito. Os meus pais são aqui do norte, é sempre bom voltar. Prontos para algum rock n’roll?”, desafiou Edgey. Talvez por estar em territórios familiares a banda decidiu estrear, em primeira mão, o seu novo single “Modern Man” em palco, conquistando e cativando o público. Em “Wanted Man”, cada vez mais eram aqueles que começavam a rodear o palco principal, juntando-se aos colegas no batimento de palmas ou headbanging. Infelizmente, o aumento da afluência chegou em altura tardia, visto que o concerto estava já na sua reta final, mas não foi por isso que a recente adquirida plateia dos The Last Internationale deixou de querer dar o ar de sua graça, passando a saltar compulsivamente a cada acorde de “Hard Times”. Selando o regresso a Portugal com “1968”, a dupla norte-americana pode-se gabar de tere sido a primeira banda a pôr praticamente quase todos de pé no horário mais madrugador do palco principal do Vodafone Paredes de Coura.

A vitória dos Capitão Fausto e a sua claque faustiana

Ainda faltava qualquer coisa como dez minutos para a hora marcada e já o auditório dos sonhos estava praticamente lotado: mais difícil de encontrar uma alma que estivesse sentada, só mesmo arranjar um lugar perto do fosso. O motivo para toda esta concentração? Capitão Fausto, a banda portuguesa mais querida dos corações jovens portugueses. Estrearam-se em 2012 em Paredes de Coura somente com Gazela, mas passados quatro anos, e com Pesar O Sol e Capitão Fausto Têm Os Dias Contados no bolso, a receita estava pronta para que o final da tarde fosse de festa. E foi com esse mesmo ambiente, entre muitos risos vindos da plateia, que surgiram em palco, ao som do mítico hino do campismo do Taboão “The Time Is Now (You Can’t See Me)” tema de John Cena, o wrestler da WWE. Enquanto se trauteava a música ou se erguia bem alto o cinturão de campeão do atleta, os Capitão Fausto deram origem a um belo conjunto de coros ao som de “Corazón” e “Morro na Praia”, coros esses que não desapareceram durante todo o desenrolar do concerto.

Os fãs de Capitão Fausto têm todas as letras na ponta da língua, sabendo-as de trás para a frente, e Tomás, Domingos, Salvador, Manuel e Francisco estão bem cientes disso. Mas para que não restassem dúvidas, presentearam aquela juventude toda com um mash-up de “Maneiras Más” e “Célebre Batalha de Formariz”, transitados de forma tão espontânea e natural como só eles o sabem fazer. Foi a partir daqui que se avistou o crowdsurfing e o mosh mais madrugador de todo o festival, proporcionando uma valente dor de cabeça para a equipa de seguranças – tipos porreiros, nunca é de mais salientar. “Obrigado do fundo do coração”, dizia Domingos, notando-se facilmente que eram palavras sentidas. Explorando novamente o terceiro disco da carreira, um disco que caminha a passos largos para ser considerado um dos discos do ano, “Os Dias Contados” continuavam a arrancar as vozes do público, notando-se até que alguns destes cantores andavam por perto da casa dos 40. A música não conhece fronteiras, não é verdade?

Com músicas como “Santa Ana” a fazer de ponte para a mais recente “Tem De Ser”, esta transição fluída entre canções é um dos grandes trunfos que os Capitão Fausto têm utilizado nos seus concertos, dando-lhes a possibilidade de tocar mais tempo do que o seu horário lhes permitiria, e o público bem que agradece pois, ao contrário dos restantes concertos à mesma hora, todos cantavam e gritavam durante o mosh ou o crowdsurf, ou não se esperava menos de um concerto de Capitão Fausto. Para o final, a cantoria atingiria todo um outro nível, de proporções épicas, ao se despedirem com algumas das músicas mais emblemáticas dos seus três discos: uma “Amanhã Tou Melhor” tão bem entoada que os próprios ‘alfacinhas’ ficaram surpreendidos, a rainha da festa que foi “Verdade” e a surpresa da noite que tomou a forma de “Lameira”, música que dá como encerrado Pesar o Sol e que desempenhou o mesmo papel no concerto. Pouco faltavam para as nove da noite, e mesmo com um belo conjunto de artistas a seguirem-se naquele palco, era universal: os Capitão Fausto deram o concerto do último dia do festival. Quem sabe se daqui a quatro anos, com mais  – esperemos – alguns discos na bagagem, os Capitão Fausto não terão estofo para encerrar um dos dias do Vodafone Paredes de Coura?

A saborosa ementa russa cozinhada pelos Motorama

O Vodafone Paredes de Coura afirma-se, cada vez mais, como um dos maiores festivais de Verão em Portugal, sendo quase uma passagem obrigatória no roteiro de Agosto e atraindo festivaleiros desde Faro, Évora, Coimbra, Lisboa, Porto e Braga. E tantos outros lugares. A diversidade do seu público é uma realidade, algo que se revê nos artistas do seu cartaz, sendo os Motorama, vindos directamente da Rússia, um excelente exemplo. Se na noite anterior os Psychic Ills e Jacco Gardner nos levaram numa viagem ao nosso interior, o quarteto russo continuou a dita, remetendo-nos para o centro das nossas emoções. Isto deve-se a uma sonoridade post-punk que relembra tanto Joy Division como Interpol, com os Motorama posicionados lá no meio. Apostar numa banda post-punk depois do festim do indie levado a cabo pelos Capitão Fausto assinado momentos antes, só vem justificar a razão de a diversidade ser um dos melhores aspetos deste festival, com um Palco Vodafone.FM bem composto numa hora em que o estômago já se começava a queixar.

Para os esfomeados, tanto a zona de restauração como o buffet dos Motorama eram boas opções, mas esta última tinha um menú muito mais apetecível: “Heavy Wave”, temperada com uma boa dose melancólica, uma pitada de brilho em “Alps”, irreverência misturada com energia na bela “Ghost” ou a doce sobremesa que dá pelo nome de “Corona”, esta delícia russa satisfez qualquer um. Vladislav Parshin, Maxim Polivanov, Alexander Norets e Oleg Chernov são excelentes chefes de cozinha, mas o que dizer da sua tarefa enquanto músicos? São irrepreensíveis naquilo que fazem, concentrados e empenhados a proporcionar as melhores recriações possíveis de todas as belas receitas cozinhadas ao longo de três deliciosos discos, embora de forma mais intensa que nos álbuns – post-punk sendo post-punk. Pouco faladores, proporcionaram a melhor refeição que estes campistas tiveram desde que se alojaram pela Praia Fluvial do Taboão, um bom escape de todo o atum e massa destes últimos dias. Talvez, toda esta ementa possa ter causado uma ou outra dor de barriga, mas não se aflijam: é sinal que se saboreou todas as emoções que os Motorama nos decidiram servir. Uma delícia.

Ninguém teve vertigens com The Tallest Man On Earth

“Portugal, que pessoas tão bonitas que vocês são. Tive tantas saudades vossas!” Foi com esta frase de engate que Kristian Matsson conquistou rapidamente o público português, ainda a sua banda de apoio estava a dar por terminado “Wind And Walls”, música que deu início o espectáculo. E que espectáculo foi! Este senhor, que dá a cara por The Tallest Man On Earth, é um autêntico animal de palco, conseguindo a proeza de preencher por completo, seja a deambular de um lado para o outro – deitando microfones ao chão –, ou a tocar guitarra com tanta intensidade e entrega que mais parece que estamos perante um gigante de dois metros e meio e não de um mero sueco com um e setenta de altura. De facto, a relação que Kristian mantém com as suas guitarras, assemelha-se à de um pintor e as suas telas, compondo autênticas obras de arte com a maior das facilidades como se fosse detentor de um pincel mágico. Esse pinchel – chamemos-lhe ‘talento’ -, desenha tudo ao mais ínfimo detalhe, fazendo com que o observador se perca na imensidão de cor e de beleza que o pintor Kristian e o seu talento assinam.

O amor que este artista sente por Portugal é enorme, sendo até difícil de acreditar que esta tenha sido a sua terceira vez a pisar palcos portugueses. Todavia, a estreia de The Tallest Man On Earth ainda está bem guardada no seu coração como nos conta: “Toquei há 6 anos neste festival, quando era bem mais novo e desde aí que tenho sonhos com este sítio magnífico”. Para marcar o seu regresso, pediu silêncio total – reconheceu que seria difícil, visto tratar-se de um festival “cheio de pessoas bonitas” –, para que pudesse tocar um tema sozinho sem ajuda da sua impecável banda de apoio. Eis que chegara o momento de “Love Is All”, um dos seus maiores êxitos. Parecia estarmos perante a reunião de um casal tremendamente apaixonado, que ficou vários meses separados em cantos remotos do mundo devido a crueldades do destino; durante aqueles instantes, enquanto o casal punha toda a conversa em dia e reforçava a sua química nós, o público, deparávamo-nos simpesmente com aquele cenário bonito no maior dos silêncios, para que não se interrompesse os pombinhos até o momento em que os seus lábios se cruzassem – ou a música parasse –, e se soltasse uma estrondosa salva de palmas para comemorar o feito. Que forma tão bonita de comemorar um regresso: “Obrigado, vocês são todos tão bonitos”. Reforçada saiu a ideia que Portugal e The Tallest Man On Earth andam de mãos dadas e eis que aparece “Sagres” para consolidar a coisa: “Quando vim passar férias a este lindo país em 2014, aconteceram-me muitas coisas e a minha vida mudou por completo. Esta música fala um pouco sobre isso, é sobre dizer adeus, mas não de vocês porque estou completamente apaixonado!”. Oh Kristian, assim até coramos…

Mesmo alternando constantemente entre guitarras, apresentando-se sozinho ou com a sua banda de apoio, nunca houve um momento parado no concerto de The Tallest Man On Earth, muito graças à sua simpatia para com o público português que tentava ao máximo retribuir o carinho de Kristian. E só o conseguia fazer através de palmas sincronizadas e umas quantas confissões de amor. Ele merecia. Continuando com a mesma intensidade durante todo o concerto desabrochou um autêntico serão de palmas na já badalada “King of Spain”, demonstrando que para além de um dotado guitarrista, Kristian tem também um timbre vocal arrebatador, fazendo jus a todos os elogios que recebeu no início da sua carreira e que o comparavam a um jovem Bob Dylan. Infelizmente, o fim era eminente e veio “Like The Wheel”, simbolizando também o último manifesto das lâmpadas da Vodafone e telemóveis no ar para banhar o verde anfiteatro de branco, estando a par com a “Cigarette Daydreams” dos Cage The Elephant da noite anterior naquilo que toca a beleza. Ficou a faltar “The Dreamer”, mas com apenas uma hora de concerto seria difícil pintar tanto quadro bonito. Depois deste concerto de The Tallest Man On Earth, perdoamos-lhe tudo. Menos outros 6 anos de espera até ao seu regresso. Isso é que já não.