Ao terceiro dia da edição deste ano do Vodafone Paredes de Coura, a chuva governou o campismo da Praia Fluvial do Taboão durante toda a manhã, rematando para canto os campistas que gostariam de usufruir da paisagem única que este festival oferece. Permanecer nas suas tendas até que o temporal passasse não foi uma ideia mal pensada de todo: sendo o dia que apresentava um cartaz mais fisicamente avassalador, poupar forças era uma boa ideia. Quis o destino que a força de pelo menos duzentos campistas fosse bloqueada devido a um irritante surto de salmonelas, completamente alheio à organização.

Paredes de Coura é um festival de amor, onde cenários como estes não combinam de todo com a sua beleza. Enquanto duzentos festivaleiros foram remetidos para unidades hospitalares perto da vila, os restantes tanto queriam estar a aproveitar aquele que, no final do dia, acabou por ser o melhor dos quatro dias do festival. Arrancando com o sangue luso dos First Breath After Coma, houve esplendor suficiente para fazer esquecer essa coisa enjoativa que dá pelo nome de salmonela.

Um cowboy vindo do Texas chamado Kevin Morby

No preciso momento em que Kevin Robert Morby subiu ao Palco Vodafone, alguém do público gritou a plenos pulmões que “este gajo é o Loras Tyrell!”, personagem interpretada por Finn Jones na série televisiva A Guerra dos Tronos. As parecenças entre ambos residem apenas naqueles caracóis capazes de fazer suspirar qualquer rapariga porque, de resto, Morby não quer ser nenhum cavaleiro: ele é um confesso cowboy! Carismático e sedutor, ainda sem guitarra nas mãos e já dizia que Portugal “é o meu país favorito”, arrebatando umas quantas palmas de gratidão e alguns comentários sorridentes de “ele diz isso a todos”. Se isto não passou de uma frase de engate, verdade seja dita que Kevin Morby se esmerou para provar que o que dizia era sentido. Arrancando com “Cut Me Down”, faixa inicial de Singing Saw, Morby distribuiu charme e uns quantos olhares provocadores para as meninas. Para os meninos, houve uma “Dorothy” frenética o suficiente para desencadear palmas, danças e uns quantos saltos sem sair do lugar. No início, o americano confessou-se apaixonado pelo nosso país, cabendo-lhe agora a tarefa de fazer o público português apaixonar-se por ele. E estava a conseguir.

Para além dos pequenos gestos de Kevin Morby – beijinhos, piscar de olhos, sorrisos sentidos –, que conquistavam o público, era a sua música que fazia grande parte do trabalho: um caloroso folk enraizado no rock que conseguia movimentar até os mais preguiçosos a levantar do lugar está para o Paredes de Coura assim como o calor pede uma cerveja. O ex-baixista dos Woods – que pisaram o mesmo festival o ano passado -, já tem carreira suficiente para não se prender aos êxitos da antiga banda, apresentando temas de todos os seus três discos de originais e surpreendo, até, pelo conhecimento que muitos demonstravam por temas mais antigos como “Miles, Miles, Miles” ou “All My Life”. Talvez por essa mesma sabedoria que se manifestavam de temas de Kevin Morby a melhor surpresa tenha ficado reservada para o final do concerto: “vejo-vos ainda este ano, daqui a uns meses!”, revelou antes de concluir a actuação com a alegre “The Ballad Of Arlo Jones”. Em Novembro, Kevin Morby e os seus compinchas estarão de regresso a Portugal, país que ficou apaixonadíssimo por este cowboy do Texas.

Crocodiles, uma espécie em vias de extinção no habitat natural da música

Supostamente, e a esta hora, deveríamos estar a ouvir os The Bohicas a despejar malha atrás de malha no Palco Vodafone, mas quis o destino pregar-lhes uma partida e tiveram que ser substituídos pelos Crocodiles. Transitar de um irrequieto indie-rock para um enfeitiçante noise-pop não era uma mudança nada fácil, e, infelizmente, os Crocodiles acusaram a pressão. Desde que pisaram o palco, nunca conseguiram cativar o público, mesmo recorrendo a alguns dos temas mais fortes da sua carreira tais como “Mirrors” e “I Wanna Kill” de uma banda que, a brincar a brincar, já leva uns bons oito anos e cinco álbuns na bagagem. Estando numa situação que não lhes agradava, brincavam assim com a audiência – muito fraca em comparação com Kevin Morby –, pediam palmas e até emprestavam o microfone; enquanto o primeiro pedido era (quase) sempre respondido, o segundo revelou-se inútil, visto que praticamente ninguém conhecia a banda ou os seus temas.

A banda americana que vem de San Diego, na Califórnia, foi perdendo lentamente o interesse no concerto, chegando a uma altura em que mais parecia que estavam ali exclusivamente por obrigação, não aproveitando nem um pouco do que é o mítico palco de Paredes de Coura. Todo este cenário foi uma pena, principalmente pela música dos Crocodiles ser tão apaziguadora e preenchível, mas que acabou por se perder face às dimensões do Palco Vodafone. Talvez tivesse feito mais sentido terem sido remetidos para o Palco Vodafone.FM, onde a sua sonoridade teria resultado melhor e os seus fãs mais assíduos tivessem feito para se notarem, já que as primeiras filas do principal estavam cheias de jovens que só queriam Cage The Elephant e The Vaccines. Já perto do final, o vocalista Brandon Welchez pediu que se cantasse os parabéns para o baterista da banda, no único momento em que o público se fez ouvir como deve ser. Pobre tipo, merecia um desfecho melhor no seu aniversário.

A dose certa de psicadelismo ao som de Psychic Ills e Jacco Gardner

Quando Pokémon Red & Green foi lançado no Japão no ano de 1996, introduziu-nos a um tipo de chamado Pokémon ‘Psíquico’, o mais forte deles todos na altura. Ao contrário dos outros Pokémons que controlavam elementos como a água ou o fogo, os do tipo ‘Psíquico’ dominavam a mente, a alma, o espírito de um indivíduo. Com a série a voltar ao seu estado de graça devido ao fenómeno Pokémon GO – pouco se viu do mesmo durante o festival, muito provavelmente porque as baterias do telemóvel não são infinitas –, o dom dos Pokémons psíquicos volta assim à calha. A forma como influenciam o nosso âmbito mental e comportamental reviu-se nos concertos de Psychic Ills e Jacco Gardner, onde a forma como ambos abordam vibes psicadélicas, distintas entre si, proporcionaram uma enorme paz de espírito.

Faz treze anos desde que Tres Warren e Elizabeth Hart começaram a trabalhar juntos enquanto Psychic Ills. Tempo mais do que suficiente para que cada um saiba ao certo o que vai na cabeça do outro. Por não existirem segredos entre ambos, a dupla entretém-se a penetrar bem fundo no inconsciente de toda a multidão que se aglomerava no Palco Vodafone.FM para assimilar todas as suas histórias, desejos e confidências. O sublime toque com que os Psychic Ills constrõem os seus temas, dá-nos uma perspetiva diferente sobre tudo que nos rodeia e a razão das coisas serem daquela forma e não de outra. Refletimos sobre as mensagens das músicas o que, consequentemente, aumenta a perceção sobre tudo o que nos rodeia. A partir do momento em que as músicas angelicais do recente Inner Journey Out – proporcionou-se, realmente, uma viagem pelo nosso interior –, fluem ao som de “I Don’t Mind” e “Back To You” que somos transportados para o universo dos Psychic Ills naquilo que se assemelha a um sonho sem fim. Com Tres e Elizabeth na guitarra e no baixo, respetivamente, a sua excelente banda de apoio auxiliava-os através de uma bateria e teclados pontuais de forma a elevar esta experiência psicadélica para todo um outro nível. Depois de terem encantado o Reverence Festival Valada, os Psychic Ills repetiram a proeza no Paredes de Coura, reforçando a ideia que este é um festival onde a barreira entre o ‘sonho’ e a ‘realidade’ desaparece por instantes.

Destruindo de vez a fronteira entre o possível e o impossível esteve Jacco Gardner, o holandês perdido de amores por Portugal. Enquanto os Psychic Ills assinaram um concerto camuflado de uma viagem à nossa mente, a jornada de Jacco é temporal: o seu rock psicadélico é reminiscente das bandas que introduziram esse mesmo estilo nos anos 60, como os The Zombies e os The Left Banke. Em busca ao passado, Jacco Gardner assumiu a posição de piloto da sua banda de apoio: Bem Rider, Frank Maston, Jasper Verhulst, Nic Niggebrugge – são os qualificados comissários de bordo, com Hypnophobia e Cabinet Of Curiosities a servir de banda sonora, com temas dos dois álbuns conciliados de igual peso na setlist apresentada. Para além de piloto, Jacco foi também anfitrião da visita: sempre de guitarra em punho, este homem lançava-se às notas da mesma com a mesma coragem que os destemidos marinheiros portugueses partiram em busca do desconhecido na época dos Descobrimentos. Ciente das suas capacidades e daquilo que queria proporcionar ao público, Jacco Gardner remisturava grande parte dos seus temas para que podessem oferecer (ainda) mais sensações quando tocados ao vivo, com especial destaque para “Find Yourself” e “Clear The Air”. Depois do campo de batalha criado pelos King Gizzard & The Lizard Wizard, o concerto de Jacco Gardner funcionou tanto como um porto-de-abrigo como de uma lufada de ar puro e seguro. E por falar nos australianos…

O reinado dos King Gizzard e os feitiços do Lizard Wizard

Depois de terem passado pelo Vodafone Mexefest em 2014, e pelo Super Bock Super Rock do ano passado, chegou finalmente altura de Portugal receber os King Gizzard & The Lizard Wizard enquanto artistas já consagradas e com um positivo burburinho a rondá-los. Mesmo antes de Jacco Gardner ter dado como iniciada a sua viagem pelos anos 60 do psicadélico, já a banda australiana se tinha assegurado de comprovar que esse território era seguro e recomendável através da sua eficiente fórmula de juntar um barulhento rock psicadélico com surf rock, garage rock e até acid punk. Vale tudo na arte que é fazer (muito) barulho e basta olhar para a própria banda: em palco estão sete tipos com três guitarras, um baixo, teclados, duas baterias e montes de amplificadores. E engane-se quem pense que o grupo australiano toca alto só porque sim e sem nenhum motivo aparente, porque o que aconteceu no Palco Vodafone foi, a par com os LCD Soundsystem, o melhor concerto desta edição do Vodafone Paredes de Coura. Face às anteriores passagens dos King Gizzard pelo nosso país, 2016 trouxe um grande trunfo na manga, o novíssimo Nonagon Infinity.

Este oitavo disco de carreira dos King Gizzard & The Lizard Wizard tem a peculiaridade de ser um disco sem fim; isto é, trata-se de um loop inifinito onde todas as músicas fluem e se ligam entre si, desde o início ao fim. Quando “Robot Stop” se começou a ouvir com toda a sua força, a banda deu início a uma hora de adrenalina, pura e dura, que levou os arredores da Praia Fluvial do Taboão à ebulição. Talvez aprendendo a lição da noite anterior com o som dos Thee Oh Sees que um mosh não anda, necessariamente, de mão dada a agressões, notou-se um maior companheirismo entre os jovens e preocupação entre os mesmos e só assim foi possível que a diversão neste concerto fosse aproveitada ao máximo. “Big Fat Wasp”, “Gamma Knife”, “People-Vultures”… todo o disco era tocado na íntegra, criando todo um caótico cenário de crowdsurfing que chegava mesmo a ter umas seis pessoas no ar, para delírio da banda que estava positivamente surpreendida com tal recepção.

Ao se depararem com uma paisagem tão avassaladora, e sabendo que eles próprios eram os causadores da mesma, os King Gizzard & The Lizard Wizard não quiserem matar as boas vibrações de ninguém e tocaram com mais intensidade do que no início como se as quatro primeiras músicas fossem apenas uma espécie de ensaio ou aquecimento para a explosão que estava para chegar, com “Mr.Beat”, “Evil Death Roll” e “Invisible Face” a incendiar o anfiteatro dos sonhos – hoje, sem nuvens de pó. Depois de “River”, único tema fora de Nonagon Infinity a ser tocado, a banda parou pela primeira vez (!) em todo o concerto para se dirigir ao público. “Isto está só a ser incrível… vocês estão a gostar? Então vamos continuar com ainda mais, okay?!”, desafiou Stu Mackenzie enquanto se começava a formar uma wall of death, desencadeada nos instantes iniciais de “Road Train”. Puff; o Vodafone Paredes de Coura foi oficialmente abaixo!

Acabando o concerto da mesma forma como começaram, ao som de “Robot Song”, os King Gizzard & The Lizzard Wizard prenderam-nos no seu loop pleno em infinitude do qual ninguém queria sair. Mesmo com Jacco Gardner no extremo oposto a convidar para outra viagem mais ‘pacífica’, o público delirou ao som da rota mais atribulada dos King Gizzard e não era para menos; uma banda que mete tanto instrumento em palco e não se perde no meio de duas baterias, é qualquer coisa de especial. Não sabemos quando será a próxima vez que vamos pôr a vista em cima desta banda australiana, mas uma coisa é certa: dificilmente conseguirão dar um concerto tão bom como o que deram no Vodafone Paredes de Coura.

The Vaccines distribuíram o antídoto para as salmonelas

Quando em 2013 os The Vaccines subiram ao Paredes de Coura, andavam nas bocas de todo o mundo por estarem à frente do movimento que tentava revitalizar o rock n’roll nesta década em que nos encontramos. English Graffiti, lançado no ano passado, viu a banda fazer um desvio nesse trajecto e a aventurar-se por novos caminhos, indo buscar influências de artistas dos anos 80 como Duran Duran e demonstrando que estamos perante uma banda que não tem medo de se reinventar se isso significa proporcionar bons momentos aos fãs. Contudo, os fãs de The Vaccines ainda não degustaram o novo disco por completo, o que ditou que se apresentassem num formato best-of, onde muito pouco se viu do terceiro disco de originais: de dezassete temas, só “Handsome” a arrancar o concerto, “Dream Lover”, “Radio Bikini” e uma irreconhecível “Minimal Affection” contaram do alinhamento. Não se focarem os The Vaccines em English Graffiti – que tinha já sido apresentando no ano passado no Super Bock Super Rock -, constituiu um dos pontos fortes de um concerto que foi cantado do início ao fim pela multidão.

Se Kevin Morby nos relembrava uma personagem d’A Guerra dos Tronos, os The Vaccines quiseram tornar o mítico universo de Westeros bem palpável quando entraram em palco ao som do famoso genérico de abertura da série, antes de se atirarem a uma “Handsome” recebida de braços bem abertos e com muitas palmas. Seguidas por “Teenage Icon” e “Ghost Town”, notava-se que as fiéis camadas jovens loucas por The Vaccines sabiam as músicas de Come Of Age de uma ponta à outra, enquanto não se engasgavam em gritos de euforia ou se descoordenavam no meio de tantas palmas frenéticas. Todavia, o primeiro grande momento do concerto apareceu numa “Wetsuit” entoada em plenos pulmões e com telemóveis e lâmpadas da Vodafone,  oferecidas à entrada do recinto, no ar e a deixar o recinto banhado num branco brilhante. Ninguém pintava estes tipos de Londres como médicos, mas eram eles os detentores da cura das salmonelas: 100gr de saltos, acompanhados de 500gr de muita cantoria. Para aqueles cuja maldita bactéria ainda não se tinha revelado, os The Vaccines conseguiram evitar-lhes problemas de maiores dimensões.

Continuando a tocar êxito após êxito – “Blow It Up”, “Melody Calling”, “If You Wanna”, “I Always Knew” – os The Vaccines quase que ‘obrigavam’ os seus fãs a cantar cada vez mais alto para que a banda os ouvisse, muito por culpa do volume demasiado elevado dos instrumentos mas, felizmente, havia pulmões para isso. Por mais bonito que o concerto dos The Vaccines estivesse a ser – imagens cativantes a passar nos ecrãs, um sistema de luzes hipnotizantes com excelente potencial para os Instagrammers ali do sítio –, o público também pesou no resultado final, tendo juizinho ao não aderir a moshs ou a crowdsurfs sem nexo só porque “esta música é mexida e dá para fazer”. Os fãs de The Vaccines agradeceram. Para os de longa data, o irrequieto James Young dedicou-lhes uma “Post Break-Up” em memória dos tempos que já lá vão recebendo, como moeda de troca, a maior ovação de todo o concerto que se prolongou logo de seguida para uma emocionante “Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra)”, naquilo que é, aproximadamente, um minuto e quarenta segundos de felicidade no seu pico.

“Em 2013, este foi o nosso festival favorito; hoje, este concerto fica para a história como um dos melhores que já demos. Muito, muito obrigado!”, arrebatou James em jeito de despedida antes de encerrar o concerto com a muito aguardada “Nørgaard”, abrindo as portas para um mosh e uns quantos crowdsurfings que estavam mortinhos por acontecer; desta vez, e depois de um concerto tão intenso, os jovens que passaram o concerto inteiro a tentar mas que nunca o conseguiram, até que o mereceram. Fica a memória do melhor concerto dos The Vaccines em Portugal e a continuação dos excelentes concertos deste dia 19, que iria ser selado com chave-de-ouro com os Cage The Elephant.

Ninguém conseguiu parar os Cage The Elephant

Dois anos passaram desde que os Cage The Elephant se estrearam em Portugal, coincidentemente, no mesmo festival onde agora foram cabeças de cartaz. No espaço desses 727 dias, foi lançado Tell Me I’m Pretty, sentindo-se a pesada mão de Dan Auerbach dos The Black Keys na produção de um disco que abrandou um pouco a sonoridade agressiva dos Cage The Elephant. Mas, felizmente, quando tocados ao vivo, alguns dos temas desse mesmo álbum conseguem acompanhar a força das músicas mais antigas. O quarteto norte-americano chegou a Paredes de Coura com uma energia tão avassaladora que até o próprio palco tremia, notório quando uma madrugadora “In One Ear” pôs meio recinto aos saltos enquanto o outro gritava o mais alto que conseguia. Matt Shultz – este ano mais tapado do que quando se apresentou em tronco nu, em 2014 –, e o irmão Brad Shultz queriam que ficasse bem assente que ali quem mandava eram eles, comandando a plateia como bem lhes apetecia. Ainda neste tema, Brad foi matar saudades do seu público português – reza a lenda que foi uma visita a uma imobiliária pelos lados de Paredes de Coura, em busca de uma casa por cá, que desencadeou a confirmação da banda no festival do Minho –, descendo até ao fosso para dar e receber beijinhos dos fãs; tudo isto enquanto a guitarra continuava a rolar.

Depois de umas “Spiderhead” e “Aberdeen” para olear bem a máquina de rock na qual os Cage The Elephant se tornaram e dar tempo para que os crowdsurfers se acalmassem um pouco, passou-se para o ponto mais ‘morto’ do concerto, em que o triplo combo de Tell Me I’m Pretty “Too Late To Say Goodbye”, “Cold, Cold, Cold” e “Trouble” atrasaram um pouco o ritmo alucinante que até aí vigorava, passando a reinar tempos de calmaria. Isto é, até ao momento em que a tempestade apareceu na forma de um clássico antigo, “Ain’t No Rest For The Wicked” e de um dos mais recentes, “Mess Around”, voltando a despertar as energias da multidão. Por falar em energia, foi algo que nunca faltou a Matthew Shultz, frontman irrequieto que nunca ficou por mais do que trinta segundos no mesmo lugar, quer estivesse a puxar pela plateia ou a teatralizar as letras que escreve. Apesar de o seu espírito livre se manter frenético como sempre – embora tenha ficado no ar a impressão que o Matt de 2014 estivesse muito mais bravo –, faltou-lhe voz, com o volume do seu microfone a pecar naquilo que, certamente, complicou a tarefa de quem o queria ouvir.

Já para o final do concerto, onde os grandes êxitos dos Cage The Elephant foram guardados para, praticamente já não se ouvia Matt, tal não era a gritaria que “Come A Little Closer” e “Shake Me Down” provocaram, ambas cantadas irrepreensivelmente pela maior enchente até ao momento no Palco Vodafone. Visto que o microfone não estava a adiantar de nada para o seu lado, chegou o momento mais bonito do festival inteiro: Matt apontou o microfone para o público para que fossem eles a cantar “Cigarette Daydreams”, e cantaram, pois. Durante aquele momento, todas as palavras da balada dos Cage The Elephant foram meticulosamente cantadas por quase toda a alma presente no recinto, tudo debaixo de um céu de lâmpadas e lanternas crisálidas num mar branco onde ninguém se importaria de mergulhar, com ou sem salmonelas pelo meio. Para encerrar o concerto, revisitou-se Melophobia para resgatar uma “Teeth” com o intuito de gastar o resto das forças que ainda estavam.

“Não vos queríamos abandonar, de todo, mas amanhã temos um concerto na Polónia e o nosso voo é daqui a duas horas. Desculpem!”, desculpou-se Matt minutos antes dos Cage The Elephant abandonarem o palco, gerando múltiplos “PORTUGAL, PORTUGAL!” vindos da multidão. Apesar de terem desperdiçado a oportunidade perfeita de tocarem “Portuguese Kitche Knife”, a verdade é que os Cage The Elephant assinaram um concerto digno de um cabeça de cartaz, mesmo com alguns problemas de som aqui e acolá. Provavelmente, estarão entre nós novamente no Vodafone Paredes de Coura 2018 e, numa conotação mais pessoal, acho que ninguém se importaria de ter Cage The Elephant como a banda residente do Paredes de Coura.

Cage The Elephant @ Vodafone Paredes de Coura 2016

Cage The Elephant @ Vodafone Paredes de Coura 2016

As imagens do nosso Marcelo Baptista para ver aqui:

Vodafone Paredes de Coura, dia 03