Anunciado em março deste ano, o projecto que une duas das bandas punk mais adoradas dos últimos tempos suscitou, já desde aí, alguma curiosidade. Os Wavves de Nathan Williams e os Cloud Nothings de Dylan Baldi iriam juntar esforços não para um split, mas sim para uma colaboração completamente ntegrada entre os seus membros. Um conceito promissor. Apesar de descenderem ambos de cenas muito semelhantes, não deixaria de ser interessante ver como é que o pop punk soalheiro e saturado dos Wavves se iria conjugar com a postura mais crua e agressiva dos seus companheiros de Cleveland.

Eis que, e sem muita cerimónia ou preparativos, nos chega finalmente Wavves x Cloud Nothings com No Life For Me. E está aqui algo a ter em conta num ano que já se está a revelar prolífero em termos de output discográfico para Nathan Williams e a sua recém-formada editora Ghost Ramp (com os lançamentos do primeiro trabalho dos Spirit Club e mais um disco como Wavves em agosto). O que nasceu de uma ideia curiosa tem, na verdade, alguns argumentos bastante válidos para se fazer notar.

Entramos com “Untitled 1”, um instrumental de guitarras fantasmagóricas e melancólicas que não demoram muito tempo até nos levar aos Sonic Youth dos anos 80. Um arranque que fixa desde o início e imediatamente mete o ouvinte a congeminar o que afinal sairá desta colaboração. Depois, de rompante, surge “How It’s Gonna Go” e os verdadeiros juízos podem começar. A primeira voz a surgir é a de Williams, veloz e convicta, comandando uma rajada punk linear e directa, constituída pela relação nua entre a guitarra, o baixo e a bateria, uma natureza mais rapidamente associável com o pragmatismo dos Cloud Nothings. “Baldi” surge logo a seguir para tomar as rédeas, emergindo para cantar o hook, sentindo-se em casa no ambiente paranóico e inquieto da canção. Ainda vamos na segunda faixa e já aqui algumas coisas a apreender.

Esta relação de simbiose e mútuo entendimento é aquilo que predominantemente se encontra em Wavves x Cloud Nothings: uma série de nove temas em que as duas bandas se adaptam e conjugam para criar novas e intrigantes versões do seu próprio som de uma forma muito orgânica e mesclada. O que se ouve ao longo de vinte minutos é um esforço de cooperação onde os dois grupos se escutam um ao outro e vão doseando os ingredientes de cada um em prol da música, funcionando realmente como um único projecto. Esta posição de adaptação é muitas vezes lançada de forma alternada, com a clara percepção de momentos em que a influência de uma banda fica a jogar mais na rectaguarda enquanto a outra assume a
liderança.

Assim, temos entregas como “Come Down”, que apesar da intro de baixo reminiscente a algo dos Death From Above 1979, é essencialmente uma canção dos Cloud Nothings, começando de forma bastante crua e simplista, quando de repente a meio do refrão entram, com toda a pujança, os riffs densos e as backing vocals agudas e ácidas tão reconhecíveis na produção saturada dos discos assinados pelos Wavves. No outro lado do espectro, “Such A Drag” (desde o título até à sonoridade) é inconfundivelmente um momento Nathan Williams na fase de transição para King Of The Beach. A percentagem Cloud Nothings faz-se sentir na produção minimalista e rasgada, que chega até a lembrar os primórdios muito mais lo-fi e noise dos californianos.

Sendo este um disco onde nem todos os papéis estão devidamente explícitos (como podemos ver pela capa, sabe-se, por exemplo, que toda a bateria foi gravada com Brian Hill, integrante dos Wavves, mas d desconhece-se quem toca o baixo, por exemplo) cria-se uma impressão ainda mais vívida de uma fusão solidificada de duas identidades. Torna-se um pequeno prazer descobrir e identificar os traços soltos de cada projecto como quem tenta desvendar sabores num prato, e coçar a cabeça em momentos mais ambíguos como “No Life For Me” e “Nothing Hurts”, sendo esta última a derradeira faixa do disco e uma conclusão algo insonsa e inacabada. No entanto, por muito que seja estimulante ver estas duas bandas a trabalharem juntas, os momentos mais entusiasmantes aparecem quando as dinâmicas atingem conotações mais radicais. Um deles é “Nervous”, onde ambas as faces partem sintonizadas desde início e
eventualmente explodem numa simbiose perfeita onde tudo está alinhado numa agressiva consumação punk. Mais intenso ainda só mesmo “Hard To Find” com as duas bandas a serpentear ferozmente uma à volta da outra num competitivo “puxa para lá” para ver quem é que toma conta da canção. A melhor parte disto é que não se consegue determinar um vencedor neste duelo.

Por fim, Wavves x Cloud Nothings acaba por ser precisamente isto: uma competição (muito) saudável entre duas entidades musicais que conhecem as suas forças e aqui trabalham para as potenciar numa unidade, que não tem tanto de esquizofrénica como de coerentemente variada. A moderar todo este processo, está Joel Williams, irmão de Nathan e metade dos Sweet Valley, que faz as vezes de produtor e empresta os teclados em algumas faixas (incluindo um momento só para si, a outra carta fora do baralho, “Untitled 2”).

Para trás fica, por vezes, a sensação que algumas faixas acabam rápido de mais e soam a inacabadas, algo que se pode entender dada a natureza experimental do projecto. O certo é que é sempre belo ver uma colaboração com este nível de visão entre dois conjuntos que, apesar de tudo, sempre tiveram visões estéticas significativamente diferentes. Resta agora esperar para verificar o que cada banda aprendeu nesta aventura e imaginar que outras possibilidades poderão andar por aí.