A capacidade de arrancar 35 calendários da parede e chegar a 2018 sem a necessidade do artifício e da muleta da referência histórica é uma meta ao alcance de quantos? Rode-se a roleta e corra-se o risco de dizer que se contam pelos dedos de uma mão amputada os nomes de bandas que atravessaram a linha do milénio e que se apresentam com mestria hoje em dia entre, e lado a lado, com os seus filhos de som e de fé.

Os Jesus And Mary Chain sofrem, em 2018, de uma leveza tal que o peso da influência e do legado que deixaram para ser diluído pelos seus pares em noites e litros de rock parece não lhes colocar a etiqueta de monstros da cena, de banda essencial e seminal e os coloca fora do catálogo entediante e redutor das bandas mais influentes de uma década, das bandas que melhor se escaparam das garras daquilo que commumente se meteu no saco dos anos 80 (do punk e dos seus derivados post) e de tudo aquilo que se desenvolveu desde aí na cena indie inglesa. Desde os seus primeiros passos numa Escócia encostada às cordas por tudo o que vinha das terras de sua majestade, a Rainha Isabel II, e pelo seu carrasco de serviço, The Iron Lady, os Jesus foram quase sempre beber mais ao cancioneiro norte-americano do que a tudo o que se passava em Inglaterra. Orgulhosamente sós mas a fazer eco no centro do império. William Wallace deve estar orgulhoso de vocês, putos velhos.

Ao sétimo disco, Damage And Joy, lançado no ano passado e culpado máximo da tour que os trouxe de volta em nome próprio a Portugal depois de 17 anos entregues a concertos em festivais e uma Queima da Fitas no Porto, os The Jesus And Mary Chain editam não o seu disco mais poderoso ou memorável mas  uma certeza: saber parar é um virtude. O disco sucedeu a Munki de 1998, álbum que fechou o primeiro capítulo da história criativa dos irmãos Reid e um capítulo como qualquer outro capítulo de uma banda que vive o rock’n’roll segundo as regras – sim, aquilo do sexo, álcool, leather jackets e tudo o mais que Lúcifer escreveu no manual para se ser um rocker a sério -, numa altura em que a relação entre William e Jim era mais que frágil, como o foi desde quase sempre. E para que precisava o mundo de mais uma guerra de sangue quando já Noel e Liam ocupavam todo o espaço nesse reino? Precisamente, eles acharam o mesmo, e os Jesus saíam de cena e deixavam em branco um espaço que era apenas seu e que, sabe-se agora com toda a clareza o que se desconfiava já na altura, só poderia ser ocupado por eles mesmos.

Damage And Joy veio sublinhá-lo e os concertos da semana passada, reafirmá-lo. O grosso da noite nas portas de Santo Antão não foi de todo circunscrito ao mais recente longa duração de Will e Jim – que deve ter falado mais nesta noite em cima do palco do que ao longo da anterior dezena de aparições por cá em formato live -, mas foi o disco do qual mais canções saíram para o alinhamento da noite lisboeta: “All Things Passed”, “Amputation” – que abriu a noite e que colocou logo os pontos nos Is sobre o poder igualitário das novas canções em palco ao lado de clássicos de sempre -, “Black and Blues”, “Mood Rider” e “War on Peace” – uma demasiado curta mas delicada peça feita daquele psicadelismo que os escoceses aprenderam no livro de instruções escrito pelos Velvet Underground, “Como Montar Um Hino Flutuante”, e que delegaram depois aos Black Rebel Motorcycle Club, aos The Black Angels e a tantos outros.

The Jesus And Mary Chain @ Coliseu dos Recreios

The Jesus And Mary Chain @ Coliseu dos Recreios

E depois há um desfile de clássicos mais ou menos assumidos enquanto clássicos apenas porque enclausurados no termo pela longevidade discográfica. Os clássicos que em 2018 sabem a tudo menos a clássicos, são canções perfeitamente alinhadas ao século onde respiram vida e dinâmica. Uma vida e dinâmica quase divinatórias quando se as coloca na linha do tempo e mentalmente se vira o vinil ou o CD (quem diria que os pequenos acrílicos prateados fossem soar hoje mais datados que o seu big brother de vinil) para ler o ano de lançamento. Sim, continuamos a querer morrer num dia de sol como JFK em “Reverence” como se o sol fosse aquele ali em cima, aqui e agora, e, sim, é esse mesmo céu que abriga o sol de Kennedy que também abriga os coros aqui e agora de “April Skies” da mesma forma resplandecente que queres, aqui e agora, rebentar com as estrelas no céu em “Head On”. Tudo aqui e agora, não em 86 ou 87 ou em 92… Aqui e hoje, é a altura em que as canções dos Mary Chain existem em pleno e existem vivas. Não como uma visita ao museu da adolescência perdida dos fãs de sempre – e que bom é entrar no Coliseu dos Recreios e confirmar que uma nova geração concorda connosco -, mas como uma entidade viva.

“Some Candy Talking” e “Just Like Honey” são superiores em clareza e em doçura ao que eram em Darklands e Psychocandy e acreditas num amor de liceu em 2020 ao som de Jesus; “Half Way To Crazy” é ainda mais a chave na ignição do carro para horas ao volante em estradas costeiras, aqui e agora, e a caminho de uma sanidade que cada vez se perde mais facilmente aqui e agora. A mesma sanidade que dá a volta sobre si mesma em “Cracking Up” e “In A Hole” rasgando de forma mais precisa e menos cortante do que antes mas que sonoriza na perfeição a travessia tempestuosa de viver em pleno século XXI e entre as suas dicotomias do ser e do parecer, do sentir incompletude com tanto e de se saber melhor num outro sitio qualquer que não este… mas sem se saber nunca qual é.

Jim e William Reid, acompanhados agora por Scott Von Ryper dos The Black Ryder, Brian Young (ex-Fountains Of Wayne) e Mark Crozer, colocaram-se definitivamente do lado sunny da força e durante mais de hora e meia garantem que não são um produto de nostalgia para vender saudade, não são uma banda que precisa do passado e que esse mesmo passado era tanto mais que uma marca na história: era uma visão para aquilo em que se transformariam em pleno, décadas depois.

Os The Jesus And Mary Chain já deixaram de ser o que eram porque nunca o foram e são-no tanto mais agora. Seguros de si, em paz entre si, com uma nitidez de som e uma clareza na missão impensável no final do século XX. Nem surf, nem noise, nem pop, nem punk, nem indie, nem psych? Não, porque eles odeiam o rock’n’roll hoje, aqui e agora tanto como antes. Gotta love the way they hate it, don’t we?!